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Os aplausos encheram a pequena sala do velho casarão da rua do Sossego. Eron, emocionado, agradeceu aos presentes e cantou mais uma música de Núbia Lafayette para encerrar sua apresentação. Usando calça de gabardine preta, uma camisa de seda lilás de mangas compridas e sapato social de couro, Eron destoava dos demais homens presentes na sala, todos despidos e com apenas uma toalha branca em volta da cintura. O cabelo bem penteado com gel, o grande relógio dourado no pulso direito e um sorriso afável davam a Eron o aspecto de uma pessoa fora do tempo, sobretudo naquele lugar. As gargalhadas altas, as piadas com os boys e os copos com cerveja pouco gelada sendo entornados com avidez não combinavam mais com ele. Eron deixara para trás as roupas por vezes extravagantes que costumava usar, as pintas em noitadas pelos bares e cabarés, as pegações na Dantas Barreto e nos cinemas pornôs. Dizia, resignado, aos que o convidava para uma saída, que não tinha mais idade para aquelas coisas. 

Eron agradeceu os cumprimentos dos velhos conhecidos que frequentavam as termas, presenteou suas cordas vocais com goles de água fresca, pegou seu cachê de duzentos reais e partiu. Às sete da noite do domingo as ruas do bairro da Boa Vista, no Recife, estavam desertas. Todos diziam para ele ter cuidado por causa dos assaltos, mas Eron estava acostumado a fazer aquele percurso, sem sobressaltos, até o pequeno quarto alugado numa casa antiga da Rua Velha, cujo proprietário transformara em pensão. Enquanto caminhava, sentiu um pouco de fome e ficou sonhando com o bolo e os docinhos que trouxera do aniversário de Sarita e que guardara na geladeira recém-comprada. Ficou revendo na memória os bons momentos da noite anterior onde cantou música de seresta para suas amigas do clube da terceira idade. Lembrou dos olhos extasiados dos convidados quando cantou velhos boleros e os aplausos no final ao interpretar emocionado Orgulho, de Nelson Gonçalves, uma de suas canções preferidas. Mas a lembrança mais viva e terna era a do garçom novinho de olhos atentos que o serviu depois da apresentação e de quem havia pego o número do telefone. 

Ao atravessar o Pátio de Santa Cruz, Eron se deparou com um pagode animado, em plena atividade, em um dos bares do local. As mesas espalhadas com muitos homens e mulheres, bebendo e dançando, chamaram-lhe a atenção. Um grupo de bichas de meia-idade, acompanhado por vários rapazes, ocupava uma das mesas. Algumas delas sambavam abraçadinhas com os boys. Eron diminuiu o ritmo dos passos, esqueceu os docinhos e lembrou como era difícil a vida dos gays na sua juventude. As carreiras que levou da polícia junto com outros amigos por saírem à noite para passear pelo “quem me quer”; o susto que passou certa vez, nos tempos da ditadura, quando investigadores entraram num hotel da Rua da Palma, que aceitava casais homossexuais, e colocou todo mundo para a rua; e as inúmeras ocasiões em que foi chamado de frango, veado e até lhe atiraram pedras por usar, no carnaval, fantasias femininas. Deu um suspiro e retomou o ritmo normal da caminhada. 

Antes de dobrar a esquina, Eron, porém, ouviu alguém chamar seu nome. Uma voz que não lhe era familiar. Achou que tinha ouvido errado e continuou caminhando. Uma mão tocou seu ombro e a voz soou ao seu lado outra vez. “Seu Eron, sou eu Nando, já esqueceu de mim?” Eron parou, virou-se, e, para sua surpresa, quem estava ao seu lado era o garçom do aniversário da noite anterior. “Oxe menino, tá fazendo o que por aqui?”, disse derretendo-se de alegria. “Moro aqui perto, de vez em quando venho aqui pro pagode, tá ligado?”. “Eu também moro por aqui e nunca te vi”. Eron tinha um fraco por esses boyzinhos magrinhos. “Tô ali com uns broders, vamos lá beber com a gente?” “Eu não bebo e nem fumo, eu disse ontem a você”. “Bebe um guaraná e tá de boa”, insistiu Nando. O rapaz estava sem camisa e a bermuda um pouco arriada deixava ver a sua pélvis lindamente desenhada. Eron percebeu também o volume sob o tecido fino da bermuda e sentiu a mão do capeta lhe atentando. “Valha-me Cristo, que é que eu faço?” pensou. “O senhor não vai dizer não pra mim”, prosseguiu Nando. “O Senhor tá no céu! Pode me chamar de você!”, respondeu em tom imperioso enquanto cedia aos apelos do rapaz. “Tá bem, eu vou, mas não vou demorar muito”. Nando abriu um grande sorriso e seguiram para o bar.

