Novo Batman chega inspirado no cinema noir. Foto: Warner Bros/Divulgação.
Batman de Matt Reeves consegue unir visão artística e entretenimento blockbuster
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Podemos considerar os filmes de super-heróis como um fenômeno cultural de proporções ainda não totalmente compreendidas. Sabemos sua relevância para a indústria e o poder econômico que possuem – sobretudo para a manutenção das salas de cinema em todo o mundo. Mas, no debate de sua importância, um ponto que sempre acaba escapando é o fato desses filmes terem conquistando um espaço importante enquanto subgênero cinematográfico (como o faroeste, o épico espacial, etc), se descolando do gênero aventura e ação ao qual sempre estiveram relacionados. São filmes de super-heróis. Batman, de Matt Reeves, nova encarnação do personagem nos cinemas, mostra o quanto esse gênero pode entregar algo vigoroso, de alto impacto visual, mas ao mesmo tempo construir uma narrativa imersiva com visão artística (estética, ambientação, direção artística, fotografia, tudo muito bem azeitado).

Batman faz o que poucos filmes de super-heróis conseguem fazer, que é aliar uma visão autoral com o poderio pirotécnico que um bom blockbuster pode proporcionar (alguns filmes, vamos combinar, nem ao menos tentam). Podemos colocar aqui trabalhos como O Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan, 2008), Logan (James Mangold, 2017) e, em certa medida, Eternos (Chloé Zhao, 2021), todos filmes com propósito artístico muito bem definido, com certo risco assumido em suas propostas e entendimento de que o cinema de entretenimento pode também servir de veículo para boas ideias.

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Matt Reeves já tinha se mostrado um diretor interessado em fazer uso inteligente dessa super-estrutura cinematográfica quando dirigiu os ótimos Planeta dos Macacos – O Confronto (2014) e Planeta dos Macacos – A Guerra (2017). Quando foi anunciado como o diretor da nova versão de Batman, as expectativas foram às alturas, sobretudo pelo fato de Reeves ter defendido o papel de protagonista para Robert Pattinson, ator que vinha construindo uma carreira de papeis desafiadores no cinema independente desde que alcançou o estrelato com a série de filmes Crepúsculo. Pelos trailers já se percebia que o diretor faria uso de uma liberdade criativa que só a DC/Warner poderia proporcionar. Ou seja: ao contrário da Marvel, cujo universo cinematográfico é tão amarrado que faz com que praticamente todos os seus filmes sejam idênticos, Reeves pôde reiniciar a franquia do Homem-Morcego nos cinemas sem preocupações com cronologia ou marcos estéticos.

A boa notícia é que todas as expectativas foram atingidas – e mesmo superadas em alguns casos.

Comecemos pelo Batman. Pattinson interpreta um herói ainda nos seus primeiros passos, com apenas dois anos de experiência. Isso traz uma camada de vulnerabilidade que não tínhamos visto em nenhuma outra encarnação do personagem nos cinemas. O ator consegue trazer profundidade ao personagem, que aqui está o tempo todo questionando seu papel como vigilante de Gotham e tentando entender como o passado de sua família está relacionado com a cidade (no que isso tem de bom e ruim). Com um corpo mais esguio e um cabelo escorrido, ele certamente é um Batman bem diferente do bofão musculoso e assertivo de sempre, mas até isso parece bem-vindo, dando um ar interessante de renovação. Soa como um herói romântico amargurado, meio deprê, sempre de semblante soturno. E aqui praticamente não há nenhuma distinção entre Bruce Wayne e Batman: ambos são interpretados da mesma maneira, como figuras amarguradas, distantes, inacessíveis. Os próximos filmes talvez trabalhem de uma maneira diferente o alter-ego do herói, mas para esta trama, essa solução pareceu suficiente. Talvez soe precipitado, mas este é um dos melhores Batman nos cinemas, senão o melhor.

