Bruninho era meio sonso. Aprontava das suas, mas ficava sempre na moita. Quem olhava para ele, ficava enternecido com sua carinha de anjo, com os gestos tímidos e gentis. Era educado e atencioso. “Esse menino é uma bênção dos céus, Geninha. Quem me dera que Rafinha fosse assim”, lamentava Dona Sissi, toda vez que encontrava Bruninho com a mãe no armazém de Seu João. Na escola, Dona Eunice, professora daquelas bem brabas de meter reguada no braço dos alunos quando faziam algum mal feito, com Bruninho se transmutava. Era só elogios para o garoto. “Esse menino é um tesouro, Geninha”.  

Segundo Dona Geninha, Bruninho, todavia, “de besta só tinha os olhos”. “Esses com cara de santo são os que mais aprontam”, costumava afirmar aos que se derretiam em loas ao seu filho. Bruninho, no entanto, esforçava-se em manter essa aparência de bom menino para corresponder às expectativas de seus admiradores. No seu boletim só tinha nove, nove e meio e dez. Era obediente em casa, não se metia em briga na rua e na hora de dormir pedia a benção dos pais. Por outro lado, na sua cabecinha de pré-adolescente fervilhavam mil tramas e fantasias estimuladas pelos filmes de gladiadores das matinês do Politeama e pelos livros. Leitor voraz, aos nove anos já tinha devorado toda obra infantil de Monteiro Lobato e com onze já lera Graciliano Ramos e de Oscar Wilde, um livrinho de bolso que encontrara na estante do pai e o deixara intrigado. 

Logo cedo, Bruninho percebeu que gostava de admirar os rapazes. Quando batia punheta na hora de tomar banho, para se excitar só vinham imagens de Eraldo que, no jogo de queimado na escola, todo mundo queria ele no time, pelos arremessos certeiros que fazia com a bola. Os braços fortes de Eraldo eram sua inspiração preferida. Mas tinha também o irmão mais velho de seu colega Adilson, um homem já feito com cara de safado e um volume generoso marcando a calça, e um garoto, que devia ter uns quinze anos e ele nem sabia o nome, mas cujas pernas fortes e já peludas o faziam correr para a varanda para admirá-lo quando ele despontava na rua.

Esse lado de sem-vergonhice, desconhecido pelos que o consideravam um menino de ouro, assustava e fascinava Bruninho. Ele, porém, ia levando na esportiva e sem dar bandeira. Após o gozo de cada punheta, antes de abrir o chuveiro, fazia o sinal da cruz com a mão ainda melada de gala, rezava o ato de confissão, aprendido nas aulas de catecismo de Dona Chiquita, e se perdoava pelo pecado mortal cometido. Até que um dia, o que ficara guardado nos seus pensamentos por tanto tempo saltou para o mundo real. Na semana seguinte ao seu aniversário de doze anos foi passar um final de semana no sítio da avó e, lá, conheceu Beto. 

Os dias passados no sítio da avó, num subúrbio distante, era uma festa para Bruninho. Com os primos, ia passear na mata, tomava banho de rio e jogava futebol. As primas mais velhas, Nina e Dodó, já tinham namorados. Elas namoravam dois irmãos, Paulo e Flávio.  Paulo era um galego feioso, musculoso e brincalhão e Flávio, um moço bem bonitinho de voz dengosa. Naquele final de semana os dois rapazes vieram passar o dia no sítio e junto com eles trouxeram o irmão mais novo. Quando Bruninho avistou Beto, seu coração disparou e sentiu uma espécie de comichão na virilha. O rapaz devia ter no máximo 16 anos. Já apareceu de bermuda, nu da cintura para cima. A bermuda feita a partir de uma calça velha com as pernas cortadas, estava meio arriada e dava para ver o desenho dos músculos da pélvis de Beto e, de brinde, dava para perceber um chumacinho de pelos negros, ultrapassando as bordas do tecido e subindo em direção ao umbigo.

Em meio a algazarra da chegada dos convidados, Beto olhou para Bruninho e deu um risinho. Bruninho não esboçou nenhuma reação visível. Mas seu olhar enviesado, um truque que desenvolvera com a habilidade de focar em algo sem ser percebido, ficou fixado no corpo de Beto. Passou apenas uma vista de relance no rosto do rapaz. Não o achou bonito. O cabelo, bem preto e meio grande, formava um topete e isso o desagradou. Mas quando Beto falou, com uma voz meio rouca e decidida, Bruninho desmontou e esqueceu o topete. Beto decidiu que iriam tomar banho em um rio que ele conhecia nos arredores. Todos concordaram. Beto tomou a dianteira e passou a comandar o pelotão formado por Bruninho, Fred, Jurandir e Valdir. 

