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mistura espionagem, universos paralelos e crise familiar
HQ escrita por e desenhada pelo brasileiro está com o segundo volume em pré-venda

Por Rodrigo F.S. Souza

Casanova – Luxúria conta com uma trama intrincada de espionagem com muita ação super-heroíca, temperada com uma colher de ficção científica, e uma pitada de ‘pulp’ e ‘noir’ que gira em torno do personagem que dá nome à HQ. Casanova Quinn é um ladrão charmoso, sedutor e bon vivant, com um quê de James Bond, filho de Cornelius Quinn, o diretor da agência de espionagem I.M.P.E.R.I.O. – uma clara referência à S.H.I.E.L.D. do Universo Marvel – que luta contra grupos terroristas ao redor do mundo, entre eles o M.O.I.T.A., comandado pelo misterioso e excêntrico Newman Xeno. Mas basta avançar na leitura para encontrar bem mais do que a descrição acima dá conta de abranger. Então, vamos nos aprofundar um pouco mais neste mundo criado por Matt Fraction e Gabriel Bá.

É importante salientar que Casanova – Luxúria não é uma história de leitura fácil, especialmente em seu primeiro capítulo. Fraction dispara freneticamente contra o leitor uma quantidade massiva de informações que surgem tão subitamente na história quanto o protagonista é jogado de um canto ao outro do mundo e de universos paralelos, em mudanças de cenário que se assemelham ao zapear de um telespectador mudando de um canal para outro da TV. Muitas siglas cujo significado não sabemos (M.O.T.T., S.M.X., entre outras), e acontecimentos que parecem aleatórios e sem nexo ou explicação, ocorrem o tempo todo no primeiro capítulo, deixando o leitor tão perdido quanto Casanova. Ele, inclusive, chega a confessar em uma cena que está achando toda a situação em que está metido muito confusa, num dos primeiros indícios de que Fraction tem consciência de que está exigindo um bocado de paciência e persistência do leitor para entender do que diabos se trata tudo aquilo.

Portanto não dá pra acusar a trama de ser monótona. Sim, ela demora um pouco pra fazer algum sentido, e levar o leitor a criar empatia com os personagens. Felizmente, isto começa a mudar a partir do capítulo 2, que começa a preencher as lacunas deixadas no primeiro, e explorar mais a fundo os personagens e elementos que compõem seu mundo. Mas é fato que as voltas intrincadas que Fraction faz na trama exigem releituras, que terminam por ressaltar ainda mais a riqueza e qualidade da história.

O Helicassino de Fábula Beserko, referência ao aeroporta-aviões da S.H.I.E.L.D. (Divulgação/Panini)

O Helicassino de Fábula Beserko fazendo referência ao aeroporta-aviões da S.H.I.E.L.D. (Divulgação/Panini)

Não faltam em Casanova dezenas de referências a filmes, quadrinhos, literatura, filosofia, física quântica, e até seriados japoneses. Fábula Berserko, por exemplo, primeiro inimigo enfrentado por Casanova, lembra uma mistura dos vilões M.O.D.O.K., da Marvel, com Hector Hammond, da DC; o vilão Newman Xeno, um cientista louco bilionário, cujo visual remete tanto à Múmia da Universal quanto ao Homem-Invisível de H.G. Wells, parece uma fusão de várias criaturas clássicas de filmes e livros de terror; e as T.A.M.I.S., trio de assassinas disfarçadas de um conjunto famoso de pop rock, parece um amálgama d’As Panteras, com Josie e as Gatinhas, e as Víboras Mortais de Kill Bill. E, sim, também aparece um robô gigante em Casanova.

Fraction não economiza no uso de seu arsenal de ideias. Clonagem, duelos psíquicos, viagens no tempo, reatores a base de orgônio (energia sexual) são apenas alguns exemplos. E na mesma proporção em que constrói uma estonteante colcha de conceitos tomados emprestados da ficção científica, o autor diverte-se ao fazer seu protagonista pouco se importar em entender a ciência por trás de tudo que acontece a seu redor. Numa das poucas vezes em que alguém tenta dar embasamento científico ao que está ocorrendo, Fraction interrompe as explicações com comentários sarcásticos do herói a respeito do que está ouvindo.

Aliás, a consciência da loucura narrativa que está criando é tamanha, que Fraction a pontua com breves inserções de pensamentos e impressões de seus personagens. Eles comentam o que está acontecendo, mas sem soarem redundantes, e assim acabam revelando um pouco mais de suas personalidades. E ainda há as divertidas e informativas participações de Deus, Criador de Todas as Coisas, que também ajudam o leitor a organizar na cabeça um bocado do que ocorreu anteriormente. Desta forma o autor mantém o frenesi da história sem interrompê-la para criar momentos meramente voltados para desenvolver seu elenco e “mastigar” sua trama.

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Dois rápidos insights nas mentes de Casanova e Berserko. Uma forma usada por Fraction para aprofundar-se em suas criações. (Divulgação/Panini)

Apesar de todos estes elementos fantásticos, e da ação desenfreada, em seu cerne Casanova é um drama familiar sobre um casal de irmãos que odeia o pai, e como isso acaba tomando proporções megalomaníacas.  É uma guerra entre Casanova e Zemphyr, e dos dois contra Cornelius, que traduz-se como um conflito global entre agências terroristas e de espionagem. Isto se torna mais claro no capítulo 3, para o qual Fraction adotou uma estrutura do tipo “tempo fragmentado”, que explora mais a fundo a relação de Casanova e Cornelius, e do herói com sua irmã de outro universo, que também é espiã, e flerta várias vezes com a ideia de praticar incesto (e até certo ponto o concretiza, numa cena com alto teor erótico e sadomasoquista, embora não explícita).

