Esta série de ficção faz parte de uma série de narrativas assinadas pelo escritor pernambucano Biu da Silva. Ele lançou recentemente seu primeiro romance, Três Rapazes e Um Quarto (Editora Vizeu).

Rômulo chegou no resort no final da manhã. Da janela de seu flat ficou admirando o azul reluzente das diversas piscinas que se estendiam diante de seus olhos e a faixa verde luminosa do mar ao longe. O ar impregnado de sal marinho batia no seu rosto em lufadas inquietas e fortes. Os risos dos hóspedes espalhados nas mesas em volta das piscinas, os gritos das crianças chafurdando na água e o som tênue de uma canção romântica chegavam até ele em fragmentos. Rômulo, de súbito, teve a sensação de que não estava ali. 

Quando Rômulo encontrou Bruno na hora do almoço, sentiu que algo não estava bem. Na plenitude dos seus 30 anos, sempre alegre e brincalhão, naquele dia, no entanto, Bruno estava cabisbaixo, cara emburrada e calado. O restaurante ainda estava um pouco vazio. Eles pediram um aperitivo, mas quase não tocaram na bebida. Quando o mal-estar entre eles atingiu um clímax perceptível, Bruno olhou para Rômulo e disparou: “olha, não dá mais, esse negócio de ter caso com cara casado é uma merda!”. Rômulo deu um suspiro. “Outra vez, Bruno? Tenha paciência, essas coisas não se resolvem assim. O que eu vou dizer a Isabel? Olha, amor, eu vou te deixar porque estou apaixonado por um boy”. O rapaz franziu a testa. “O quê? Seu porra! Fui eu quem disse que ia largar a mulher para termos mais tempo para ficarmos juntos, foi?  Fui eu quem falou que iríamos viajar para a Europa?” Bruno levantou-se da mesa, encostou seu corpo ao de Rômulo e com a voz crispada de raiva disse lentamente: “você não vai falar? Então falo eu”. Não esperou resposta e saiu do restaurante. Rômulo permaneceu sentado. Aquela era a enésima vez em que Bruno fazia aquela ameaça. Nunca concretizada. 

Uma rajada de vento mais forte trouxe Rômulo de volta ao resort. Foi até o frigobar, pegou uma cerveja, foi até a varanda e ficou olhando o céu. Raiva, tristeza, pena de si mesmo, se mixavam com as lembranças dos últimos meses. Os encontros secretos com Bruno nos motéis, o sentimento de culpa quando estava ao lado de Isabel, o êxtase de cada gozo compartilhado com o corpo tenro e cheiroso de Bruno, as desculpas esfarrapadas que inventava quando Isabel demonstrava desejo de fazer sexo e ele tinha passado a tarde trepando com o amante. Enquanto devaneava pela memória, entre um gole e outro de cerveja, o celular de Rômulo deu vários toques seguidos. O nome de Bruno apareceu em cinco mensagens de alerta do WhatsApp. Rômulo as ignorou. Estava puto com ele. Agira como um mocinho bobo, em vez de aproveitar tudo que ganhava dele. Seus dedos deslizaram então pela tela do celular e ele clicou sobre o ícone do Grindr. 

Depois do almoço frustrado, Rômulo voltou ao escritório. Tinha contratos importantes para firmar e não podia desperdiçar tempo. Ao chegar em casa, por volta das oito horas da noite, encontrou a mesa posta, arrumada de tal forma que evidenciava a realização de um jantar especial. Notou que as secretárias e a governanta já tinham ido embora. Isabel estava na cozinha e dava os últimos retoques numa salada composta por folhas, tomates cerejas, cubinhos de queijo gouda, presunto tipo parma e nozes. “O que temos hoje de tão diferente?”, Rômulo perguntou meio cismado. Isabel estava sorridente. “Esqueceu? Hoje está fazendo vinte anos que nos conhecemos”. “Meu Deus! Ô meu amor, nem lembrei!” Aproximou-se da esposa e posou a mão levemente sobre seu ombro. “Eita cabeça de vento essa minha”. Sem se virar, Isabel deu um riso. “Eu sei, eu te conheço, vá tomar banho enquanto eu termino de arrumar essa salada aqui”. Rômulo aquiesceu e seguiu para a suíte do casal. Para compensar o esquecimento, vestiu-se com esmero para demonstrar à esposa que dava importância à comemoração pretendida por ela. O jantar transcorreu sereno. Depois de comerem, foram para o sofá, abriram uma garrafa de Château Cheval Blanc, safra 2016, e relembraram os tempos de namoro, os tempos das vacas magras, quando Rômulo era ainda assalariado e não o profissional bem-sucedido e bem de vida como agora. Dali a instantes, uma série de avisos sonoros ecoaram do celular de Isabel, perturbando o idílio do casal. Ela pegou o aparelho e abriu as mensagens. Alguns segundos depois ela levantou a cabeça levemente e fitou direto os olhos de Rômulo. 

