Morri por uma overdose de ópio no , em Nantes, em 6 de janeiro de 1919. A guerra havia terminado e ainda convalescente de um ferimento provocado por fragmentos de um obus eu esperava a desmobilização de meu regimento de infantaria. Não tinha muita certeza do que iria fazer quando aquele dia chegasse. A ideia de voltar à medíocre vida burguesa, trabalhando na indústria de meu pai não me parecia a melhor coisa a ser feita, sobretudo após conhecer Jacques.

 O impacto emocional do meu encontro com Jacques me lançara numa espécie de vida paralela bem diferente dos últimos anos mergulhado na lama das trincheiras em meio a corpos despedaçados. O humor fino e mordaz e o dandismo rebelde a la Wilde, me encantaram desde o primeiro momento em que nossas almas se encontraram no acampamento americano em Saint-Nazaire, no final de 1917. Jacques era como versos arrebatados de um poema de Verlaine e, ao mesmo tempo, um personagem anárquico e inusitado que parecia ter saído das páginas do Ubu, de Jarry. 

Assim como eu, Jacques também desdenhava da estupidez da guerra e nunca se rendeu à feiura e à sujeira reinante no front. Mantinha seus cabelos castanhos impecavelmente penteados para trás, o rosto belo e luminoso sempre sem pelos e o mesmo porte elegante dos personagens dos desenhos que vivia rabiscando, desde que tivesse uma folha de papel à mão. O passado familiar ligado à vida na caserna, seu avô e o pai foram militares, não era motivo de orgulho. Jacques preferia recordar o escândalo e a polêmica desencadeada na vida provinciana de Nantes com os escritos publicados, por ele e amigos, quando ainda era estudante, episódio que o levou a ser expulso do liceu onde estudava. 

Eu esperava os encontros com Jacques em meio a uma grande ansiedade. Na possibilidade de ter alguma licença, ficava imaginando se conseguiria vê-lo, se em vez de ficar em Nantes, quando poderíamos passar as noites perambulando pelos bares, ele não teria ido a Paris encontrar os seus amigos escritores e, entre eles, André, um jovem irreverente, cujo amor por Jacques era facilmente percebido. Minha maior alegria, portanto, era receber uma carta de Jacques confirmando que estaria me esperando para irmos ao cinema ou ao Teatro de Apolo, na rua Racine, assistir a uma peça de teatro.

Ao ver Jacques, a melancolia que me atormentava constantemente desde a minha convocação para a guerra, desaparecia. Os olhos miúdos cintilantes e o sorriso delicado desenhado pelos seus lábios finos quando me encontrava me davam a certeza da existência de um pacto entre nós que não precisara ser declarado. Não me importava com a sedução e o fascínio por ele exercidos sobre mim. Quando sua mão tocava o meu rosto e envolvia minha nuca, sentia meu espírito acariciado. Depois de jantarmos, bebermos algumas garrafas de vinho, invariavelmente íamos ao hotel onde entregávamos nossos corpos aos jogos do amor e fumávamos ópio, hábito adquirido com a guerra para suportar as dores físicas e existenciais por ela provocada.

No dia seguinte, ainda sob o efeito anestesiante da substância que a deusa Deméter tomara para esquecer o estupro de sua filha Perséfone, quase sempre ficávamos despidos deitados, horas a fio, falando de poesia, de teatro e dos projetos que Jacques não parava de idealizar. Por vezes, uma tristeza vaga, mas profunda nos invadia. O retorno ao front, a necessidade de manter aquele amor interdito aos olhos do meio onde vivíamos não raro levava Jacques a falar sobre o suicídio como solução para aquela angústia perene em nossas vidas.

Quando o armistício foi anunciado em novembro de 1918, os combates haviam cessado, mas o efeito de todos aqueles anos convivendo com a morte à espreita não desapareceu. Jacques me mostrou uma carta que escrevera para o seu amigo André. Após alguns comentários sobre o teatro de Apollinaire e as agruras da vida militar, ele dizia ter se recusado a morrer em tempo de guerra: só morreria quando ele quisesse morrer.  Na sequência, afirmava, porém, que morreria com alguém ao seu lado, de preferência com um de seus melhores amigos, pois, para ele, seria muito entediante morrer sozinho. Ao ler aquele trecho, aparentemente mais uma de suas boutades, lancei um olhar inquieto para Jacques e ele me sorriu. Disse para eu não me preocupar, seria eu, Paul, seu companheiro de partida.

Depois daquela carta, não mais me abandonou o espírito uma ligeira sensação de volúpia de morrer nos braços de Jacques. Ao menor desencanto, a uma irritação ligeira, meu coração sofria uma leve aceleração e via seu rosto próximo ao meu oferecendo sua boca para beijá-lo. Um beijo que poria fim aos nossos dias. Enquanto eu soçobrava na tristeza, Jacques expandia-se em excessos. Sob a justificativa de me alegrar, ele propunha nos entregarmos ao prazer, bebíamos absinto, dançávamos nos prostíbulos e no auge de nossos devaneios me dizia: Paul! A arte é uma loucura! Ela precisa ser engraçada e esmagadora! E seguíamos assim rindo, abraçados pelas margens da Loire. Quem visse aquelas demonstrações efusivas, apenas pensaria estar vendo os arroubos de dois jovens irresponsáveis embriagados, quando, na verdade, éramos dois corações enamorados e, ao mesmo tempo, fustigados pelas sombras de um destino incerto. 

