Crítica-HQ: segue relevante na busca por uma Marvel mais diversa e interessante
8.5

MILES MORALES:
, , Chris Samnee, David Marquez
[Panini Comics, 232 páginas, R$ 34,90 / 2020]
Tradução de Mario Luis C. Barroso

Miles Morales é hoje um dos personagens mais populares da , sobretudo do sucesso de Homem-Aranha no Aranhaverso, animação vencedora do Oscar protagonizada por ele. Esse sucesso justifica mais uma republicação com a origem do herói criado por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli (algumas histórias neste livro já saíram nos encadernados Homens-Aranha, da Panini e também em uma edição de Os Heróis Mais Poderosos da Marvel, da Salvat). Como parte de uma nova coleção voltada para leitores adolescentes, esses títulos trarão narrativas com potencial de atrair novos leitores para o universo da Marvel, sem necessidade de compreender cronologias ou intrincadas tramas de longas sagas e eventos.

Miles Morales talvez seja o super-herói que melhor representa essa tentativa da Marvel de olhar adiante em busca de novos leitores. E não apenas “novos” leitores, mas sobretudo leitores jovens, o que garante a necessária renovação de público que torna qualquer negócio rentável, ainda mais em se tratando do quadrinho mainstream americano cujos personagens, via de regra, nunca envelhecem.

Morales, assim como nomes como Khamala Khan, a nova Ms Marvel e America Chavez, entre outros novos personagens, fazem essa ponte com um público interessado em narrativas mais próximas da realidade atual, interessadas em criar essa identificação. São personagens que dão à editora um verniz moderno, alinhado às expectativas de jovens dessa geração e que, dentro da possibilidade de seu gênero narrativo, tentam dar conta da complexidade social e dos anseios desse nosso tempo.

Esses novos leitores não estão muito interessados em saber se nostalgia da infância foi bem atendida ou se a história está sintonizada com os valores da época em que os heróis foram criados. Querem boas histórias, e, de preferências, rostos em que possam se reconhecer. Afinal de contas, foi com esse pé no mundo real e em uma conexão com anseios de jovens de sua época que a Marvel fundamentou seu universo a partir dos anos 1960 com personagens críveis e carismáticos.

Michael Bendis tinha muita consciência de que o público atual estava muito interessado em uma maior representatividade, com protagonismo de verdade. Miles Morales surge nesse período rico de boas histórias e novos personagens negros, latinos, gays, o que acabou gerando algum esperneio de leitores homofóbicos, nerds incels que não aceitaram perder o destaque histórico que o hétero branco classe média sempre teve.

A aposta de Bendis deu certo e o personagem fez bastante sucesso – e ainda faz: o novo jogo para PS5 Spider-Man: Miles Morales é um dos mais aguardados da nova geração de consoles da Sony e um novo longa do Aranhaverso já está confirmado. As histórias deste volume trazem a primeira aparição do herói em Ultimate Fallout 4 (2011) e os primeiros números do título Ultimate Comics: Spider Man (2011-2012), onde o personagem habitava um universo paralelo com versões modernas e atualizadas dos heróis da editora, chamado de Ultimate. Aqui no Brasil, os gibis desse universo saíram inicialmente com o nome de Marvel Millenium. Momentos depois Miles viria a habitar o universo Marvel tradicional após o evento Guerras Secretas, mas isso deverá ser mostrados em outros livros.

Neste universo o Homem-Aranha morre e Miles assume o manto. Neste primeiro volume foi estabelecido as bases do personagem, seu entorno, sua família e suas motivações. Morador do Brooklyn, filho de uma enfermeira porto-riquenha e de um policial negro, Miles é um nerd com aptidão para ciências, assim como seu predecessor. Ele adquire seus poderes ao ser picado por uma aranha geneticamente alterada na casa do seu Tio Aaron (um ex-criminoso que atua secretamente como um supervilão).

Ao contrário das histórias de Parker, cujo enredo discutia poder e responsabilidade, a HQ de Miles Morales tem um pouco mais de complexidade ao discutir questões como racismo e classe social. A importância do contexto social na construção da identidade do indivíduo negro e latino nos EUA está presente, sobretudo, nas conversas de Miles com os personagens adultos, que trazem vivências e posicionamentos políticos bastante diferentes enquanto minorias na América. Mudar o cânone de um herói como Homem-Aranha em busca de uma justiça racial e maior representatividade é desafio enorme e estas primeiras histórias do herói tentam lidar com isso ao mesmo tempo em que apresentam uma narrativa de aventura e ação coerente dentro do gênero clássico dos super-heróis, o que inclui belas sequências de lutas, reviravoltas na trama e humor. Não é pouca coisa.

O impacto que o personagem teve em meninas e meninos pretos e pretas pode ser percebido até hoje (a internet está repleta de cosplays de Miles em comic-cons mundo afora). Há também toda uma geração de leitores que já não ligam para o tradicionalismo de considerar Peter Parker como o Homem-Aranha “original”, “tradicional”, ou algo do tipo. Miles é Homem-Aranha e pronto.

(Aqui, um parêntese: Certa vez conversava com minha filha de 10 anos, uma menina negra que é leitora assídua de quadrinhos, e citei algo relativo a uma história do Homem-Aranha que tinha lido. Ao que ela respondeu: “tá, mas QUAL Homem-Aranha. Nunca imaginei que precisasse assinalar algo desse tipo ao me referir ao personagem. Tive que responder, ainda surpreso, “o Homem-Aranha Peter Parker”. E ela, “ah, sim, continue”. É esse tipo de identificação que a Marvel Comics, tão sabidamente em busca de uma modernização de sua proposta artística , busca em gibis como esse.)

Para quem nunca leu nada de Miles Morales, este volume é perfeito. História fechada, quase nenhuma referência a outras histórias da Marvel, apresentação do herói, sua origem e motivações.

O roteiro de Bendis é envolvente e faz uso do seu já conhecido talento em criar excelentes diálogos, mas este início de Miles Morales é convencional até a medula, quase que decalcando os velhos desafios vistos em muitos gibis de super-heróis. Ou seja, ainda que seja um gibi importante para pensar um quadrinho mainstream mais diverso e interessante, está longe de ser algo inovador. Mas diverte. O desenho da italiana Sara Picheli é um dos maiores atrativos desta HQ e foi responsável por destacar o carisma do personagem. Sua representação do herói como um adolescente é muito vívida e o seu estilo limpo, de linhas claras, dá um tom leve para toda a leitura.

Esta nova série, enquanto projeto editorial, faz muito sentido e tem bastante potencial para atrair novos leitores – a próxima edição trará histórias da Gwen-Aranha. Relançada quase 10 anos de seu lançamento original, a HQ de Miles Morales segue relevante e ilustra bem a importância de representar diferentes vivências nas páginas dos quadrinhos mainstream.

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