Para chegar no rio, na verdade uma lagoa, tinham que pegar uma estrada de terra e depois um caminho estreito por dentro da mata. Bruninho, desde que iniciaram a caminhada, só pensava em se aproximar de Beto. Ficou imaginando como seria alisar aquele peito bem marcado com mamilos pequenos e pretinhos e depois tocar nos seus braços de artérias salientes. A solução surgiu rápida. Percebendo o ar de líder do rapaz, simulou um tropeção e ficou um pouco para trás do grupo. Beto percebeu e foi correndo em seu auxílio. Fingindo sentir dor e com os olhos semicerrados, Bruninho viu o rapaz se aproximar e quase teve um troço de verdade quando viu o volume em movimento por baixo da bermuda de Beto. “E aí irmão? Tá machucado?” “Não, não, foi só um mau jeito”. Bruninho estendeu a mão, Beto o levantou e seguiram na caminhada.

Depois da queda, Beto e Bruninho ficaram juntos. Bruninho queria agora ver Beto nu. Queria ver a sua rola. Tocar nela. Começou a perguntar coisas da vida dele. Onde morava, o que gostava de fazer. Os demais nada percebiam, seguiam atrás deles, rindo e brincando entre si. Ao dobrarem para o caminho que levava até a lagoa, um pequeno susto. No cruzamento da estrada com a trilha, se depararam com um despacho espalhado ao pé de uma árvore. Um prato com farofa, uma galinha preta, velas coloridas e algumas moedas. Bruninho nunca tinha visto um despacho de macumba e ficou encantado. Os demais, porém, só viram as moedas. 

A discussão que se instalou no grupo foi se deveriam pegar as moedas ou não.  No meio da conversa, Valdir se adiantou: “Oxe, acho melhor deixar isso aí. Pegar moeda de despacho, dá azar”. Os demais hesitaram. Bruninho apenas observava. Beto resolveu a questão. “O quêee? Vou deixar esse dinheiro aí nada. Dizem que é só dar uma mijada nas moedas pra cortar o efeito da macumba”. Ao concluir sua frase, sem mais delongas, puxou o zíper da bermuda, botou o pau para fora e começou a urinar sobre as moedas. Bruninho ficou em choque. Era uma rola grande e grossa como ele nunca tinha visto. Beto deu uma longa mijada, espalhando o líquido sobre as moedas e, enquanto balançava seu pênis, olhava fixamente para Bruninho.   Concluída a operação, Beto pegou as moedas, colocou no bolso da bermuda e ordenou. “Vamos!”’. Ninguém falou nada, apenas seguiram.

Ao chegarem à lagoa, uma decepção, a pouca chuva nos últimos meses a tinha transformado num lamaçal. A frustração foi geral. Bruninho também ficou um pouco triste, a oportunidade de ver Beto totalmente despido, com pau e bunda de fora, se esvaiu. Voltaram para o sítio. Ao chegarem, os demais resolveram jogar futebol e seguiram para o campinho improvisado do outro lado do terreno. O resto do pessoal estava no terraço conversando e parte das mulheres estava na cozinha fazendo o almoço. Bruninho permaneceu sentado num tronco que ficava ao lado da casa. Beto não acompanhou os outros garotos, olhou para Bruninho, acenou com a cabeça e seguiu para o lado do pomar onde, por trás, tinha umas touceiras de mato crescido. Bruninho o seguiu. Chegando lá, Bruninho se deparou com Beto já com a bermuda nos pés. Bruninho se aproximou, meio trêmulo. Beto puxou seu braço e disse, sem muita cerimônia, “vai, pega”. Bruninho viu que só tinha uma coisa a fazer, obedecer. 

Bruninho nunca mais viu Beto, mas quando batia punheta na hora do banho, seu gozo tinha um novo alvo. Não era mais Eraldo, nem o irmão de Adilson, nem o moço da perna peluda que ele não sabia o nome. Agora, na vida secreta de Bruninho, só tinha um senhor: o desfazedor de feitiços.   

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