Ao clicar no Grindr, Rômulo ficou espantado com a quantidade de homens disponíveis para encontros nas redondezas. Mais ainda ao ver que boa parte deles eram de pessoas que estavam a poucos metros de distância, ou seja, no mesmo resort em que estava hospedado, um local frequentado, sobretudo, por casais jovens e famílias da classe média alta. Os nicknames e fotos eram as usuais: atv dotado, só curto coroa, turista, pentelhudo, passivo discreto, a fim de que?, gostoso 23 cm, sigilo absoluto…. Rômulo estava percorrendo o app sem grande interesse, quando recebeu uma mensagem de Kzdo vs kzdo. Abriu as mensagens e além de um “oi” inicial os balõezinhos azuis se sucediam:

“Sou casado com mulher / Procuro sigilo / Tb estou no Village / Vamos nos conhecer? / Geralmente deixo a esposa dormir e desço por volta das 21h30 / Vc está onde?”. Como os discretos e sigilosos, invariavelmente, não trazem fotos nos perfis, Rômulo não podia ver com quem iria conversar. Mas isso não o intimidou.

Isabel estava sentada na beira da cama imóvel. Rômulo, em pé, ao lado da porta do quarto, hesitava em dar o próximo passo. Ele sabia que seguir em frente era mergulhar em um mundo para o qual ele não estava preparado. Mas, não havia outro jeito. Murmurou um “estou indo” quase inaudível e saiu. Atravessou a grande sala do apartamento em passos lentos, olhando os móveis, os vasos com flores, os quadros de artistas renomados espalhados pelas paredes, a garrafa com um resto de vinho sobre a mesinha junto ao sofá, uma taça ao lado e a outra taça, virada sobre o tapete cercada por uma mancha rubra. O celular da esposa estava jogado no sofá com a tela iluminada. Nele uma foto sua com Bruno, despidos e abraçados num quarto de motel. Rômulo fez um reload mental e, mais uma vez, ouviu a voz chorosa, quase fantasmagórica, de Isabel: “você não devia ter feito isso comigo”. Com os olhos embaçados por lágrimas, Rômulo desceu até a garagem pelas escadas do prédio para não ser visto, pegou o carro e saiu. Ficou circulando pelas ruas desertas até uma nesga de luz matinal brilhar no horizonte. Pegou, então, a rodovia litorânea e seguiu.

O interessado em conhecer Rômulo tinha 35 anos e estava apenas a 73 metros. Rômulo retornou as mensagens. “Oi / Vc é muito jovem, não sei se vai se interessar por mim, tenho 52”. Kzdo vs kzdo não titubeou. “Eu gosto dos mais velhos / Vc é casado tb?”. Rômulo respondeu que era divorciado. O outro seguiu na enquete. “Tá em família ou acompanhado? / Sou mais passivo… porém curto uma pegação”. Mal acabara de ler a última mensagem de Kzdo vs kzdo, Rômulo recebeu outro alerta enviado por alguém que se identificava como Só curto maduro. “Boa noite / Tenho 33 anos e só curto coroa / Quantos anos vc tem?”. Pela distância assinalada, Rômulo suspeitou que ele estivesse no hotel ao lado. Rômulo aumentou a idade. “Tenho 60”. Só curto maduro demorou um pouco para responder. “Sou casado / Amanhã posso dar uma voada / Hoje não posso mais/ Tipo 9 horas quando sair para dar uma caminhada”.

Enquanto dirigia pela rodovia litorânea, Rômulo gravou uma mensagem pelo WhatsApp e a enviou para Bruno. Nela acusava o amante de egoísta, infantil e inescrupuloso. Reclamava que Bruno não via o lado dele, não via como ele sofria e não reconhecia os sacrifícios feitos para passarem algumas horas juntos.  E, agora, ele tinha colocado tudo a perder ao contar para Isabel que eles tinham um caso. Encerrou pedindo para Bruno não o procurá-lo mais. Em seguida, ligou para a esposa. O telefone estava desligado. Com o sol já brilhando no horizonte, Rômulo entrou numa estrada de terra e foi até a beira mar. Desceu do carro, foi até a praia quase deserta àquela hora e deitou-se na areia. Pegou no sono e abriu os olhos quando sentiu o calor afogueando a pele de seu rosto. Voltou para o carro e escolheu um lugar para se hospedar.

