Tércio e Anderson entraram na classificação de isolados estabelecida pelas autoridades da colônia para os habitantes que tinham cumprido missão na estação orbital Centauro. Um vírus alienígena havia contaminado boa parte dos que nela estiveram nos seis últimos ciclos tempus. Muitas pessoas, até então consideradas imunes, tinham apresentados sinais de contágio. Depois de sentirem uma súbita forte dor de cabeça, desenvolveram os mesmos distúrbios de memória apresentados pelas demais vítimas do vírus. O grau dos distúrbios variava de lacunas da memória recente a casos graves de amnésia total com o apagamento de todas as lembranças. Até o momento nenhuma anomalia havia se manifestado em seus cérebros, mas eles precisavam ficar separados dos demais moradores até que os antídotos em desenvolvimento estivessem finalizados. Quando recebeu a intimação para permanecer em isolamento absoluto, Anderson estava no casulo de Tércio, na zona de regeneração ambiental. Ambos haviam passado uma temporada recente na Centauro. Instantes depois, foi a vez de Tércio também ser registrado na mesma condição. Um campo eletromagnético formando um círculo com duzentos metros de raio foi acionado por um dos satélites de vigilância da colônia e eles teriam que ficar confinados nele até nova ordem. Qualquer tentativa de sair do perímetro do campo acionaria uma descarga quântica que os colocariam em coma imediatamente. 

A zona de regeneração ambiental era uma área agradável, com muitas árvores e uma temperatura amena mantida artificialmente pelo cinturão térmico. Tércio estava acompanhando o crescimento de algumas plantas que haviam sido alvo de experimentos genéticos na estação orbital. Ele e Anderson se conheceram na Centauro havia dois universae annis. Ambos voltaram à superfície na mesma época e, desde então, se encontravam quando era possível. Tércio era humano e com formação em botânica, enquanto Anderson era um bioborg, um humano gerado e desenvolvido em laboratório com implantes de instrumentos de robótica. Por suas habilidades, ele era agente de entretenimento. Sua função era visitar as estações orbitais e auxiliar na distensão dos cientistas com estadias prolongadas, realizando com eles sessões de relaxamento mental e físico. Embora fosse raro, laços afetivos surgiam entre os agentes e os por eles atendidos. Não havia nenhuma interdição formal por parte dos administradores das colônias para essas relações, mas esse tipo de convivência não se multiplicava por conta da própria programação e condições de trabalho dos agentes, sempre em deslocamento para prestação de serviços em outros departamentos. Tércio e Anderson eram um desses casos que fugiam à regra. A permissão para se visitarem foi acatada, uma vez que Tércio vivia sozinho e distante de Tespis, o núcleo habitacional central da colônia. Tantos os bioborgs com características femininas, quanto os de características masculinas eram fisicamente atraentes. Anderson tinha um biótipo dos antigos habitantes da região terrestre da Escandinávia antes da hecatombe do ano terrestre de 2086. Alto, esbelto, ombros largos, olhos esverdeados, lábios róseos, nariz grande afilado e cabelos em tom castanho claro, quase loiros, dir-se-ia um habitante da mitológica Asgard. Cortez e atencioso, ele despertou em Tércio o desejo de prolongar os contatos. Agora, afastado do centro da colônia, ele passou a solicitar, de tempos em tempos, a visita de Anderson para lhe fazer companhia.  Nas ocasiões em que passavam juntos, ouviam música, usavam LSD-alfa, trocavam carinhos e faziam sexo. 

Quando o campo eletromagnético foi acionado, uma leve sensação de angústia agitou os pensamentos de Tércio. A área sob sua responsabilidade tinha cerca de dois hectares, mas o casulo era relativamente pequeno para duas pessoas. Durante o dies borealis podiam caminhar no exterior nas primeiras horas do ciclo luminoso. Logo cedo a temperatura não passava dos 22 graus e a incidência da radiação ultravioleta não era danosa para o organismo. Durante o ciclo de trevas, tinham que permanecer no casulo, pois poderiam ser atacados por insetos carnívoros. Na zona de regeneração era proibido interferir no ecossistema para não desequilibrar a frágil flora e fauna da colônia e nenhuma ação contra os insetos podia ser feita. Essa súbita restrição de movimentos desagradou a Tércio. O confinamento a uma pequena área de circulação, fora, inclusive o motivo de seu pedido para sair da Centauro. Já Anderson não esboçou nenhuma grande reação quando recebeu o aviso do isolamento. Apenas perguntou se Tércio tinha suprimentos suficientes para um período cuja duração era imprevisível, caso contrário, teriam que solicitá-los ao centro de controle de alimentos. “Sim, tenho um bom estoque de nutrientes processados e tenho licença para cultivar uma horta na estufa que nos dá legumes e verduras frescas diariamente”. “Ótimo”, respondeu Anderson acompanhado por um sorriso leve. Tércio gostava de Anderson por sua serenidade. Nunca tinham ficado muito tempo juntos, mas percebia, nas ocasiões em que ele lhe fazia companhia, que o bioborg, pela forma como agia, era uma criatura metódica, cuidadosa com suas coisas e não era invasiva. 

