Tem gente que se lembra de coisas de quando era bem pequeno. Eu não. Não lembro sequer da minha mãe. Sei que tive uma, bebi seu leite. Sei que ela me amou. Mas não sei como era sua cara ou a cor dos seus pelos. (Foto: Pixabay/Divulgação).

3.

Homens fardados de preto e empunhando rifles acompanhavam médicos e enfermeiros que utilizavam máscaras e macacões brancos. Os equipamentos cobrem seus corpos da cabeça aos pés. Só conseguia ver os seus olhos. Era impossível sentir seu cheiro. Eles estão espalhados por todos os cantos da cidade, caminhando em grupos de cinco ou mais. Empunhando medidores de temperatura e seringas com remédios. Abordam qualquer pessoa nas ruas. Invadem casas e arrancam crianças, homens e mulheres. As pessoas são jogadas em caminhões estacionados nas esquinas das grandes avenidas. De dentro das caçambas eu consigo ouvir gritos, pedidos de socorro e um choro constante. São os infectados. O corte da energia elétrica no Recife, a cidade mais afetada por uma pandemia que ninguém sabia explicar direito, tinha deixado a cidade inteira na penumbra. Eu farejava medo por todos os cantos.

Nós três estávamos enfileirados, lado a lado, escorados à parede lodosa do beco do bajado. Um conjunto de caixas de madeira e de papelão faziam a sombra necessária para que os guardas que passavam não pudessem nos identificar. Fizemos o trajeto da Boa Vista até Olinda nos esgueirando pelos cantinhos da cidade. Nos escondendo nos matos, passando por baixo de carros e caminhões. Tínhamos que chegar à casa de Matilde, a mãe Marta. Uma senhora com mais de 80 anos e que, segundo ela, estava reunindo em casa um séquito de pessoas iriam sair juntas para regiões ainda intocadas pelo vírus. No telefone de Marta  chegam relatos de amigos e pessoas próximas que tiveram seus parentes arrancados de casa e levados para um destino sem explicação. Esperávamos silenciosos a hora de sair daquela situação. Por mim deveríamos atacar os guardas pelos pés. Derrubando eles no chão e fugindo. Luís preferia a precaução. Esperar a rua esvaziar para descermos à casa de Matilde. Nossa única esperança.

Vimos quatro pessoas serem arrastadas pelas ruas e jogadas na caçamba do caminhão. Uma delas, nitidamente doente, foi nos braços do policial. Um homem os acompanhava aos prantos e gritava “soltem minhas filhas”. Elas foram colocadas dentro do caminhão, os fardados de preto, junto com os fardados de branco subiram também e o caminhão partiu. Fiquei devastada ao ver aquele senhor ajoelhado no chão chorando. Saímos vagarosamente do nosso esconderijo improvisado. Confirmei se Luís estava com a caixa de sapatos nas mãos e fomos correndo. Eu queria parar e amparar aquele homem. Mas não tinha como, precisava seguir meu bando. Quando estávamos descendo a rua, já chegando na esquina, senti alguma coisa se mexendo lá trás. Olhei de volta e de relance ele estava de pé apontando pra gente, rodeado de guardas. Era a nossa condenação neste tribunal de causas realmente pequenas. Corremos mais forte!

1.

Há mais ou menos uma semana, o barulho da televisão se tornou cada vez mais estridente. Conseguia sentir o tom alarmista na voz das pessoas que irradiavam na tela. Era possível ver nas mínimas atitudes de Marta um cuidado exacerbado. Muito além do normal. A demora em lavar os pratos, a insistência em retirar a sujeira das portas, maçanetas, frestas e janelas. Ela passava a roupa com força, queimando o tecido, como se quisesse incinerar alguma coisa. Ela sempre fora cuidadosa, mas não daquela forma. Percebi que algo realmente tinha mudado quando ela e Luís começaram a ficar mais em casa. Eles sempre faziam saídas intermináveis. E de repente eram tardes inteiras no sofá ou na rede. No começo de tudo, bem no começo, eram intermináveis as chegadas de guloseimas na nossa porta. Doces, tortas, frutas e mais um sem número de iguarias. Nessa semana eu sentia uma fome irremediável. Estava muito além do meu peso. A barriga bem proeminente e mesmo assim, a consciência do excesso de calorias não fustigavam meu paladar.

Por uma semana o crescimento da tensão era notório. No sábado, lembro bem da data, as coisas tomaram outro contorno. Era ensurdecedor o barulho das ruas. Explosões, pessoas gritando, um conjunto enorme de sons desconexos e que fizeram Marta e Luís arrastar móveis para as portas, encher baldes e racionar comida. O dia que veio em seguida nada teve haver com aquele sábado. Os sons estavam muito mais contidos, mas a tensão tinha ganhado novos contornos.

