Crítica: Gilbert Hernandez discute formas de violência no melodrama latino Além de Palomar
9.5

É difícil pensar em um cânone das histórias em quadrinhos no século 20 sem falar do trabalho do norte-americano Gilbert Hernandez. Ao lado do seu irmão, Jaime Hernandez, ele fez sucesso com a revista alternativa Love & Rockets, publicação que trazia narrativas cheias de humor e crítica social. Foi por lá que Gilbert publicou seu épico latino-americano sobre uma cidade fictícia conhecida como Palomar, um lugar no meio da América Central todo trabalhado no realismo fantástico. O terceiro volume com a compilação dessas histórias acaba de sair pela editora Veneta.

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Além de Palomar reúne duas das mais elogiadas sagas sobre Palomar publicadas originalmente na Love & Rockets, “Rio Veneno” e “Love and Rockets X”. Aqui, Gilbert abandona um pouco o misticismo das histórias para oferecer uma narrativa mais áspera e localizada, com um tom de suspense muito marcado. Quem leu os volumes anteriores, Sopa de Lágrimas (2016) e Diastrofismo Humano (2017), vai perceber a mudança de clima neste volume. O que permanece igual é a sensibilidade do autor em discutir questões pertinentes à identidade latina em toda sua complexidade. E também um olhar realista sobre política, e no caso deste livro muito focado nos temas racismo, homofobia e violência.

“Rio Veneno” conta o passado da prefeita Luba, cuja infância miserável e seu envolvimento com mafiosos da extrema-direita a fizeram fugir para Palomar ao lado de sua tia Ofélia. É um dos melhores trabalhos de Hernandez e traz uma trama intrincada repleto de personagens que vão ganhando holofotes à medida em que a história avança. A segunda história é “Love and Rockets X”, que se passa na Los Angeles de 1989 contaminada pelas tensões raciais que explodem por toda a cidade. O pano de fundo da HQ está impregnado pelos acontecimentos sociopolíticos da época, entre eles a invasão do governo Bush no Panamá, a crescente violência contra imigrantes latinos e a ascensão de grupos neonazistas.

Nas duas HQs presentes no volume estão personagens complexos, que fogem das idealizações latinas vistas em muitas obras de ficção. Há em Gilbert um interesse em trazer um panorama polifônico para a história, com personagens assumindo diferentes nuances em diferentes pontos da história ou mesmo a partir de diferentes perspectivas. Tomemos a personagem Ofélia, por exemplo. Moradora de um povoado pobre, ela se envolve com grupos de esquerda clandestinos e acaba perseguida pela ultradireita apoiada pelos americanos. Sua história ainda possui um relato cru da luta contra a misoginia e violência de gênero. Após adotar a pequena Luba como sobrinha, percebemos que há diversas nuances que são exploradas ao longo da HQ, como sua pouca paciência, suas relações complicadas com os amantes.

Esse talento em criar personagens críveis, mas incrivelmente cativantes e inusitados, sempre foi um ponto alto das histórias de Palomar. É imprevisível o rumo que tais personagens tomam e isso faz com que o leitor se mantenha imerso naquela narrativa à espera de eventuais reviravoltas. Percebe-se aqui uma clara influência do gênero melodrama, estética que fez sucesso na América Latina, e que tem como base esses arroubos vividos pelos personagens, além de, claro, muitas lágrimas, riso e exagero. A sacada aqui é que esse melodrama está atracado a um épico de suspense com personagens mafiosos, bandidos, políticos inescrupulosos e espiões.

Cena da HQ “Rio Veneno”, que conta a história de Luba. (Divulgação).

O épico de “Rio Veneno” é contado a partir da perspectiva de diversos personagens, mas todos estão, de alguma maneira, relacionados à Luba, uma das criações mais famosas de Gilbert Hernandez (ela aparece também nos dois volumes anteriores da série). Após uma infância de muita pobreza, Luba se envolve ainda adolescente com o ex-músico de conga Peter Rio, que se torna um dos principais nomes do crime organizado da região.

Em seu entorno orbitam diversos personagens que, ainda que vistam um estereótipo dos coadjuvantes de novela, bem canastrões, ganham na trama diversas camadas de complexidade. E é a partir deles, com humor e toques de realismo mágico, que Gilbert discute temas que são bem caros à sua visão artística, como o racismo e identidade latina.

Da narrativa épica de “Rio Veneno”, o que mais se evidencia é o modo como todos os personagens tenham que lidar com a violência em algum nível. Isso se apresenta quase como uma sina da experiência latina. Na história de personagens como Peter Rio e sua primeira mulher, vemos a violência de gênero e homofobia e, em outros, como Ofélia, o racismo. No dissimulado Blas, que encarna a persona do gângster novato na profissão, vemos a presença da homofobia como uma constante. Pairando por tudo isso temos o imperialismo norte-americano lançando sua sombra no cotidiano latino, desde a influência cultural até o envolvimento direto com golpes e artimanhas para deter a esquerda e o “comunismo”.

“Love and Rockets X”, presente em Além de Palomar. (Divulgação).

Com sensibilidade, Gilbert Hernandez traz em sua obra uma discussão mais abrangente e aprofundada sobre formas de violência, que se apresentem de maneiras mais sofisticadas e difíceis de serem percebidas como violência, como a desigualdade social, o racismo estrutural e a violência de estado.

Na segunda história do livro, “Love and Rockets X”, essas mesmas discussões estão presentes, mas com uma abordagem diferente. Hernandez traduz os sentimento do final dos anos 1980 em uma trama passada em Los Angeles. Não temos Palomar, mas sua influência está presente na personagem Maricela, filha de Luba, que emigra para os EUA para viver com sua namorada, Riri. Diversos núcleos de personagens aparecem, mas todos se relacionam de alguma maneira com a banda de rock que dá nome ao título. Aqui, o autor acentuou ainda mais suas críticas sociais ao racismo da sociedade americana, cuja violência nem sempre explícita aparece de diferentes maneiras. O deboche com a cultura yuppie e sua pretensa “consciência social” é hilário (representado pela rica executiva de Hollywood que apoia minorias, mas não abre mão de seus privilégios).

Gilbert segue com um desenho incrível, com personagens de diferentes tipos físicos e bastante expressividade. Seu estilo oscila entre o realismo e o cartum, o que evidencia ainda mais o melodrama. A narrativa, como sempre, é bem sóbria, com as páginas quase sempre alternando divisões de seis ou oito requadros. O interessante é sua capacidade de dominar a linguagem dos quadrinhos para condensar diversas ações em um único requadro. Ou seja, em uma único quarto de página do gibi temos às vezes dezenas de acontecimentos.

Para quem nunca leu nada de Gilbert, este talvez seja um ponto que chame atenção: sua narrativa é ainda mais longa do que aparenta por conta desses acontecimentos múltiplos em um só requadro.

Ainda que não se passem em Palomar e não tragam muitos dos personagens icônicos da série, este é um dos melhores quadrinhos de Gilbert Hernandez publicados na Love & Rockets. “Rio Veneno”, sobretudo, merece estar em qualquer biblioteca decente de HQs por sua complexidade e personagens bem construídas. Engraçada e comovente como todo bom melodrama, a obra é também um thriller bastante inusitado. Muito interessante ver que essa obra canônica dos quadrinhos alternativos estejam finalmente sendo publicados no Brasil com uma edição à altura de sua importância.

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ALÉM DE PALOMAR
Gilbert Hernandez
[Veneta, 256 páginas, R$ 89,90 / 2020]
Tradução de Cristina Siqueira

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