Os bróders de Nando eram cinco moleques cuja idade não passava de 18 ou 19 anos. Eron foi devidamente apresentado. “Esse é o coroa que eu conheci ontem no trampo. Ele é cantor, gente boa pra caralho!”. Um galego de olhos verdes e bigodinho ralo, com corpo malhado, se levantou e ofereceu o banco a Eron. “Senta aí. Aqui a gente é tudo irmão”. Os demais balançaram a cabeça e levantaram a mão com o polegar em riste. A mesa tinha umas cinco garrafas de cerveja e os copos vazios. Eron percebeu na hora a roubada em que se metera. O cachê que seria para pagar a prestação da geladeira iria virar xixi de boy, mas era tarde para dar meia volta. Na hora veio à sua mente as palavras da Baronesa, uma amiga. “Bicha, a senhora se oriente, não fica dando mole pra esses boys na rua, é tudo safado, só querem se aproveitar das bichas velhas. Quer dar? Pega um na sauna”. Mas Eron não aprendia. E por causa da imprudência, estava ali prestes a entrar num rolo danado.

 O garçom do bar, um senhor mal-encarado de uns 60 anos, se aproximou e Eron pediu duas cervejas e um guaraná. Eron não gostava de atendentes grosseiros. Ao trazer o pedido, o homem manteve sua atitude e olhando para os rapazes falou bem alto e sem nenhuma gentileza nem paciência: “Tem que pagar agora. É 15 reais”. Aquelas palavras, porém, apesar do tom em que foram ditas, foram as palavras mais doces que Eron poderia ouvir naquele momento. “Não tem problema”, tirou uma nota de 20 do bolso e entregou ao homem. Os rapazes pegaram a cerveja, encheram seus copos e fizeram um brinde. Eron riu, levantou também seu copo, deu um gole no guaraná e, antes de qualquer conversa ser iniciada, pediu licença para ir no banheiro. “Estou com esse problema. Vivo indo ao banheiro o tempo todo”. “De boa coroa, é nenhuma”, disse Nando. Eron se levantou, caminhou em direção ao bar. Atravessou as mesas, entrou pela porta lateral, apressou o passo e saiu pela outra porta e ganhou rápido a Rua Velha. 

Só quando fechou a porta, acendeu a luz e sentou-se na cama, Eron conseguiu respirar com calma. A sorte o tinha ajudado. Pensou na pélvis de Nando e ficou imaginando como seria o pau do rapaz.  Pelo jeito era bem grande. Ficou matutando se não deveria ter ficado no pagode, mas logo lembrou que por causa de pau gostoso não fazia nem dois meses que perdera a carteira e o celular para um boy. Pensou nos docinhos, mas o corpo cansado foi arreando lentamente e ele ficou ali, deitado, olhando para a fantasia de príncipe egípcio pendurada no cabide atrás da porta, usada no último carnaval quando desfilou no bloco Inocentes do Rosarinho. Viu também a foto do cantor Wanderley Cardoso colada na parede e notou pela primeira vez o quanto ela estava desbotada. Isso o deixou triste. Lembrou dos tempos em que achava Wanderley Cardoso o homem mais bonito do mundo e como adorava cantar Bom Rapaz. 

Aos poucos Eron adormeceu e começou a sonhar. O sonho se passava na sauna onde fazia show, com Nando e seus broders, todos nus, dançando passinho. Eron corria então para cima deles e a dança lasciva tornava-se uma suruba, enquanto ele chupava o pau de Nando, o galego do bigodinho ralo o penetrava com uma rola imensa. A cada estocada, Eron gritava e gemia pedindo mais. Erom despertou com várias batidas fortes na porta do quarto. Assustado, deu um pulo da cama e viu que estava de pau duro e a calça de gabardine manchada. “Seu Eron! Seu Eron! Tá tudo bem aí?”, gritava a voz lá fora. Eron perdera a noção da hora, ouvia o som do pagode distante e não conseguia responder. “Seu Eron! Tá precisando de ajuda?”. “Não Josiel, foi só um pesadelo”, conseguiu finalmente falar. “Tem certeza, Seu Eron?” “Tenho, tenho, pode deixar, estou bem”. Eron ouviu os passos de Josiel se afastando. Ainda um pouco atordoado, foi na geladeira, pegou o prato de bolo e docinhos, colocou na mesinha ao lado da cama e começou a comê-los lentamente. Colocou um CD de Agnaldo Timóteo para tocar baixinho e, por hábito, checou se a carteira e o celular estavam na mesinha de cabeceira. Estavam. Fora mesmo um sonho. Alguns instantes depois, estendeu a mão e pegou a carteira, abriu e tirou dela um pedacinho de papel com o número de Nando. Comeu outro brigadeiro, olhou para o papel por uns segundos, e pensou em voz alta. “Nunca se sabe, né?”. Dobrou o papel e o colocou de volta na carteira. 

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Conto: Brasil, 2020