“Diante do momento de país que a gente vive, como é que esse corpo sente e onde quer estar?” Treze artistas – entre bailarinxs, músicxs, poetisas, atores, atrizes – em uma caixa cênica, apenas com refletores sobre seus corpos, enfrentam o desafio de responder a essa questão. Uma ágora de corpos se estabelece. Corpos diversos. Pretos, brancos, homens, mulheres, transexuais, atravessados pela inquietação, extraem de seus peitos as reações provocadas pela perplexidade que os invadiu nos últimos dois anos. Os movimentos são múltiplos. Dor, tristeza, revolta, raiva, desejo de luta, de não submissão e a emergência de uma poética capaz de nos salvar, vão compondo um discurso mais do que urgente, um discurso que arranca das representações o grito necessário para se opor ao que aí está posto. E este grito é para já! É !

A cineasta , desde Câmara de Espelhos (2016), vem direcionando parte de seu trabalho a um cinema no qual a imagem é um dispositivo que parece estar sendo esculpido diante do espectador. Consciente do significado político de dar corporeidade aos sentimentos e de tornar visível as estratégias de sobrevivência perante a destruição promovida pelo governo de bases fascistas ao qual estamos submetidos, Déa, em Agora, nos convida, mais uma vez, a compartilhar com ela as indagações incontornáveis diante do que estamos vivendo. E é na busca dos gestos possíveis para esses tempos de hoje que sua obra fílmica nasce, ganha força e nos questiona. 

Cada performer teve a liberdade de expressar a sua resposta a partir de suas próprias vivências e sentimentos. Essa condição se revela essencial para o propósito provocador do filme. À medida que vamos acompanhando os movimentos e sons que os treze artistas vão desenvolvendo, passamos a nos perguntar também como estão nossos gestos diante do horror crescente provocado pela extrema direita com seus modos de ação. O painel expressivo delineado pelos artistas deixa claro o quanto essas ações, baseadas na intolerância, na mentira e na perseguição aos que não compactuam com a misoginia, o racismo, o ódio aos povos indígenas, a LGBTQfobia, a negação ao conhecimento científico, precisa ser combatida.

Crítica-Filme: ‘King Kong en Asunción, a transamérica distópica e intercultural de Camilo Cavalcanti

King Kong é um ícone cinematográfico, hollywoodiano, surgido em 1933, com direito a diversas adaptações cinematográficas. A imagem terna do macaco monstruoso segurando com ternura na palma da mão a então estreante Jessica Lange entrou para a história do cinema fantástico. Existe uma relação entre o gorila cinematográfico e o matador de aluguel interpretado pelo ator Andrade Junior, verdadeiro símbolo do cinema candango, morto em 2019 antes do lançamento, o Velho de King Kong en Asunción, produção fantástica do pernambucano […]

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A escolha dos integrantes do elenco de Agora aponta para uma opção cujo sentido, se já era por demais pertinente, se tornou ainda mais contundente com o aparecimento da pandemia. Os artistas, que dependem sobremaneira dos seus corpos para sobreviver, já compunham um dos grupos mais atingidos pelas trevas da estupidez que pairam sobre o Brasil e o vírus da covid-19 os privou ainda mais do exercício de seu ofício. O que se vê na tela é, portanto, o reflexo desse contexto onde cada um expressa o seu agora desses dias tão conturbados. No entanto, as expressões físicas individualizadas estão muito longe de significarem um insulamento, pois, aos poucos, a narrativa pinça dessas manifestações pessoais os elos de convergência para um diálogo, uma conversa de buscas por respostas. 

As performances desenvolvidas diante das câmeras formam várias camadas de significados. Das mais simples às mais sofisticadas na sua expressividade, há uma conjugação de afetos, memórias, frustrações que expõem feridas, mas também apontam reações. Pelo canto, pela poesia, pela dança, percebemos que aqueles corpos não estão abatidos e só podemos agradecer a Déa Ferraz por abrir essa luz na escuridão e nos deixar encantados com os gestos intensos e profundos encenados por Kildery Iara, a apreensão das contradições do cotidiano representada por Lívia Falcão e o discurso tão necessário sobre ser mulher negra periférica da poetisa e escritora Joy Thamires. 

No longa os convidados respondem com seus corpos à seguinte provocação: no Brasil de hoje, qual o gesto possível do agora?. (Foto: Chico Ludermir.)

Do primeiro ao último quadro de Agora, percebemos o compromisso afetivo que moveu a sua realização não apenas de quem estava performando para as câmeras, mas de toda a equipe técnica. Para um projeto estético ousado e singular, essa condição de envolvimento é a chave para um resultado tão primoroso, que se revela, sobretudo, na montagem tão delicada e precisa de Joana Collier. Apesar de alguns maneirismos por alguns performers nos momentos iniciais de suas encenações, revelando a filiação a um estilo prévio que de certa forma reduz a visceralidade e espontaneidade de suas falas corporais, Agora consegue sintetizar com perfeição este incômodo que nos atravessa. Porém, mais do que isso, ele nos lança um clamor para uma vivência dialógica, para vermos e sentirmos o outro, não apenas como representação virtual, mas como seres emissores de pulsações e desejos por um mundo mais justo. 

Esta resenha contou com a valiosa colaboração de Fernando de Albuquerque, com quem debati calorosamente sobre o filme. 

O longa foi exibido durante o festival Olhar de Cinema. A segunda sessão acontece nesta terça (13).

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