Crítica-HQ: e o horror da era da pós-verdade
8.5

SABRINA

[Veneta, 208 páginas, R$ 119,90 / 2020]
Tradução de Érico Assis

Quando foi lançada nos EUA em 2018, Sabrina teve como principal chamariz o fato de ser uma narrativa que tinha como pano de fundo os danos causados pelas fake news em nossa sociedade. A obra do norte-americano Nick Drnaso ganha ainda mais relevância ao fazer sua estreia no Brasil em pleno 2020, quando já ficou mais do que evidente a erosão que a era da pós-verdade traz à democracia e à vida cotidiana.

Primeira HQ a concorrer ao prestigiado prêmio literário Man Booker Prize, Sabrina narra o desaparecimento da jovem que dá nome ao livro e as repercussões desse evento na vida das pessoas. Descobrimos logo nos primeiros momentos da leitura que ela foi assassinada após sair para uma volta de bicicleta. Seu namorado, Teddy, acaba sofrendo um colapso nervoso e decide se mudar para a casa de um antigo amigo, Calvin, um oficial das forças armadas americanas cuja função é ficar em frente a um computador cuidando da segurança de rede. A trama mostra ainda a história da irmã Sandra, que reluta em aceitar a morte.

Mas é em seu pano de fundo que Sabrina se torna brilhante (e assustadora). A morte da protagonista se torna o mote para diversas fake news e teorias conspiratórias, que acabam perturbando a vida dos personagens diretamente ligados ao acontecido. Mas a disseminação desse tipo de conteúdo também cria um clima de terror social, que leva o público a uma espiral de confusão e angústias: o que é real e o que é verdadeiro em um cenário em que fatos são relativos?

O trabalho de Drnaso se destaca por ter o discernimento de colocar a pós-verdade como o verdadeiro terror do mundo atual. Ler Sabrina em um Brasil isolado, com uma política indiferente à realidade e assombrado por mais de 120 mil mortos por Covid-19 é um tanto desesperador. Mas desperta no leitor a lucidez necessária de reconhecer a crise de sentido em que estamos metidos.

Quando Sabrina saiu nos EUA em 2018, o termo pós-verdade ainda nem era tão difundido academicamente – hoje já é discutido em cursos de comunicação, sobretudo por conta do trabalho de Ralph Keyes – mas já se tinha a noção de que era algo bem mais danoso do que o simples ato de circular boatos.

Além da divulgação de notícias falsas, o que se tem é um descrédito pela própria noção de verdade, de fatos. Um sistemático desdém pelo jornalismo, pela ciência, o que leva pessoas aparentemente sãs a acreditarem em milagres da cloroquina e tratamento de ozônio no ânus. Há um evidente poder político que emerge dessa pós-verdade, mas que Drnaso não tem a intenção de se aprofundar tanto. Além disso, a realidade hoje é até mais assustadora, com o uso sistemático da desinformação como estratégia de controle, tanto no Brasil quanto fora. O que Drnaso traz é uma crescente e nauseante atmosfera de tensão, que é também próprio desses tempos, além de focar nos problemas que a pós-verdade traz em um nível mais pessoal, das pessoas comuns.

A arte de Drnaso é sóbria, mas de um jeito bastante exagerado, com uma paleta de cores pálidas e uma quase ausência de sombras. Seus personagens são desenhados de uma maneira bem simples, com pontinhos no lugar dos olhos, quase nenhum detalhe nas expressões. Em alguns momentos o estilo do autor acaba alienando um pouco a leitura, mas passado um primeiro impacto a leitura flui. O domínio da linguagem dos quadrinhos, sobretudo no manejo do tempo, vai construindo o terreno para o despertar de muitas sensações: medo, ansiedade, tensão.

É um livro bastante imersivo, de uma leitura difícil de abandonar. Mas não é um livro fácil: lê-lo em 2020 em meio a uma relativização da verdade no Brasil é algo perturbador. Mas, certamente necessário.

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