Crítica: HQ sobre David Bowie investiga a formação do mito do rock
8.5

O maior escopo de relevância da biografia em quadrinhos de David Bowie, que acaba de sair no Brasil pela Panini Comics, é dar a ela a mesma dimensão imaginada por David Bowie em toda a sua carreira: uma fuga da realidade e uma ampliação febril de desejos e sonhos. Ao fugir do realismo e didatismo bastante característico de relatos biográficos, a HQ Bowie – Stardust, Rayguns & Moonage Daydreams se aproxima de maneira coerente ao personagem retratado em uma proposta cinematográfica e dinâmica explorando tanto a energia da música e do período retratado como as possibilidades da linguagem em quadrinhos.

Mas é bom fazer um adendo importante antes de tudo: trata-se, sobretudo, de uma biografia de Ziggy Stardust, personagem criado por David Bowie e que foi personificado durante uma parte importante de sua carreira. Com 27 álbuns lançados em mais de 50 anos de estrada, o astro encarnou diferentes personas, o que lhe rendeu o título de camaleão do rock. O livro inicia nos primeiros passos do músico, quando ainda se chamava David Jones, até o fim da fase Ziggy, em 1974.

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Com um relativo sucesso e uma carreira em ascenção depois do álbum Hunky Dory, Bowie decidiu arriscar no som e no visual ao ampliar a estética glam para limites ainda não alcançados ao imaginar um personagem fictício: Ziggy Stardust era um alienígena que veio à Terra avisar de sua destruição iminente. Este ser de outro mundo tinha como asseclas as Aranhas de Marte (Spiders From Mars, nome da banda que acompanhou o músico e que era formada por Mick Ronson nas guitarras, Trevor Bolder no baixo e Mick Woodmansey na bateria).

A criação de Bowie teve uma ressonância enorme na cultura pop e causou controvérsia à época por sua abordagem ousada em relação à sexualidade, a androgenia, mas foi também além pelo olhar vanguardista que dava ao rock por incorporar elementos de moda, cinema e teatro. A gênese do personagem Ziggy é bastante trabalhada no livro, sobretudo a influência dos roqueiros norte-americanos como Iggy Pop e a banda Velvet Underground. Há também bastante contextualização para o pioneirismo de Bowie, como o fato de existir uma cena glam estabelecida na Inglaterra desde o início dos anos 1970. Mas, com certeza, ninguém foi tão sofisticado na abordagem quanto ele. Em certo ponto, já não mais existia um limite entre astro e personagem, seja em cima ou fora dos palcos.

A decisão de encerrar Ziggy Stardust com uma morte “ao vivo” no palco, no auge do sucesso, também foi uma decisão que mostrava a capacidade de Bowie em antever tendências e movimentações no cenário pop. Após o disco Diamond Dogs, tido como uma transição, o músico se dedicou a um outro personagem, que ia na direção contrária à extravagância glam setentista, o fleumático Thin White Duck.

Os personagens criados por David Bowie foram parte importante de sua carreira e um dos aspectos que o tornaram tão fascinante. Essa construção minuciosa de uma persona artística para carregar conceitos artísticos seria mais tarde bastante explorada por nomes como Madonna, Lady Gaga, entre outros. Michael Allred consegue trazer todas as referências de Ziggy para esta obra, que se dedica mais à gênese do mito do que a vida de Bowie em si, ainda que aspectos de sua vida cotidiana, como a sua relação com Angie Bowie e seu filho Zowie (mais tarde Duncan Jones) estejam presentes.

A arte de Michel Allred tem um estilo limpo e claro que combinou com a estética glam da fase Ziggy. O autor já tinha explorado essa estética roqueira em Red Rocket 7 – A Saga do Rock, que saiu pela Devir em 2007. Mas o que mais chamou atenção do trabalho de Allred nesta obra foi como ele conseguiu capturar a energia daquele período com uma narrativa imersiva. Explorando uma aproximação com a colagem, a narrativa misturou a dinâmica dos requadros com recortes de revistas e capas de discos, em painéis que abusavam da abstração em algumas ocasiões. Tudo isso embalado pelas cores vibrantes, porém cheias de profundidade de Laura Allred. O roteiro de Allred coassinado com Steve Horton conseguiu ser didático e obcecado com detalhes da carreira de Bowie no período sem soar cansativo. O trabalho tem um tom de documentário, portanto não foi possível desenvolver em detalhes da história do astro além da construção de sua persona artística. Mas, como fica claro logo nas primeiras páginas, esta nunca foi a intenção. A investigação sobre identidade, arte e espírito de uma época em uma visão artística que une o estilo de Allred e Bowie é a grande força desta HQ.

BOWIE – STARDUST, RAYGUNS & MOONAGE DAYDREAMS
De Michael Allred, Steve Horton e Laura Allred
[Panini Comics, 160 páginas, R$ 90 / 2020]
Tradução de Fabiano Denardin e Érico Assis (extras)

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