Foto: Divulgação/Veneta.
Crítica-HQ: e a poesia brutal sobre loucura e amor
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PÉPLUM

[Veneta, 160 páginas, R$ 79,90]
Tradução de Alexandre Barbosa de Souza

O termo Péplum foi usado para descrever o subgênero cinematográfico europeu das aventuras ambientadas na Idade Antiga, de centuriões romanos, gladiadores, imperadores perversos e toda sorte de atos heroicos estrelados por homens com pouca roupa – não à toa esse nicho foi apelidado de “espada e sandália”. E, ainda que tais produções não tenham atingido o mesmo nível de qualidade e sucesso de seus similares hollywoodianos como Spartacus e Ben-Hur, eles traziam um evidente tom épico que chegava a contrastar com o estilo ingênuo e cheio de clichês de sua narrativa. O artista francês Blutch se apoia nessa referência como ponto de partida para esta HQ, considerada uma das obras-primas da Bande Dessinée francesa, mas faz isso de maneira irônica. Sua obra, diferentemente dos pueris filmes dos anos 1950-60, é complexa e cheia de ambiguidades, um retrato da obsessão e decadência humanas tendo como pano de fundo o declínio da República Romana.

Peplum começou a ser publicado de maneira seriada na revista francesa (À Suivre) em 1996 e foi apresentada como uma adaptação de Satíricon, de Petrônio, uma obra escrita no ano 60 e que chegou aos dias atuais apenas em fragmentos. O autor colocou sua ambição criativa a serviço da HQ e se apoiou na obra original apenas enquanto inspiração. Além de preencher os vazios da história, Blutch (cujo nome verdadeiro é Christian Hincker) trocou o cenário da Roma de Nero (54 a 68 d.C) para o segundo Triunvirato, quase 100 anos antes, no início do declínio da República Romana. Tanto que a abertura do quadrinho mostra o assassinato de Júlio César (em 15 de março de 44 a.C), onde Blutch toma emprestado de Shakespeare a célebre frase “até tu, Brutus?”.

Nas fronteiras dos domínios romanos, ao lado de um grupo de bandidos, Públio descobre uma mulher congelada em um gigantesco bloco de gelo dentro de uma caverna. Decididos a vendê-la, eles vagam por um ano inteiro sem que a preciosa carga tenha sofrido nenhuma alteração. Assolados pelo frio e pela fome, discutem o que fazer com ela imersos em acusações e paranoias, o que rapidamente acaba explodindo em violência. Públio é um dos poucos a permanecer com vida, mas, arrasado por doenças, é atacado por um dos ladrões, que então usurpa seu nome de patrício. É aqui que começa o purgatório daquele que vem a ser chamado de Públio Cimbro, um homem que se vê apaixonado pela misteriosa mulher congelada e que, por conta de sua obsessão, vai fazer uma jornada intensa e cheia de provações até a capital.

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Blutch busca ainda inspirações em outras obras, a exemplo da adaptação de Fellini para Satyricon (1969) e de trabalhos de Pier Paolo Pasolini (que adaptou para o cinema obras como Medeia e O Evangelho Segundo São Mateus), porém sua narrativa é mais febril e violenta, com o comentário sobre a natureza humana convivendo com o retrato da loucura como a experiência máxima do amor e da traição. Ao longo do quadrinho, Públio Cimbro luta por sua vida enquanto tenta manter intacto o túmulo de gelo, mesmo sem saber se sua amada está mesmo viva ou se tem carregado um cadáver por todo o império. Na sua trajetória ele acaba se apaixonando por um garoto, com quem passa a manter uma relação homossexual típica da sociedade greco-romana do período. Mas mesmo esse amor irá sucumbir em nome do poder que a gélida mulher exerce sobre ele. É uma jornada bizarra, fantasmagórica, onde o autor confronta seu protagonista com a decadência de valores e instituições caras à sociedade ocidental, como a masculinidade, a propriedade, o Estado e mesmo as relações amorosas.

Blutch não é um autor óbvio e didático e sua narrativa não traz nenhuma mensagem edificante ou alentadora. Ao contrário, sua exposição da natureza humana chega a soar cruel, pois é colocada de forma explícita, sem filtros. Neste cenário, o autor coloca patrícios romanos fazendo piada de pessoas famintas que comem as próprias bochechas e mesmo os filhos para não morrer. Porém, não é difícil fazer contrapontos com a nossa sociedade contemporânea, igualmente mergulhada em excessos, traições e cuja loucura também parece ser a saída para lidar com a decadência dos nossos valores comuns.

Além disso, os personagens da HQ parecem viver no limite, sempre levando os sentimentos ao extremo, como se todos os atos fossem válidos para se atingir o estado sublime da existência, do amor. Porém, como o leitor perceberá, Públio será frustrado ao longo da jornada com a impossibilidade de atingir seus objetivos, primeiro porque esse amor idealizado é nada mais que uma obsessão febril e, depois porque o mundo em que acredita fazer parte está desmoronando ao seu redor. Blutch ilustra esses momentos ao mostrar a chegada do protagonista a uma cidade em chamas e aos confrontos com piratas, feiticeiros e vigaristas. Talvez o único personagem lúcido na história seja o jovem amante de Públio, que, após ser trocado em uma barganha pela mulher congelada, afirma com pesar: “a nostalgia da pureza e o fantasma do amor perfeito são desesperos da embriaguez”.

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A arte de Blutch é igualmente brutal. Seu traço é duro, porém fluido, o que traz uma expressividade que serve para traduzir o suplício psicológico de seus personagens, sempre no extremo de suas sanidades. O domínio de Blutch para as possibilidades narrativas do quadrinho é também impressionante. Cada requadro, além de servir como elemento de justaposição que dá sentido à história é também, isoladamente, um espaço de expressão artística único, como uma força isolada.

Blutch também é mestre em jogar com densidade e minimalismo. Em alguns momentos temos um cenário incrivelmente detalhado, com um excesso de informação dentro de uma atmosfera sombria onde predomina o preto e, em outros, apenas os personagens atuando em um fundo branco ou com pouquíssimos detalhes, quase sempre tornando ainda mais explícito o destino insólito de Públio Cimbro.

Blutch situou Péplum dentro de uma narrativa clássica e épica, mas traiu todas as suas referências ao subverter as estruturas do gênero. É aventura, mas também drama, humor, paródia, terror. Tudo parece soar excessivo nesse gibi, que, por sua ambição narrativa acabou tornando-se um marco nos quadrinhos franceses – e em um escopo maior, da potência criativa que as HQs ainda são capazes de assumir quando decidem se desamarrar de qualquer expectativa pensada para o meio.

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