Foto: Divulgação.

Crítica: A Conferência faz um retrato cru da reunião que implantou o Holocausto na Alemanha

Filme de Matti Geschonneck é ambientado na atmosfera fria e brutal dos líderes do regime nazista

A Conferência
Matti Geschonneck
ALE, 2022, 1h48. Distribuição: A2 Filmes
Com Philipp Hochmair, Johannes Allmayer, Maximilian Brückner

A montagem crua, uma filmagem de cores frias, sem trilha sonora, onde o que vale é a interpretação da crueldade muito intrínseca não só nas ações mas em todo o contexto, é o que ambienta o alemão A Conferência, de Matti Geschonneck. É muito importante, já deixar aqui evidente, assim como faz o filme, que a obra é sobre o nazismo. E, diferente de produções como Anne Frank, Minha Melhor Amiga (2021), O Fotógrafo de Mauthausen (2018), e até mesmo do clássico O Menino do Pijama Listrado (2008), traz o olhar bárbaro do período através dos próprios bárbaros, de maneira interna.

O roteiro, baseado em fatos, é centrado numa reunião de janeiro de 1942 orquestrada pelo chefe da polícia de segurança e do SD (o setor primário do serviço de inteligência), Reinhard Heydrich, quem convida 15 líderes dos demais setores e da burocracia ministerial do regime nazista. O encontro, que aconteceu em uma vila no Great Wannsee, sudoeste de Berlim, ficou conhecido como Conferência de Wannsee, a qual, o tema central a ser discutido e decidido era a “Solução Final para a Questão Judaica”. 

Vale destacar, que o nazismo e o holocausto fazem parte de uma das mais cruéis mazelas pregadas na história da humanidade. O antissemitismo deliberado por Hitler angariou a guerra entre os ditos arianos (tipo de “raça” nominada pelo ditador que estaria acima das outras) e o povo judeu, perseguido, violentado e exterminado. Toda essa atmosfera é perceptível ao telespectador no filme, e flui de forma sensorial, através de encenações pouco dramáticas, firmes e determinantemente objetivas.

É como se retratam os líderes da conferência, acima de tudo, imersos num conceito que não poderia ser mais cabível, como o de “banalidade do mal” de Hannah Arendt. O longa de Margarethe Von Trotta, de 2013, que carrega o nome da filosofia no título, auxilia nesta compreensão. Ao ser enviada à Jerusalém, Hannah, mulher judia, prova viva das atrocidades do regime nazista, assistiu o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto. A intelectual adquiriu então neste processo a noção do quanto o mal para o julgado era banal, como se este fosse apenas uma máquina que obedecesse ordens e não tivesse o poder de distinguir entre o certo e o errado, “incapaz de pensar”. No filme, este conceito se concretiza na brutalidade dos dizeres, como se algo corriqueiro fosse (e era) por homens que se quer conheceram aquele a quem chamavam de Führer. 

Em A Conferência, a crueldade dos líderes é um osso do ofício, natural e inquestionável refletindo sempre essa áurea eurocentrista, patriota e doentia. O recorte da reunião traz a estratégia e o planejamento que posteriormente foram responsáveis pela implantação dos campos de concentração, construídos na intenção única e direta de “erradicar judeus”. As novas ideias vieram de surpresa (nem de perto desagradáveis) até mesmo para os líderes presentes, isso porque, o objetivo já não se delimitava no extermínio da população judia que estava presente em suas áreas de controle, mas sim, na população que ocupava toda a Europa. A história prova que assim buscou ser feito.

Entre os jogos de interesse, as intervenções dos líderes que se sentem desfavorecidos com as decisões a serem implantadas, discussões sobre a saúde mental de soldados que trabalhariam no extermínio, o respeito ou não das leis, o que prevalece é o retrato do nível de perversidade ao qual a humanidade já alcançou, e precisa sempre ser lembrada para que não alcance novamente.

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