Desde os primeiros ciclos luminis do isolamento, a convivência entre Tércio e Anderson revelou-se harmônica. Estabeleceram de maneira compartilhada uma rotina de atividades. Acordavam assim que o satélite térmico entrava em funcionamento. Em seguida comiam algo leve, davam uma caminhada, colhiam legumes na horta para as refeições e faziam exercícios físicos. Tércio era um pouco preguiçoso para atividades que exigissem muito esforço, mas achou bom Anderson incentivá-lo. Seus exercícios eram mais leves em comparação ao do companheiro, mas ajudavam na melhoria da sua circulação sanguínea. O esforço era recompensado pelo deleite que sentia ao ver o belo bioborg, apenas de sunga, exibindo seu peito bem desenhado e movimentando, num ritmo lento e sensual, os belos braços dotados de uma robustez suave e as longas pernas de coxas tenras e maleáveis.  Após o escurecer, depois de jantarem, Tércio preparava chás de cogumelos. À revelia dos administradores da colônia, ele vinha cultivando diversas espécies que descobrira em forma selvagem no campo. Certos cogumelos tinham efeito relaxante, outros eram excitantes e havia ainda os alucinógenos, os que mais gostava. A princípio, Anderson não quis beber os chás. A única substância que consumia era o LSD-alfa fornecido pela colônia. Anderson não costumava conversar muito e falava pouco de si mesmo.  Um dos raros momentos em que ele engrenava algum diálogo era quando estavam acompanhando as informações e notícias sobre os acontecimentos na colônia, transmitidos pelo monitor instalado no casulo, único instrumento de comunicação com o mundo exterior, além de seus comunicadores pessoais. Mesmo assim não eram longos comentários, apenas algumas observações lacônicas ditas de forma distante e fria. Com o passar do tempo, porém, para alegria de Tércio, Anderson resolveu também consumir os chás. Os alucinógenos eram os mais divertidos. Bebiam o chá e ficavam vendo suas formas físicas se metamorfosearem em criaturas fantásticas: faunos, criptidos humanoides, youkais, anjos ou deidades.

Com a substituição do LSD-alfa pelas infusões de cogumelos, Tércio percebeu algumas transformações em Anderson. A primeira delas foi uma maior disposição para falar. Após ingeri-los, ele passou a contar e comentar com Tércio muito mais coisas do que em todo o tempo o qual tinham convivido. Um assunto tabu entre eles era sua origem. Uma das regras impostas pela colônia era não fazer esse tipo de questionamento aos bioborgs. Mas, foi o próprio Anderson quem trouxe o tema a baila. Falou como fora sua infância depois de sair do laboratório de geração e como se tornara agente de entretenimento. Segundo ele, os bioborgs passavam por manipulações genéticas de modo a desenvolverem características que os habilitavam para certas funções. Da mesma forma em que se criavam soldados, também se geravam pessoas para fazer o que ele fazia, dar prazer. “Isto não o incomoda? Saber que foi desenhado para ser algo a sua revelia? Acho meio assustador”, observou Tércio demonstrando um certo espanto. Sem rodeios e sem medir as palavras, a resposta de Anderson foi direta. “Sempre fui assim. Você se questiona por que precisa beber água todos os dias ou por que gosta de cuidar de plantas?” “Não, mas eu posso mudar de atividade, fazer outras coisas, não estou condenado a pesquisar sobre plantas para sempre”, Tércio retrucou. “Quantos médicos você conhece que deixaram de ser médicos? E pilotos de aeronaves? Quantos largaram o trabalho de navegação espacial para serem agricultores? Você vai largar suas pesquisas botânicas?”, reagiu Anderson, olhando firme para Tércio. “E os bioborgs têm a possibilidade de serem reprogramados, basta querer”, completou. “Não sabia disso. Você já pensou em se reprogramar?”, perguntou Tércio desconfiado. “Sim”. Mas, antes que Tércio indagasse mais alguma coisa, Anderson levantou-se e dirigiu-se ao quarto. Parou na porta e fez sinal para Tércio acompanha-lo.

