Foto: Divulgação/California Filmes.

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O tempo é um diretor implacável em , novo longa de

Por Paulo Floro

Há tantas camadas em Acima das Nuvens, novo longa de Olivier Assayas (do ótimo Depois de Maio) que descobrimos que estamos vendo diversos filmes dentro de um único ao longo da projeção. interpreta Maria Enders, uma atriz no auge de sua carreira, que vive a expectativa de reencenar no teatro a peça que a tornou famosa vinte anos atrás. No passado ela viveu Sigrid, uma jovem que vive um relacionamento proibido com sua chefe Helena, o que acaba levando esta última ao suicídio. Agora, surge a oportunidade de encarar este outro lado da história, na pele da mulher adulta que se vê apaixonada por uma garota mais nova.

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Ela parte com sua assistente, Val, interpretada por Kristen Stewart, em um dos seus momentos mais incríveis já vistos de sua incipiente carreira. Assayas colocou a audiência a par das inseguranças de Maria, que teme se tornar um espelho de sua nova personagem. A garota escolhida para interpretar a nova Sigrid é Jo-Ann (Cholë Grace Moretz), um estrela de Hollywood envolvida em diversos escândalos e ídolo adolescente de sua geração.

O cenário da trama é Sils, nos alpes suíços, mais especificamente a região remota das montanhas Maloja, onde um fenômeno meteorológico formado por nuvens em um desfiladeiro assume uma forma de serpente, o que acabou batizando o nome da peça fictícia montada no filme, “The Maloja Snake”. Mais difícil do que encarar essa inexorável passagem do tempo é reviver memórias que moldaram tanto sua formação como atriz como sua trajetória pessoal. O local escolhido para os ensaios foi o chalé do escritor da peça, morto recentemente e por quem a personagem de Binoche nutria forte admiração. A paisagem inalterada desse lugar idílico é também uma metáfora para a efemeridade do ser humano.

E falando em efêmero, Acima das Nuvens, traz uma camada importante da trama que é seu olhar sobre os bastidores do mundo das celebridades e da indústria cultural globalizada. Assayas tece um comentário ao mesmo tempo irônico e cruel das vicissitudes e egos de escritores, atores, produtores e assistentes e todas as frivolidades que gravitam em torno desse universo. E é por isso que a personagem de Kristen Stewart adquire bastante consistência dentro do filme. Brilhantemente escalada, ela nos dá um olhar distanciado desse mundo onde as pessoas parecem viver deslocadas da realidade.

É ela quem fornece o chão que a personagem de Binoche parece desconhecer. Isoladas neste chalé, as duas protagonistas vivem um embate crescente à medida em que as fendas da realidade começam a aparecer. Aí encontramos outra camada, que é a metalinguagem sobre o fazer artístico dentro de Acima das Nuvens. Durante os ensaios passamos a conhecer o lado mais vulnerável das duas personagens e o modo como projetam suas próprias inseguranças uma na outra a ponto de se machucarem. Estariam vivenciando a mesma experiência de Sigrid/Helena na vida real ao mesmo tempo em que discutem as visões diferentes que possuem sobre as motivações das personagens.

Binoche e Stewart entregaram interpretações tão naturalistas que parecem interpretar personagens bem parecidas com elas mesmas. Binoche com sua experiência evidente, seu tom clássico e elegante, enquanto Stewart esconde sagacidade em um olhar entediado e lânguido sobre tudo. Diretor e atrizes brincam com essas similaridades entre real e ficção, que é o cerne do filme ao final de contas. Afora alguns momentos que parecem levar ao melodrama, Acima das Nuvens é um filme complexo e bem escrito que discute o fazer artístico e de como o tempo é, ao final, o grande e cruel diretor dessa vida que interpretamos.

acimaACIMA DAS NUVENS
De Olivier Assayas
Com Juliette Binoche, Kristen Stewart, Chloë Grace Moretz
[Clouds of Sils Maria, FRA/SUI/ALE, 2014]
California Filmes

8,0

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