Crítica-HQ: encontra beleza e vida sob escombros do desastre nuclear
8.5

PRIMAVERA EM TCHERNÓBIL

[168 páginas, R$ 79,90 / 2020]
Tradução de Fernando Paz

Certamente as primeiras imagens que nos veem à mente quando pensamos em Tchernóbil não são bosques em tons de azul e verde e lagos de águas calmas. Muito menos uma comunidade de pessoas – jovens e idosos – compartilhando alguns momentos felizes, apesar de todas as provações que o lugar impõe. Esse encontro inusitado com uma inesperada beleza perturbou o quadrinista Emmanuel Lepage, que esperava encontrar na cidade ucraniana o mesmo imaginário de morte e desolação que nos acostumamos a ver pela mídia. Onde estão os animais mutantes, a terra estéril? O conhecido cenário de filme de terror?

Esta quebra de expectativa é a maior riqueza de Primavera em Tchernóbil, obra que chega ao Brasil pelo selo Geektopia, do grupo Novo Século. Envolvido em uma residência artística que contou com a participação de artistas ativistas pelo fim da exploração nuclear, o autor teve como proposta contar a história dos sobreviventes da tragédia, que ainda hoje vivem em terras contaminadas pela radiação. O resultado é um quadrinho que mescla um tom documental com uma reflexão sobre aspectos da vida, como resiliência e morte.

Resumo rápido sobre o famoso acidente: em 26 de abril de 1986, o núcleo de um dos reatores da usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia (então parte da União Soviética) derreteu, o que deu origem ao maior desastre nuclear da história. Uma nuvem carregada de radiação viajou por milhares de quilômetros contaminando mais de cinco milhões de pessoas.

Lepage chega com toda essa carga conhecida de lugares-comuns sobre Tchernóbil e isso pode ser percebido pela paleta sombria escolhida para ilustrar seus desenhos em aquarela. À medida que vai percebendo um cotidiano diferente daquele lugar inóspito e abandonado que temos em mente, sua escolha de cores vai se ampliando, indo para tons cada vez mais claros e alegres.

É interessante o modo como o autor traz os personagens para a sua narrativa, dando-lhes espaço, de maneira lenta, tentando compreendê-los, sem fazer pré-julgamentos. É o caso de Vassia, um liquidador, nome dado aos primeiros funcionários encarregados de apagar o incêndio no reator usando as próprias mãos para jogar grafite na garganta aberta do prédio em chamas. Conhecemos também Viktor, um saqueador que vive de recuperar material da zona de exclusão, onde é proibido entrar por conta dos riscos de contaminação. Já Ludmilla, sua mulher, conserva uma tenacidade e vive uma vida modesta, mas tranquila. Há muitas cenas, como jantares e festas com música, com os habitantes de Volodarka, vilarejo localizado nos arredores do acidente e que conserva uma comunidade bastante diversa, com crianças e jovens.

Tudo isso vai de encontro às narrativas sobre Tchernóbil, muito focadas na catástrofe ou no aspecto assustador da cidade fantasma de Prípriat, que foi evacuada dias depois do acidente. O autor não abre mão de dar ao leitor esse lado mais conhecido e traz imagens impressionantes de desolação dos arredores do reator, além de muitas informações históricas e contexto da União Soviética pós-Glasnot, a política de transparência que antecedeu o fim do bloco soviético. Mas tudo é acompanhado por uma reflexão crítica não apenas sobre o acidente, mas também sobre os perigos da energia nuclear. Ele não se furta nem mesmo de comentários sobre a França, seu país natal, hoje uma das potências que mais faz uso desse tipo de energia.

Primavera em Tchernóbil acaba se tornando um trabalho de tom muito intimista e ajuda a colocar o leitor em uma posição de proximidade, e não de distanciamento, com relação ao acidente e seus sobreviventes. A tragédia, afinal, coloca o ser humano em contato com seu próprio fim. O testemunho de Lepage é poderoso sobre como a humanidade, assim como a natureza, também encontra formas de sobrepujar o desastre.

Em tempo: Primavera em Tchernóbil dialoga bastante com Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, e que dá voz a sobreviventes para narrar o acidente nuclear. A obra acabou dando origem à premiada série Chernobil, da HBO.

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