2.

Eu tinha completado quatro anos naquela tarde de segunda-feira e não havia recebido nenhum tipo de felicitação, presente ou gesto especial. Não que eu tenha vaidade correndo em minhas veias e só consiga passar por essas datas com mesuras e bajulações. Pelo contrário. Coisas simples me enchem os olhos. Quando fiz essa constatação, notei que estava há um tempo perambulando ofegante no apartamento, metida num eterno ir e vir entre a sala, a cozinha e a área de serviço. Meus pêlos negros reluziam no contra luz e criavam um belo reflexo cambaleante nos tacos que haviam sido encerados há dois dias.

Voltei, olhei meu reflexo com mais atenção e só agora consegui me dar conta do quão é inoperante e sem propósito esse balé. Eu conheço cada um dos espaços dos 120 m² do apartamento 1001, bloco A, do Edifício Canavial, incrustado bem no centro da cidade do Recife. Nada aqui entra ou sai, sem minha humilde inspeção. Só precisava colocar a cabeça para pensar e selecionar o melhor local para me acomodar. Cheguei nova por aqui. Somente com um par de meses. Não lembro de muita coisa antes de me dar conta de que isso aqui é o meu lugar. É de onde eu vim e para onde eu vou. Tem gente que se lembra de situações e coisas de quando era bem pequeno. Eu  não. Não lembro sequer da minha mãe. Sei que tive uma. Sei que bebi seu leite. Sei que ela me amou. Mas não sei como era sua cara ou a cor dos seus pelos. Curtos, dourados, longos, pretos. Sei lá. Tive mãe. Quanto à isso não há dúvidas. Todos tiveram mãe. Eu, logo eu, não poderia ter vindo do nada. Como ela se chamava, qual o seu temperamento, como se relacionava com meus outros irmãos, será que eu tinha outros irmãos…essas dúvidas vem e vão na minha cabeça. Principalmente agora. Sou jovem demais para que minhas lembranças viagem para longe no meu passado. Aliás, eu não tenho muito passado. Mas o que eu preciso mesmo é encontrar um local bom, confortável, seco, seguro, mas que seja de fácil acesso, escuro e quente….Embaixo do armário da cozinha parece ser o lugar ideal. Vaticinei já sem tempo. Aqui eu posso ficar longe dos olhares curiosos de Marta e Luís. Conseguiria dar conta de tudo que iria ocorrer pela casa e, finalmente, poder ser mãe, em paz.

Sessenta dias de gestação, seis filhos para chegar, sentia eles se contorcendo dentro de mim. Sabia, de forma quase inconsciente, tudo que tinha de fazer. Patas dianteiras levantadas e as traseiras no chão, de forma que ficasse inclinada, cerca de 40º. Tinha de ser precisa na posição adequada para que meus meninos e meninas, uma surpresa ainda, chegassem incólumes e brotassem no mundo sem muito esforço. Entre a dor e a realização. Soltei um grito de felicidade. Vi a vida e a morte saindo de mim. Um deles chegou sem respirar. Durou pouco. Só alguns instantes. Adoeci de dor por segundos. Quis lamentar, mas eu não podia. Guardei o ressentimento para outro dia. Cinco deles precisavam da minha plena atenção. Dedicação full time. Agora era papo reto. Nada de banhos de sol intermináveis na varanda. Porta bateu, booooooooooooom, passos pesados irradiavam o corredor contíguo à cozinha. Tem alguém vindo conhecer meus filhos.

Luís chegou tremendo. Essa era uma situação contumaz desde a última semana. Ele estava ofegante e eu estava feliz, mas não quis que ele encostasse neles. Rosnei. A capacidade de julgamento dele estava severamente comprometida. A respiração profunda me deixava com dúvidas sobre as suas intenções. Ele me ajudou, limpou cada um dos meninos, sim, eram todos meninos, e de longe vi Marta manejar uma bolsa e uma mala não muito grande. Ela me saudou com uma rápida mesura. No começo me senti ofendida. Era isso que eu tinha de receber por tão linda prole? Quando me virei, os meninos estavam numa caixa, Luís e Marta com uma mochila nas costas, a coleira pendurada em meu pescoço. Iríamos sair. Eu estava exausta, mas estava feliz. Há tanto tempo não saia de casa. Depois de empurrar os móveis, afastar os cacos de vidro, fomos os três, cambaleantes pelas escadas. Luís segurava com força a caixa de sapatos com a única coisa que garantiria minha prole no mundo. Tinha fumaça por todo o lado. Antes de descer os degraus, me virei. A última coisa que vi do nosso aconchego foi o corpo do meu filho natimorto sendo comido por ratos que invadiram nosso apartamento.

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