Rômulo retomou a conversa pelo Grindr com Kzdo vs Kzdo. Marcaram de se encontrar às dez da noite na praia em frente ao resort. Só curto maduro continuou perguntando se eles podiam se encontrar, mas Rômulo não respondeu. Pediu ao bar do resort umas garrafas de vinho e ficou bebendo até o horário do encontro. Às dez em ponto chegou na praia. Kzdo vs Kzdo já estava lá. A luminosidade era pouca, mas dava para ver bem o outro homem. Era um tipo comum com aparência de alguém com mais de 35 anos, 40 talvez. Vestia uma bermuda jeans e uma camisa polo amarela. Via-se que ele estava nervoso. Trocaram um oi tímido e Kzdo vs Kzdo caminhou em direção a umas moitas de mato que cresciam num terreno desocupado ao lado do resort. Rômulo o seguiu e quando entrou numa pequena clareira, Kzdo vs kzdo já estava nu. “Você gosta de fazer o quê?”. “Sou versátil”, respondeu Rômulo sem muita convicção. Kzdo vs kzdo se aproximou, abaixou-se, arriou a calça de Rômulo, acariciou o seu pênis e já começou a chupá-lo. Rômulo se entregou à boca ávida do homem e ainda lhe deu umas tapas na cara. Kzdo vs Kzdo gemia e, a cada bofetada, abocanhava ainda mais o pau de Rômulo que não demorou a ejacular. Kzdo vs Kzdo engoliu o esperma e se masturbou até gozar. Ligeiro como um lagarto em fuga, ele se recompôs e rumou para fora da moita. “Foi muito bom, seu pau é muito gostoso”, disse às pressas e sumiu. Rômulo permaneceu uns instantes com a calça arriada. Estava ainda meio tonto por causa do vinho. Abotoou a calça e caminhou devagarinho de volta ao resort.  Ao chegar ao quarto, jogou-se na cama e dormiu.

Eram 8 horas da manhã quando o celular de Rômulo tocou. Era Isabel. “Você está onde? não vai voltar pra casa não?”. Rômulo com a voz ainda meio sonolenta disse apenas “Vou, no final da manhã estou chegando”. “Está bem”, respondeu Isabel, desligando logo em seguida. Rômulo tomou um banho, ajeitou a bolsa que tinha trazido e desceu para a recepção. Quando se aproximou do balcão reconheceu o homem de meia estatura que também estava fazendo o check-out. Ao seu lado uma mulher de corpo descuidado, ar triste, segurando as mãos de duas crianças. Kzdo vs kzdo ignorou a sua presença. Rômulo pagou a conta e partiu. Quando chegou em casa por volta das 13 horas, Isabel estava terminando de dar ordens à cozinheira para o almoço. Ele deu boa tarde. Isabel respondeu sem externar nenhuma emoção, mas também agindo como se nada tivesse acontecido entre eles. “Pedi para fazer um peixe ao molho de tomate, aquele que você gosta”. “Obrigado”, disse Rômulo saindo da cozinha e indo para o quarto. Enquanto almoçavam, Isabel perguntou-lhe se a viagem para Nova York que haviam programado para o mês seguinte continuava de pé. “Preciso ver lojas bonitas, comprar uns vestidos novos…”.

Rômulo saiu do escritório por volta das 16 horas. Bruno já o esperava em frente ao café, onde sempre se encontravam. Se cumprimentaram desconfiados. “Vamos logo para o motel, estou doido para dar uma trepada”, disse Bruno com um riso malicioso. No percurso até o motel, que não ficava muito distante, falaram amenidades sobre o clima. Havia uma tensão pairando no ar, mas nada do episódio recente entre eles veio à tona. No quarto do motel, sem preâmbulos, se agarraram com violência. Bruno empurrou a cabeça de Rômulo até seu pau. Depois de deixar Bruno de pau duro, Rômulo deitou-se de bruços e entregou-se ao amante que antes de penetrá-lo desferiu várias tapas fortes nas suas nádegas, deixando-as com grandes marcas vermelhas.  Quando Rômulo gozou, Bruno o agarrou pelas costas e sussurrou: “você ainda vai alugar aquele apartamento pra mim como você prometeu?”.