Outra mudança observada por Tércio foi em relação ao sexo. Nos primeiros encontros, ainda na estação Centauro, e mesmo no casulo, antes de começar a beber os chás de cogumelos, Anderson fazia sexo de forma comedida e sem grandes arroubos. Agora, quando se deitavam, a placidez de outrora cedera lugar a uma libido explosiva e selvagem. Passaram a transar com frequência. Os beijos dados por Anderson tornaram-se longos e voluptuosos.  À medida que a excitação crescia, os seus lábios aos poucos eram substituídos pelos dentes que mordiscavam a carne de Tércio com ardor. Pescoço e mamilos eram sugados até Tércio gemer de prazer e dor.  Seus músculos enrijeciam e apertavam Tércio como se quisessem tritura-lo. Anderson conduzia Tércio a um nível de prazer que ele jamais havia experimentado. Naquela noite não foi diferente. Quando o pênis rígido de Anderson o penetrou, não demorou muito para Tércio sentir o orgasmo brotando nele como um pedido de socorro diante de uma morte quase eminente. Anderson gozou logo em seguida e, ainda arfando, envolveu Tércio ainda mais em seus braços, agora, porém, com mansidão e delicadeza. Ficaram naquela posição até adormecerem.

Ao despertar, Tércio percebeu que estava só na cama. Ouviu a água da ducha escorrendo. Uns cinco minutos depois o barulho da água cessou. Ainda sentindo alguns pontos doloridos deixados em seu corpo pelo bioborg, Tércio espreguiçou-se e permaneceu deitado esperando Anderson voltar para o quarto. Passado algum tempo, como ele não retornasse, resolveu levantar-se e ver o que tinha acontecido. Ao chegar na sala, Tércio encontrou o bioborg despido, sentado no chão com o olhar fixo em direção a janela que dava para o jardim existente em volta do casulo. Tércio sentiu um calafrio. “Anderson! Você está bem?”. Tércio repetiu os chamados, mas o rapaz continuava imóvel. Tércio sentou-se ao lado do bioborg e virou o rosto dele lentamente. Anderson olhou firme para Tércio e perguntou com a voz um pouco embargada: “quem é você?” Tércio ficou lívido.  Parecia loucura, mas apesar de estarem juntos depois de um bom espaço de tempo, agiram como se fossem invulneráveis e em nenhum momento pararam para pensar o que fariam se o vírus se manifestasse em seus corpos. O isolamento, os momentos tranquilos, os delírios alucinógenos, as horas na cama fazendo sexo, haviam afastado seus pensamentos de algo cuja probabilidade de vir a ocorrer era evidente. “E se eu também estiver contaminado? O que acontecerá?”

Tércio esforçou-se para não entrar em pânico. Resolveu agir. Ajudou o bioborg a vestir-se, preparou algo para eles comerem e evitou falar. Anderson obedeceu aos comandos sem resistir e apenas, vez por outra, olhava para Tércio como se indagasse o motivo de estar fazendo aquilo. Terminada a refeição, Anderson sentou-se no sofá. Tércio resolveu entrar em contato com os administradores da colônia. Pegou o seu comunicador e para surpresa sua, viu que não havia nenhum sinal de conexão. Olhou o de Anderson e viu que estava do mesmo jeito. Correu para o monitor e ao acioná-lo percebeu que estava fora do ar. O receio de algo grave ter ocorrido inquietou a mente de Tércio. Em todo o tempo de vida na colônia, nada idêntico àquilo havia acontecido. Não era problema das baterias de energia, pois os demais equipamentos estavam funcionando. Decidiu, então, dar uma volta em torno do casulo. Ao abrir a porta notou uma luminosidade diferente. Olhou para o céu e em vez do violeta claro habitual, havia uma forte névoa avermelhada pairando sobre as árvores. A temperatura começou a mudar e foi ficando cada vez mais quente. Sentiu o ar pesado e, receoso, voltou rápido para o casulo. Anderson permanecia sentado, em silêncio. Tércio foi para perto da janela acompanhar o que estava acontecendo no exterior. Notou então uma sombra rastejando em direção ao casulo. A névoa agora tinha um tom marrom e insetos carnívoros voavam desorientados e batiam na vidraça. Ouviu batidas na porta. Anderson levantou-se, foi até ela e a abriu com cuidado. Ainda agachado, um rapaz enlameado, com pequenas chagas nos braços e no rosto, entrou no casulo e tombou exausto. Tércio fechou a porta imediatamente e foi socorrê-lo. Reconheceu de imediato Paulo, o botânico responsável por outra área da zona de regeneração ambiental. Paulo tentava falar e não conseguia. Seu olhar vago parecia com o de Anderson. Tércio não teve dúvidas sobre o que havia acontecido. No mesmo instante, porém, Tércio sentiu uma forte dor na parte inferior de sua cabeça.  Olhou em volta e não entendeu o que estava acontecendo, viu um rapaz de cabelos castanhos claros balbuciando algo que ele não conseguia entender. No chão ao seu lado, outro homem sujo de lama parecia adormecido. Pela janela viu que estava tudo escuro no lado de fora. Apoiando-se na parede, caminhou até um cômodo onde viu uma cama. Jogou-se nela e adormeceu.

