Crítica: Djonga se reencontra consigo mesmo em O Dono do Lugar

Com 12 faixas, disco expressa reflexões sobre o mercado, masculinidade e vivências pretas

Crítica: Djonga se reencontra consigo mesmo em O Dono do Lugar

Com 12 faixas, disco expressa reflexões sobre o mercado, masculinidade e vivências pretas

Crítica: Djonga se reencontra consigo mesmo em O Dono do Lugar
4.5

Djonga
O Dono do Lugar
A Quadrilha, 2022. Gênero: rap

O suspiro final que Djonga dá nos últimos segundos de “dom quixote” depois de rimas com uma métrica super ágil diz muito sobre O Dono do Lugar. De tirar o fôlego. Se com NU (2021) por causa do contexto pandêmico de isolamento, ele criou incertezas sobre seu trabalho, já que não conseguiu finalizar o álbum como desejava, acarretando até o pensamento de se aposentar com apenas 27 anos, o novo disco traz consigo as marcas de um recomeço e a ressignificação da autovaloração de um dos maiores rappers brasileiros dos últimos tempos.

Tal ressignificação já é pungente nas duas primeiras canções. “tôbem” e a faixa já citada, abrindo os trabalhos, dialogam sobre a indústria num olhar do Djonga voltado para o próprio Djonga. Entre os versos que deflagram o racismo, (só agora que eu entendi o porque do estrutural e Me marcam no post se veem racismo na net, Mas não fazem nada se alguém é racista na frente), e desabafos, está o reconhecimento do patamar alcançado. A quebra das expectativas do disco anterior agora dão lugar a um rapper reencontrado em si mesmo, que sabe de sua importância e ainda tem muito o que debater na/sobre a música. 

O artista, natural da Favela do Índio em BH, crescido no bairro de São Lucas, vem de lançamentos quase cíclicos desde 2017, com Heresia (2017), O Menino Que Queria Ser Deus (2018), o super expressivo Ladrão (2019), Histórias da Minha Área (2020) e o anterior NU (2021). Em O Dono do Lugar, Djonga inova, resgatando inspirações em Dom Quixote, personagem da obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra.

A maior referência, além da figura paródica, aventureira e criadora de seus próprios mundos de Dom Quixote é sua batalha contra os moinhos, representada na capa do disco. “Uma experiência musical, sobre minha luta contra os moinhos de vento, contra inimigos maiores que eu, ou que não existem”, contou o cantor em suas redes sociais.

As críticas potentes a um mercado hipócrita e burlado repercutem também em “bala fini”, e se destacam em “bode”, que versa sobre a inclinação às tendências, (Hype não é o que me move e Nós faz porque nós curte não porque é tendência). A faixa também alerta sobre a passabilidade de certos corpos na indústria, quando diz Vai até ter mais atenção se for um pouco mais pardo, Só que o preço da cobrança é um pouco mais caro. Mais um dos temas abordados no disco é a ascensão custosa e sofrida das pessoas pretas, presente em “giz” feat Dougnow, e em “até sua alma”, que conta com as rimas e a atitude de Tasha e Tracie, apresentando o rap como essa ferramenta de transformação social que é.

Um arco que também chama atenção neste álbum, que além de ser o maior em quantidade de faixas do artista, é a relação de sinceridade de Djonga, aqui refletindo não só seu intérprete Gustavo Pereira Marques, mas vivências de todo homem influenciado por uma masculinidade sistemática. Ter o cantor Cazuza como uma assumida inspiração se reflete na exibição de uma personalidade imposta nos versos que reconhece a imperfeição ao mesmo tempo que busca desconstruir mazelas. Neste sentido, “contatin” com Vulgo FK critica a postura falocêntrica que submete sempre a mulher ao prazer do homem tão presente nos produtos do rap e na música nacional em geral; já “em quase tudo” deflagra o homem tóxico, abusivo, homofóbico, trajado nas vestes do “cidadão de bem que é a origem do mal”.

Djonga busca inspiração em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. (Foto: Foto: Coniiin / Divulgação).

Ora essa verdade aparece neste contexto de desconstrução, ora se mostra revoltada por um preconceito deflagrado em “conversa com uma menina branca”, trazendo marcas de falas veladas na tentativa de comparar sofrimentos, como se o racismo no Brasil não fosse um problema de brancos com pretos. Já a realidade da periferia negra figura por exemplo em “a cor púrpura”, que dialoga sobre a adaptação a violência na favela pela marginalização generalizada da “alta sociedade” (Usava farda, foi um tapa na cara e Vai tá sempre no erro e não importa a causa), assim como em “do menor” feat Oruam, relatando o calvário da vida no crime e as perdas que isso traz.

Vale ainda destacar “penumbra”, parceria com Sarah Guedes que adocica a sequência cantando melódica de uma história de amor construída.

A escolha de não trabalhar com singles e guardar as faixas para o lançamento de um álbum completo decreta o retorno mais que triunfal de Djonga. O disco, produzido por nomes como Coyote Beatz e Dallas, expressa a autenticidade, os debates sociais das rimas, o despir da personalidade potente do rapper na mesma medida em que reforça o seu valor. Esses são passos que podem e devem levar Djonga a patamares ainda maiores. O rap e a música brasileira como um todo se encontram gratas com este retorno. 

Achei que podia relaxar eu tava cego, 

Então tive que voltar a fazer Rap pesado. (“tôbem”).

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