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Casanova encontrando a versão alternativa de sua irmã Zemphyr. (Divulgação/Panini)

E há muito “orgônio” nas histórias de Casanova. Quase todos os personagens principais são, em diferentes níveis, hedonistas (daí temos uma das explicações para o subtítulo), a começar pelo protagonista, que diversas vezes aparece tendo relações sexuais com mulheres, e até com robôs femininas, além de ter que lidar com as insinuações da irmã (a imagem ao lado é um bom exemplo disto).

E para combinar com todas as peculiaridades de Casanova, nada melhor do que inimigos à altura. Assim, temos o bizarro Fábula Berserko; o misterioso e paradoxalmente espalhafatoso Newman Xeno, um vilão odiosamente divertido e sadicamente adorável, com um modo afetado e cruel de agir, e às suas memoráveis frases de efeito (minha preferida é “Acordem, garotas! Vamos transar em cima de pilhas de dinheiro ensanguentado!”); Sabine Seychelle, um gênio da robótica, amante e cafetão de suas “garotas de programa” artificiais; e os habitantes da Ilha Coldheart, uma civilização tecnologicamente avançada que se disfarça de selvagens para o mundo exterior.

A civilização da Ilha Coldheart, cenário do capítulo 5, merece destaque. Ela faz referência à Wakanda do Pantera Negra, da Marvel Comics e acaba se transformando em um lugar onde Casanova decide esconder seus entes queridos a fim de protegê-los dos perigos que atrai com suas atividades criminosas e de espionagem. Nesta parte da história, o roteiro explora o velho tema arquetípico do branco/não-nativo que apaixona-se por uma cultura exótica considerada inferior e primitiva pelo resto do mundo.

Casanova versus "Deus" (Divulgação/Panini)

Casanova versus “Deus” (Divulgação/Panini)

Além de focar no drama familiar por trás da ação sem limites espaço-temporais, Fraction aproveita a chance de traçar breves e mordazes críticas. Uma delas ocorre no capítulo 4, em que o autor traça um paralelo entre os espetáculos de entretenimento de mágicos e rockstars com figuras religiosas. Nada que ele faça questão de se aprofundar. Nesta mesma história Fraction faz um breve comentário sobre a influência de política sobre regiões de conflitos alimentados por discordâncias religiosas, que também não é levada adiante, servindo apenas como um tempero a mais para a trama, que preocupa-se mais em divertir o leitor com a ideia de botar Casanova enfrentando fisicamente um homem idolatrado como um deus.

O traço dinâmico de , que lembra muito uma mistura dos estilos de Mike Mignola e Peter Chung, pela elasticidade, espontaneidade e cinetismo que lhe são característicos, combinam com o frenesi elaborado por Matt Fraction para Casanova. É difícil imaginar um desenhista que se adeque mais do que ele à tarefa. Talvez só seu irmão, Fábio Moon, que chegou a desenhar uma história curta para o encadernado, e conseguiu sair-se tão bem quanto Bá em traduzir visualmente as viagens imaginativas de Fraction. E a arte de Bá ganha ainda mais vida com as belas cores de Cris Peter, que sabe a hora certa de fugir do tom esverdeado que domina toda a história, e usar cores quentes para destacar um objeto, personagem ou ação específica, além de potencializar a violência nas cenas mais sangrentas, o desejo e luxúria em cenas de teor mais erótico (um bom exemplo são as cenas do de Heavy Water, do capítulo 2) e intimidade (a sequência em que Casanova conversa com Cornelius à luz de uma lareira no capítulo 3, em especial).

Uma das muitas cenas de ação de Casanova - Luxúria. (Divulgação/Panini)

Uma das muitas cenas de ação de Casanova – Luxúria. (Divulgação/Panini)

E a tradução de merece elogios por conseguir adaptar o estilo espontâneo e cheio de gírias e contrações linguísticas do texto de Fraction, preservando a diversão que proporcionam ao leitor. Como extras, o encadernado traz textos de , Peter, e do letrista da versão original Dustin Harbin. Uma ótima forma de inteirar o leitor sobre as minúcias da produção da HQ. Só faz falta um texto de Matt Fraction contando um pouco sobre a gênese do projeto.

Em suma, Casanova – Luxúria é uma história que transborda energia, mas que sabe as horas certas de parar um pouco para que o leitor tome fôlego (e a cena de luta que é interrompida para tornar-se uma discussão civilizada entre inimigos tomando chá é um exemplo sensacional disto). O volume 2, Casanova – Gula, desta vez com desenhos de Fábio Moon, já está em pré-venda em algumas comic shops brasileiras, enquanto o terceiro, Avaritia, está sendo desenhado por , ainda sem previsão de lançamento nos Estados Unidos.

É uma série bem recomendada, sobretudo para quem continua saindo por aqui.

casanova-luxuria-paniniCASANOVA – LUXÚRIA
De Matt Fraction e Gabriel Bá
[, 160 págs., R$ 49,00 / 2012]
Tradução: Érico Assis

Nota: 9,0

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