O jovem Chris Washington (o ator britânico Daniel Kaluuya) acaba de assumir o namoro com a jovem Rose (Alison Williams). Na primeira cena, o casal está a caminho da residência dos Armitage, os simpáticos pais da moça. Ele é fotógrafo, preto, e ela estudante, branca. Preocupado com a questão étnica que envolve o namoro, ele pergunta a ela se já avisou os pais. Ela diz, sorridente, carinhosa, que ele não tem de se preocupar com isso. Com o andamento da narrativa, vamos descobrir que, de fato, o comentário dela procede. Afinal, Chris vai descobrir aos poucos que foi escolhido por ser justamente quem ele é.

São essas as cenas iniciais de Corra! (Get Out, 2017), um eletrizante e mistério que está atraindo milhares de espectadores aos cinemas no mundo inteiro.

A bem urdida trama de estreia do afrodescendente , comediante, produtor e diretor estadunidense, tem todos os ingredientes dos filmes de terror, de suspense, mas ao contrário da escatológica franquia Albergue (Hostel, 2005-2011), vai usar o estereótipo para reverter os cânones do gênero, mesclando suspense, psicologia, para narrar a história de Chris e discutir os valores étnicos das sociedades majoritariamente brancas e, em especial, dos Estados Unidos. E de quebra, Peele vai desestruturar um a um os argumentos com que há séculos os brancos oprimem os pretos: a de que os homens são mais bem dotados, possuem apetite sexual incontrolável, o que os coloca sempre como objeto de servidão sexual. A admiração de brancos por pretos passa por essas considerações, e outras mais, sempre atreladas à questão física, de agilidade, de potência, em detrimento da capacidade intelectual e criativa.

Rose, aparentemente, seria a femme fatale da vez. Morena, como a Kathie Moffat de Fuga do Passado (Out of the Past, 1947), emblemático filme noir. No entanto, não é Rose a Circe que joga o mocinho ingênuo nos braços das sereias. E sim, sua mãe, Missy, interpretada por Catherine Keener, atriz maravilhosa e quase sempre subaproveitada – lembram de Harper Lee em Capote (2005)? A aspirante a escritora, assistente e amiga de Truman (Philip Seymour Hoffman) – aqui em destaque como a mãe de Rose e matriarca dos Armitage. Sedutora, perigosa, ela conquista o nosso herói com um piscar de olhos, literalmente, e numa jogada freudiana de impacto, ela o lança de volta à própria infância, sozinho, desprotegido, numa das melhores cenas do filme. A jovem Rose, desmiolada, não tem projeto próprio, mas sua mãe sim. Sem um pingo de amor no coração, Rose pouco se importa com o destino de suas vítimas, que ela considera como meros fetiches, acondicionados numa caixinha do toucador. Boa moça, ela jamais ousaria romper com a família.

E quanto à solidão de Chris, órfão, ela nos parece absoluta, o que é muito conveniente para o roteiro, sem dúvida. Seu único amigo é o broder Rod Williams (LilRel Howery), segurança, que sempre desconfiou que o amigo estava se metendo em enrascada. Não fosse por Rod, o fim de Chris seria trágico, convenhamos. O fato das mulheres brancas do filme serem verdadeiras versões humanas da vagina dentada é explicável pela diegese de um filme que se propõe justamente a analisar criticamente a relação da sociedade branca neoliberal de Obama – o sr. Armitage insiste em dizer que votou nele -, mas também pelo lugar que essas questões ocupam nas propagandas e no próprio cinema mundial ocidental.

Quando Chris encontra finalmente um amigo negro dentre os convivas dos Armitage, o enigmático Andrew Logan King (o ator, modelo e rapper Lakeith Stanfield) respira aliviado, para em seguida se dar conta de que não vai encontrar ali um suporte, de forma alguma. E nem mesmo Walter (Marcus Hendersen), com quem ele procura insistentemente dialogar, sem sucesso.

Mas as mulheres pretas do filme tampouco irão se constituir como anteparo ou afeto para o nosso mocinho, cada vez mais enredado pelas tramas do solar dos Armitage. Georgina (Betty Gabriel), empregada tratada como membro da família (outro estereótipo que será transgredido) está inexplicavelmente presa a uma personagem que não lhe pertence, e não consegue se comunicar com nosso protagonista, a não ser pelos olhos. A detetive Latoya (Erika Alexander), por sua vez, é a primeira a desdenhar das desconfianças de Rod, o amigo fiel, que decide partir em seu socorro por conta própria.

O filme de Peele foi o primeiro de um diretor estreante a ultrapassar os 100 milhões de dólares de arrecadação desde o lançamento, custou pouco para os padrões hollywoodianos, e tem um roteiro acertado, com atuações excelentes. Se a narrativa é convencional para a tradição do gênero, o argumento não é, e atinge o seu alvo. A angústia de Chris e seu amigo na tela é a nossa ao assistir àquele espetáculo de horror.

Mas as únicas mulheres do filme que conversam entre si e possuem uma personalidade definida são as brancas, as pretas possuem poucos minutos de fala, e são inexpressivas para o contexto, embora aparentemente empoderadas. Chris não conseguiria sair vivo desta sem uma pequena ajuda de seu amigo Rod, o único afrodescendente do elenco que possui capacidade de ação. Os homens brancos do filme, vale dizer, não são melhores, são seres totalmente dominados pelas mulheres devoradoras. Pura.

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