Foto: Divulgação.

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Livro imagina pesadelo nazista no Brasil

Na narrativa assustadora de A Segunda Pátria, novo livro de , o Brasil está alinhado ao Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. O flerte que Getúlio Vargas manteve com a Alemanha nazista no mundo real foi levado às últimas consequências nesse romance assustador que altera a história para revelar o sentimento segregador da sociedade brasileira desde a época da escravidão.

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A Segunda Pátria, lançado pela Intrínseca, mostra duas narrativas passadas no Sul do País, onde o estados abriram espaço para a atuação do partido nazista. A história começa em Blumenau (SC) e vai por Porto Alegre e pelo Rio de Janeiro.

Conhecemos a vida de Adolpho Ventura, um engenheiro negro que perde a liberdade, a casa, o emprego e todos os seus direitos depois da ascensão nazista. Enquanto isso, Hertha, uma garota branca e bela, descendente de alemães, que inicialmente simpática ao nazismo, passa a rever seus conceitos por conta de alguns episódios pessoais bem traumáticos.

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Apesar de aparentemente inverossímil, esse exercício de liberdade criativa de Sanches Neto serve para criar uma trama de terror que poderia ter se instaurado no Brasil. Mas o que assusta mesmo é encontrar na trama episódios que poderiam muito bem se desenrolar nos dias atuais. O estado de segregação vivido pelos negros ainda é um problema da nossa sociedade.

Além disso, o livro joga luz sobre um tópico da história muito pouco discutido – talvez até um tabu – que foi o nazismo no Brasil. Na Segunda Guerra Mundial, forças simpáticas à Hitler estiveram em movimento por aqui, sobretudo no Sul do País. Além disso, o sentimento neonazista persiste em manifestações pontuais e extremamente perigosas.

Do ponto de vista narrativo, A Segunda Pátria é construído como um ritmo de filme de aventura. Cada capítulo é curtíssimo, o que dá agilidade à leitura e ajuda a criar um panorama de tensão e estresse. E é nesse contexto que passamos a nos conectar aos personagens. Construídos como pessoas agarradas com suas convicções pessoais, Hertha e Adolpho precisaram se transformar através de sacrifícios pessoais para sobreviver.

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O autor também soube explorar os sofrimentos humanos através de momentos bem doloridos, perturbadores. Como na ocasião em que um preso homossexual é estuprado por cães. Ou quando os pais idosos do protagonista são despachados em caixas de madeira junto com um bebezinho para fugirem do nazismo.

Com A Segunda Pátria, Miguel Sanches Neto se firma como um dos melhores contadores de história da nova ficção brasileira. Com um tom assustador, ele soube simular a crueldade de um sistema que ainda espreita a humanidade. Como ele diz no prefácio da obra, ainda bem que tudo não passou de um pesadelo.

segundaA SEGUNDA PÁTRIA
De Miguel dos Santos Neto
[Intríseca, 320 págs, R$ 34,90 (impresso) e R$ 14,90 (e-book) / 2015]

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