Foi nessas andanças que conhecemos Warnow, um sammier, de pele morena, com bigode bem talhado e cabelos crespos cortados rente a nuca. Como boa parte dos soldados americanos acampados em França, Warnow transmitia vitalidade e alegria. Seu corpo bem feito e ágil exalava sensualidade e despertava desejos eróticos. Não tardou para que passássemos a fazer sexo os três. Durante alguns dias, o intenso prazer dividido desanuviou a amargura que nos acometia, embora na maioria das vezes, Warnow apenas observasse nossa intimidade como se admirasse a paixão com que Jacques e eu entregávamos nossos corpos um ao outro. 

Na noite do dia 5 de janeiro encontrei Jacques num café da rua Racine. Ele estava mais silencioso do que o habitual. Não dei muita importância a este fato, afinal havia dias em que era eu quem me comportava exatamente da mesma maneira. Pouco depois, Warnow chegou acompanhado por Émile e Marcel, um soldado da artilharia. Quando Jacques colocou sobre a mesa um pequeno pote de porcelana descobri que ele convidara os rapazes para fumar ópio e ficar de pernas para o ar, eufemismo para dizer que iríamos fazer sexo em grupo. 

Meu amor por Jacques não impedia nenhuma de suas propostas. Morte ou prazer, não havia distinção, estar ao lado de Jacques era o que importava. No meu quarto do Hotel de France nos lançamos ao consumo de cigarros egípcios e em um pequeno cachimbo a compartilhar o vapor inebriante do néctar das papoulas asiáticas. Marcel não gostava de ópio e decidiu ir embora. Pouco depois, Émile sentiu-se mal e nos deixou. Apenas Warnow ficou sentado na poltrona em frente a cama com o olhar perdido em seus próprios delírios. Eu e Jacques nos despimos e começamos a nos acariciarmos, até ficarmos excitados o suficiente para realizar aquele ato sublime que nos unia cada vez mais. 

De tantas vezes em que havíamos feito sexo, aquela de longe havia sido a mais intensa e iluminada. Jacques fixou seus olhos nos meus como nunca havia feito antes. Pela janela o sol de inverno lançava seus raios tênues aos nossos pés. Warnow dormia profundamente. Jacques pegou minhas mãos, as beijou com solenidade e encostou a palma da minha mão direita na sua face. Um nó na garganta e a vista embaçada me trouxeram de volta a sensação de volúpia que me perseguia há dias. Jacques pegou o pote de porcelana e disse que estava na hora de realizarmos o nosso último ato. Hipnotizado pela beleza do instante estendi a mão e nela Jacques colocou uma grande quantidade de pasta de ópio. Pegou também para si e, juntos, ingerimos a passagem para o desconhecido. Permanecemos deitados lado a lado, Jacques deu um sorriso com ares de vitória e eu o respondi com a mesma intensidade, um leve toque em nossas mãos foi o último gesto compartilhado em vida, em seguida as pálpebras pesadas pelo entorpecimento interromperam a entrada da luz até os nossos cérebros. 

Quando Warnor acordou encontrou os dois corpos sobre a cama. Desesperado, recompôs-se apressadamente e saiu correndo para avisar o gerente do hotel sobre o ocorrido. Quando a polícia chegou era tarde demais. Os pulmões de Jacques ainda se movimentavam de forma quase imperceptível. Tentaram reanimá-lo, mas em poucos segundo eles pararam de vez. Os jornais de Nantes noticiaram o episódio, omitindo os nossos sobrenomes por pertencermos a famílias importantes. Os corpos nus foram um problema para os jornais explicarem o que havia ocorrido. Falou-se em acidente, de inexperiência no consumo de ópio, de que a nudez seria uma espécie de ritual, rumores pela cidade falaram de encontros sexuais furtivos entre nós, mas em poucos dias o assunto foi esquecido.

As ligações de Jacques com escritores e artistas o transformaram, contudo, num personagem mítico da Nantes das letras e das artes. Anos depois, as cartas, a eles endereçadas, foram publicadas e sua influência sobre André o consagrou como um dos precursores de um relevante movimento artístico. O dândi excêntrico que usava lenços de seda nas trincheiras, que adotava, por vezes, um pseudônimo anglófono, fruto de seu domínio da língua inglesa e o trabalho como intérprete junto às tropas inglesas e americanas, sobreviveu ao corpo físico consumido pelos opioides. 

De mim ninguém disse muita coisa, a não ser que estava despido ao lado de Jacques. André, por conta da carta recebida meses antes, insinuou que Jacques preparara o seu suicídio como um ato teatral e que eu teria sido o coadjuvante e os demais amigos a plateia. André carregava uma estranha homofobia latente. Não me importei com o papel a mim atribuído. Na verdade, o meu amor por Jacques sempre foi maior do que tudo que foi dito a posteriori. Agora, vagando pela eternidade, carrego no meu corpo etéreo a luz violeta dessa paixão cuja intensidade ainda ecoa por aí inebriante e terna.

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Crítica-HQ: Supermercadinho Brasil, de Lobo Ramirez, é uma lente de aumento no que temos de pior