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Vince Staples lança registro duro e melancólico sobre violência, racismo e juventude

Por Paulo Floro

Tudo mudou na vida de Vince Staples no verão de 2006. São essas memórias a matéria prima para seu álbum de estreia, Summertime ’06, um trabalho denso, melancólico, triste, mas também inspirador, que entra definitivamente para a lista de clássicos do hip hop contemporâneo.

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Rapper de Long Beach, Califórnia, nos EUA, Staples é hoje um dos nomes mais interessantes do hip hop. Com apenas 22 anos, ele apresentou um álbum autobiográfico que fala com nenhum distanciamento de seu amadurecimento e as impressões que tem sobre questões importantes vividas pelos negros nos EUA hoje, como violência policial e preconceito. Antes de Summertime ´06, o músico foi construindo sua carreira através de EPs e mixtapes até chegar ao seu primeiro disco de estúdio.

O álbum se situa em um momento de produção explosiva no hip hop norte-americano. O gênero é hoje o único que consegue contextualizar questões importantes sobre política, sociedade e cultura ao passo que outros ritmos tradicionalmente críticos e questionadores, como o rock e o reggae, se mantêm alienados de qualquer debate relevante. E não é só no conteúdo que o rap se sobressai hoje no mercado musical. As inovações estão vindo de nomes como Kendrick Lamar e todo o Black Hippy, Staples, Run The Jewels e produtores como Clams Cassino, Sounwave e Terrance Martin, entre outros.

O disco de estreia de Staples, portanto, chega em um ano excepcional para o hip hop mundial. Quando olharmos para trás daqui há 20 anos serão discos como To Pimp A Butterfly e Summertime ’06 que nos contarão o zeitgeist desses tempos confusos onde as diferenças de classe e os conflitos raciais atingiram o clímax da violência. No Brasil, onde o hip hop sempre esteve associado a um discurso de empoderamento das periferias e da situação dos negros, temos hoje nomes como Emicida, Criolo e Kamau. Emicida, como seus colegas estadunidenses, também possuem o combo criativo de possuir voz relevante em sua comunidade e trazer inovações e experimentações na produção musical.

Summertime’06 é um retrato atual da cidade natal do rapper e foca em diversos assuntos. O 2006 do título reflete o momento de epifania vivida por Staples depois de sentir na pele os resultados da violência causados por racismo, preconceito e pobreza. Corpos mortos em becos, avisos de desocupação, prisões e assassinatos a bala são algumas das imagens trazidas pela narrativa. Mas Staples não faz um disco de protesto como poderia parecer. É um olhar passional sobre suas próprias experiências como adolescente. Por isso há certa poesia e paixão em faixas como “Señorita”, hit do disco. Há também uma história de amor no álbum: o rapper se mostra apaixonado por uma mulher, citada em diversos momentos. Na tristíssima “Summertime” podemos até sentir a dor na sua voz lamuriosa. Esse pé na bunda apenas piorou a vida de Staples naqueles tempos difícieis.

“Norf Norf” é a mais pesada do disco – ao menos no que diz respeito ao tema. Fala da relação caótica da polícia com a comunidade negra nos EUA. As amostras de racismo ficaram mais explícitas depois das mortes de homens inocentes em Ferguson e Nova York no ano passado e vêm mobilizando a opinião pública. Mas o assunto têm servido de mote para rappers há algum tempo. “Nunca corri de nada, só da polícia”, diz Vince Staples no refrão.

Esse discurso encontra ecos em faixas como “Alright“, de Kendrick Lamar e “Close Your Eyes (And Count To Fuck“, do Run The Jewels, faixas seminais sobre o sentimento de indignação que apenas no hip hop encontra escape.

Há muita dureza em Summertime ’06, mas também um orgulho das origens e uma espécie de chamado para a resistência. É uma música que dialoga com o presente, mas que finca bases sólidas para se tornar um clássico.

vince-staples-summertime06_zd5ztjVINCE STAPLES
Summertime ’06
[Universal, 2015]

9,0

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