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Produto de uma postura mais crítica de globalização musical, o músico paraense Jaloo lança seu disco de estreia em uma mistura de sintetizadores, arranjos pop, melancolia brega e aparelhagem. Com produção de Carlos Eduardo Miranda (o mesmo que reformulou a cantora Gaby Amarantos para o grande público), o disco #1 revitaliza ainda mais uma sonoridade que é a cara da cena do Pará.

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A música do Pará não tem limites

Com feições indígenas, o garoto Jaloo traz o apelo de um superstar mais autêntico, deslocado dos decalques das estrelas anglo-saxônicas tradicionais, mas sem apelar totalmente ao exotismo. Ele criou todas as batidas em seu notebook e foi fazendo sua carreira através de faixas lançadas online. Uma das faixas que mais me chamaram atenção foi “Downtown”, do ano passado, um batidão nervoso que mixava a urgência do techno para a selva. A música entrou na nossa lista de melhores do ano dado o seu impacto.

Depois veio o EP Insight, que já mostrava um amadurecimento dos arranjos e mais foco na proposta. Em #1, o músico contou ainda com a ajuda de Kassin, que “recalibrou” as frequências das faixas e trouxe uma sedução pop ainda mais acentuada. Além disso, o uso de instrumentos analógicos, como a flauta doce e as guitarras, deu mais corpo às canções. E é essa mescla de sabor local com o tom universal das pistas que faz de Jaloo uma novidade interessante dentro da nova música brasileira. Seu trabalho dialoga com nomes que também flertam com a lisergia e o exagero estético, como Björk (declarada influência do músico), FKA twigs, Arca e Robyn.

Em “Ah! Dor” temos uma bossa melancólica, mas dançante, um dos hits do trabalho. Já em “Odoia”, ele explora as tradições do funk misturadas com elementos tribais. E em “Tanto Faz” temos um hit genuinamente nacional que deveria caber em qualquer festa com o mínimo de personalidade. O trabalho infelizmente perde força na metade final, após a versão de “Chuva”, de Gaby Amarantos. São faixas que não acrescentam ao que foi apresentado antes e arrefecem o tom pop mantido até então. Talvez um disco com menos músicas tivesse um efeito mais explosivo.

Jaloo é uma dessas surpresas que apontam novos caminhos na MPB (a saber a música pop brasileira), um autor sem vergonha de explorar suas próprias raízes e seguro de sua faceta artística. Ele construiu um personagem que explora uma masculinidade que rompe com expectativas da sociedade atual. Aposta na exuberância, religiosidade, psicodelia, disco music, cultura indígena, tudo isso em uma embalagem divertida e pop.

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Ouça o disco:

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