Foto: Gilvan Barreto/Divulgacao
Foto: Gilvan Barreto/Divulgacao

JARDIM DO DESEJO
Filme pernambucano retoma cinema marginal para falar do amor, mas tropeça ao traçar ao traçar painel sóciopolítico do Brasil atual

Por Alexandre Figueirôa

Sair da sala de cinema após ver um filme e ficar com ele na cabeça tentando decifrá-lo e, desse exercício, ver emergir questões tanto formais quanto acerca do seu conteúdo é um bom sinal. Pode ser que ele nem seja uma obra prima, mas o fato de provocar essas reações deve ser levado em conta. Filme Jardim Atlântico, de Jura Capela, tem esse mérito. Construído como uma alegoria do Brasil contemporâneo, Capela atualiza nas telas um estado que nos remete ao cinema novo, ao cinema marginal e ao tropicalismo. Percorre um caminho curioso que tem a liberdade criativa como seu principal atrativo. Não é, contudo, um filme para o público de salas de shopping acostumado com narrativas lineares e obras esteticamente bem comportadas. É algo para quem gosta de Buñuel, Rogério Sganzerla e vai ao cinema em busca de outras poéticas da imagem.

A deambulação cinematográfica de Capela tem uma motivação prosaica: a narrativa desenvolve-se a partir do relacionamento amoroso entre Pierre (Mariano Mattos Martins) e Syl (Sylvia Prado), um casal em conflito por causa do doentio sentimento de posse do rapaz em confronto com o desejo de liberdade da sua amada. Reflexões sobre a paixão e o desejo é um tema recorrente no cinema. Em Jardim Atlântico, mais uma vez, vemos retratado na tela a dificuldade das pessoas abraçarem o ideal de amor livre e da entrega aos prazeres afetivos e sexuais sem, logo em seguida, sucumbirem ao incômodo pelo que praticaram, voltando-se para um comportamento conservador e puritano. Capela tenta fazer dessa situação afetiva uma metáfora dos nossos sentimentos pelo Brasil, um sentimento povoado por paixões tórridas pelo carnaval, pelo futebol e ao mesmo tempo repleto de contradições que anulam essa entrega.

Visualmente o filme revela inquietação e tem achados formidáveis, como as cenas iniciais no fundo do mar quando, de um navio afundado vemos vir à tona a figura de um minotauro, elemento simbólico que pontuará a narrativa e a dotará de um viés surreal perfeitamente cabível pela liberdade poética concebida por Capela. As sequências do carnaval em Olinda, feitas em super 8, a ambientação psicodélica de algumas cenas e o flerte permanente com um clima onírico, mesclam-se e nos indagam sobre os nossos próprios afetos e desejos. Há também uma feliz utilização da música, marcadamente nas canções que percorrem o filme, interpretadas por Pitty, Céu, entre outros, e cuja sonoridade nos remete a uma inequívoca identificação com o nosso sentimento de amor pelo Brasil. A trilha original foi assinada por Pupillo, na Nação Zumbi.

O tropeço
Toda essa sensorialidade invocada por Capela, no entanto, tropeça quando o cineasta na tentativa de construir um painel sóciopolítico do Brasil de hoje, deixa o tom farsesco e o delírio para aproximar-se de uma representação realista que acaba soando deslocada do conjunto. Nesse momento ocorrem duas quebras que comprometem a organicidade do filme. A primeira é de ordem técnica. Nessas sequências os diálogos não estão bem estruturados e a direção dos atores mostra-se insegura, interferindo na densidade dramática das cenas.

A segunda é de ordem conceitual, ou seja, da própria concepção do filme. Jardim Atlântico anuncia um questionamento profundo sobre as contradições do amor e pretende fazer dele uma ponte para expor as complexas relações entre a sociedade brasileira e o país. No final não resolve bem nem uma coisa nem outra. Ariadne não deu o novelo de lã para Capela escapar do labirinto.

jardimatlanticoFILME JARDIM ATLÂNTICO
Jura Capela
[Brasil, 2013]
Com: Mariano Mattos Martins, Sylvia Prado e Hermilla Guedes
Lançamento: Jura Filmes

Nota: 7,5

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