Uma luz branca intensa e uma voz feminina gritando “ele acordou” foram as primeiras sensações de Tércio ao abrir os olhos. Quando se habituou com a claridade viu que estava num laboratório cercado de equipamentos, monitores e vários tubos com líquidos coloridos. Um deles estava conectado com o seu braço. Uma moça vestida com um uniforme de isolamento encostou a mão, encoberta com uma grossa luva, em sua testa como se fizesse um afago. Imediatamente, Tércio lembrou-se dos últimos momentos no casulo, Paulo caído no chão, a amnésia de Anderson. Outra mulher, mais idosa, também se aproximou. “Felizmente conseguimos salvá-lo, logo você estará em forma e poderá voltar para a zona de regeneração ambiental. As plantas precisam de você”. Algum tempo depois, Tércio saiu do centro de recuperação e ganhou uma unidade habitacional provisória próxima ao centro de pesquisa botânica, em Tespis. Tinha ficado em estado de coma induzido por seis ciclos mensis. Ainda se sentia fraco, mas já conseguia caminhar sozinho e recuperara boa parte da memória. Uma tempestade eletromagnética de raios gama foi a informação que lhe deram sobre os acontecimentos de seu último dia na zona de regeneração. Quis saber como estavam Anderson e Paulo, mas nada lhe disseram. Estava tão fragilizado e ainda confuso que preferiu deixar aquilo de lado. Sobre o vírus, disseram-lhe que medicamentos para a cura haviam sido desenvolvidos. 

Quando foi autorizado a circular na colônia, Tércio passou a fazer pequenas caminhadas pelos arredores de sua moradia quando o sistema de proteção atmosférica era acionado e as temperaturas estavam mais amenas. Foi em uma dessas saídas que ele encontrou Anderson. O bioborg caminhava por uma bucólica alameda, ladeada por árvores semelhantes a pinheiros, situada a duas quadras do seu alojamento. Estava acompanhado por um cãozinho preto e branco. De início, Tércio não lembrou a ligação que tinha com o rapaz alto, de olhos verdes e lábios róseos que estava um pouco à sua frente vindo em sua direção. Mas depois, na medida em que ele se aproximava, tudo foi ficando mais nítido. Devido ao acidente, suas lembranças, às vezes, ainda ficavam um pouco borradas. Agora, porém, tinha certeza. O meio homem meio máquina, diante de si, era mesmo o agente de entretenimento que conhecera na estação orbital e por quem se apaixonara.  

Tércio ficou feliz em rever alguém por quem ele sentia afeto. Numa fração de segundos recordou-se dos beijos e dos gozos compartilhados. Aproximou-se do rapaz mostrando um sorriso aberto. “Anderson! Que bom te ver!”. O cãozinho latiu de forma agressiva para Tércio. Anderson interrompeu sua caminhada espantado. “Nos conhecemos?”. Tércio recuou um passo. “Sim, estivemos juntos na Centauro e também na zona de regeneração”. Anderson franziu a testa, hesitou um pouco e respondeu sem muito entusiasmo. “Pode ser, mas não tenho mais nenhum registro sobre isso. Eu fui reprogramado. Agora, se me der licença, preciso seguir”.  Tércio ficou acabrunhado pela indiferença com que o rapaz o recebeu e abriu caminho para Anderson passar, mas antes que ele se afastasse, dirigiu-lhe mais uma pergunta: “qual a sua função agora?”. O bioborg respondeu com voz pausada como se medisse as palavras. “Sou instrutor de natação no centro desportivo”. Mal Anderson concluíra a frase, uma jovem de cabelos negros curtos passou por Tércio. O cãozinho latiu agitado, balançando o rabo de alegria, e a moça alcançou Anderson e o abraçou. “Oi meu amor, que bom te encontrar”. Beijaram-se e deram-se as mãos. Anderson, mal virando o rosto, disse-lhe “até logo” e seguiu com a jovem. Tércio permaneceu estático vendo o casal se afastar. Agora fazia sentido o que lhe confidenciara, certa feita, um colega da estação orbital: nunca se apaixone por bioborgs. 

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