Crítica: Lido Pimienta discute o imaginário latino com amor e profundidade
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O terceiro disco da artista colombiana baseada em Toronto Lido Pimienta soa como uma empolgante estreia. Quem já acompanha esta artista experimental do pop vai perceber que ela conseguiu neste álbum unir sua visão original sobre o imaginário latinoamericano com um som moderno e produção sofisticada, uma das obras mais complexas do pop este ano.

A complexidade maior é o fato de Pimienta olhar para sua ancestralidade com um misto de reverência e crítica. Mais do que utilizar da cultura de seu país como uma alegoria artística, ela decide discutir questões políticas importantes que muitas vezes passam despercebidos quando nos deparamos com obras inspiradas na cultura popular. Vejo muita similaridade no trabalho de Lido com Siba aqui em Pernambuco, cuja música chega carregada das vivências políticas e sociais inerentes ao maracatu rural da Zona da Mata.

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Miss Colombia fala muito aos migrantes latinos pelo mundo, como ela própria. Seu recado para o povo da diáspora é bem direto: discute a importância de nos apropriarmos das tradições culturais como forma de criar uma couraça. De como o orgulho latino é antes uma arma, um porto seguro de referências contra discriminação, autossabotagem, inseguranças, o que potencializa a expressão de que é “tradição é proteção”. Essa proposta permeia todo o projeto, em todas as faixas, passando pela capa do álbum e dos clipes.

Há também um debate, digamos, interno, onde Lido discute sobre questões ainda pouco discutidas entre os povos latino-americanos, caso do preconceito e violência contra os indígenas dentro do continente e, mais especificamente em seu país natal, Colômbia . Em “Eso Que Tu Haces” foi inspirada em comentários maldosos e racistas que muitos colombianos e latinos proferiram durante o infame Miss Universo de 2015. A Miss Colômbia, Ariadna Gutierréz, foi anunciada como vencedora, mas segundos depois o apresentador Steve Harvey admitiu o erro e confirmou que a vencedora, de fato, tinha sido filipina Pia Wurtzbach. “Os comentários no Facebook feito pelos migrantes colombianos que eu seguia foram horríveis”, disse Lido em entrevista. “Por semanas, meses, as pessoas ficaram amargas quanto a isso”.

A necessidade de uma abordagem mais complexa da latinidade levou Lido a uma proposta mais contemporânea da sonoridade. A primeira parte do disco aponta diversas direções no pop para propor encontros com reggae, dream pop, eletrônico, mas também cumbia e porro. “Nada”, com participação de Li Saumet do Bomba Estéreo é uma faixa etérea que combina a atmosfera de sonho com uma batida cadenciada e dançante. Outros momentos são a já citada “Eso Que Tu Haces” e a clubber “No Pude”.

A segunda metade do disco vai mais fundo nas investigações sobre tradições culturais e traz um interlúdio de Rafael Cassiani, fundador do Sexteto Tabalá de San Basilio de Palenque, grupo tradicional colombiano.

Na sonoridade, o novo disco de Lido Pimienta é um trabalho com muitas camadas e onde cada música é bem distinta, buscando cumprir um lugar destacado dentro da proposta do rabalho conceitual. Na estética e no discurso, o tradicional e moderno são unidos com inteligência e profundidade, amplificando as vozes latinas e trazendo a dimensão complexa que merecem.

LIDO PIMIENTA
Miss Colombia
[Anti, 2020]

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