O roteiro recupera o espírito das histórias de detetive de Batman, com o herói totalmente comprometido na solução de um mistério, bem ao estilo das narrativas de suspense. Além das HQs originais do personagem assinadas pelos criadores Bill Finger e Bob Kane nos anos 1940, o roteiro de Reeves e Peter Craig foi buscar inspiração em clássicos como O Longo Dia das Bruxas (1996), de Jeph Loeb e Tim Sale, Batman: Eco (2000), de Darwyn Cooke e toda o arco conhecido como Batman: Ano Dois (1987), de autores como Mike W. Barr e Alan Davis. A trama coloca o Homem-Morcego em uma investigação para desvendar pistas enigmáticas criadas pelo vilão Charada, que vem empreendendo vários assassinatos de agentes públicos da cidade. Batman acaba encontrando evidências que acabam ligando a onda de corrupção em Gotham à sua própria família.

Na busca pelo Coringa, Batman acaba imerso em uma trama complexa que envolve a máfia de Gotham City e suas ligações políticas. É por esse caminho que ele acaba encontrando Selena Kyle, a Mulher-Gato, interpretada com bastante vividez e segurança por Zöe Kravitz. Além de ser uma ladra que rouba de mafiosos, ela também têm contas a acertar com os criminosos por conta de seu passado e também para vingar uma amiga que foi assassinada por um dos chefões da máfia. Ainda fazem parte do entorno do personagem o fiel mordomo Alfred, aqui interpretado por Andy Serkis e o detetive James Gordon, encarnado por Jeffrey Wright, igualmente em uma atuação bem inspirada.

Com anti-heroínas como Mulher Gato (Zöe Kravitz), Batman, injeta novo vigor na franquia do personagem nos cinemas. (Foto: Warner Bros/Divulgação).

Charada foi colocado como um justiceiro anti-sistema, um terrorista que pretende acabar com os “corruptos” em Gotham através de uma morte terrível e da exposição de seus crimes. Para o papel foi escalado Paul Dano, que consegue traduzir toda a loucura do personagem com a dose de exagero que o vilão sempre foi conhecido. O elenco traz ainda Peter Sarsgaard, como o procurador Gil Colson e John Turturro como o mafioso-mor Carmine Falcone. Mas quem chama atenção nesse elenco adjacente é Colin Farrell, quase irreconhecível como o Pinguim.

O roteiro segue à risca elementos do cinema noir, mas é reticente em tornar sua trama mais sinuosa, fazendo com que toda a trilha investigativa seja, em alguns momentos, bastante óbvia e linear. Mas isso não chega a comprometer a narrativa. Quando já estamos totalmente envolvidos com essa trama e convencidos de que Batman é um filme de detetive estilo noir dentro do gênero super-heróis, o longa nos chacoalha, dá um giro na narrativa e traz duas sequências impressionantes que só um filme blockbuster hollywoodiano é capaz. A partir daí, a trama do suspense corre em paralelo com a ação bastante imaginativa de Reeves, que dirigiu uma das sequências de perseguição mais incríveis que vi nos cinemas nos últimos tempos. Tudo isso sem perder de vista sua visão muito bem coesa do personagem e do cenário.

A Gotham do filme também merece ser destacada. A fotografia de Greig Fraser (o mesmo de Duna) ajuda a dar contorno ao universo imaginado pelo diretor através de uma bem construída relação de luz e sombra e um uso econômico de cores, com destaque para o vermelho bastante saturado e o azul. O resultado é um filme muito bonito que fica retido na memória por muito tempo após a sessão.

Batman, de Matt Reeves, traz uma contribuição gigante para o gênero dos filmes de super-heróis ao adicionar um componente autoral e criativo sem abandonar seus predicados hiberbólicos, do entretenimento, esperado em superproduções como essa. É a prova de que o alto investimento do cinemão ainda pode nos trazer experiências estéticas interessantes e ousadas como essa, como já foi visto tantas vezes no passado. Com o cinema de super-heróis atingindo um estado de saturação, cheio de fórmulas cansadas, talvez filmes como Batman representem novas saídas.

BATMAN
Matt Reeves
EUA, 2022, 2h55min. 14 Anos. / Distribuição: Warner
Com Robert Pattinson, Zöe Kravitz, Jeffrey Wright

Em cartaz nos cinemas.

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