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escreve sobre a difícil experiência do luto
“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”

Por Renata Arruda

O primeiro contato que tive com a morte foi quando Ayrton Senna sofreu o acidente fatal em 1994. Eu tinha quase nove anos e mantinha o costume de sempre assistir com meu pai as corridas nas manhãs de domingo. Esse ritual tinha chegado ao fim. Chorei copiosamente, menos por Senna e mais por saber que não mais veria suas corridas na companhia do meu pai – esse sentimento era desesperador. Foi meu primeiro e distante contato com a irreversibilidade da morte.

Dois anos depois a morte se aproximou: meu avô João falecera devido a complicações da diabetes, que o levaram a passar os últimos dias de sua vida num hospital. Nós tínhamos ido visitá-lo e ele apresentara alguma melhora. Quando, durante a noite, meus pais saíram apressados dizendo que que meu avô “estava muito mal”, eu soube na hora. Cheguei a ter um sonho, ou alucinação, de que ele vinha se despedir de mim. No dia do enterro, fiquei alheia na casa da minha avó com meu primo menor. A morte do meu avô passou por mim como um mal previamente esperado; me pouparam de vê-lo sofrendo e de ir a seu enterro, mas me prepararam para o que estava por vir. Ele já era um senhor idoso, afinal.

Mais dois anos e dessa vez um colega da escola morreu em um acidente violento na Av. Brasil. Eu não conseguia acreditar quando soube da notícia. Na minha cabeça achava que de alguma maneira ele iria se recuperar, e só entendi de fato quando por uma curiosidade mórbida fui ver o carro estraçalhado na garagem de onde ele morava. Tive medo de ver seu corpo durante o velório, mas assisti ao enterro chorando em desespero, me sentindo quase sufocada de impotência ao ver a terra sendo jogada por cima do caixão. Fiz o caminho de volta para a casa chorando com uma amiga durante todo o trajeto. Ninguém nos perguntou o que havia. Ele se chamava Leandro, tinha dezesseis anos e agora estava morto. O mundo continuava sua rotina imperturbavelmente. Era como vivenciar o absurdo.

Me deparei com várias outras mortes desde então, o que só aumentou meu medo (o que mais tarde se manifestou na forma de uma paralisante síndrome do pânico), e em cada uma delas sempre me pegava refletindo sobre os que ficam: como continuar? Até onde e até quando somos capazes de sofrer o luto pela perda de uma pessoa querida e da vida que tínhamos até então?

É sobre esta mesma reflexão sobre ser pego de surpresa e ter que continuar que Julian Barnes baseia o seu mais recente livro  (Rocco, 2014), escrito após a morte de sua esposa Pat Kavanagh em 2008, com quem fora casado durante trinta anos. Se passaram apenas trinta e sete dias desde que o tumor cerebral fora diagnosticado até a morte de Pat, e só quatro anos depois que Barnes finalmente conseguiu escrever sobre a raiva, a tristeza e o embotamento afetivo que seguiram o falecimento de sua mulher.

Dividido em três partes, o livro faz um paralelo entre balonismo e fotografia, amor e luto. Se a mistura parece estranha, a dica está logo na frase de abertura: “Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma”. É assim na história real do fotógrafo Félix Tournachon, ou Félix Nadar, construtor de um balão de enormes proporções apelidado de “O Gigante” e pioneiro ao unir balonismo e fotografia que, apesar de infiel e boêmio, permaneceu ao lado de sua doente esposa Ernestine até seus últimos momentos, vindo também a falecer não muito tempo depois; na imaginada história de amor não correspondido entre o aventureiro Fred Burnaby e a atriz Sarah Bernhardt e na do próprio Barnes ao conhecer sua mulher. O que todos os personagens têm em comum é o desejo de “chegar tão longe quanto os deuses”, seja voando literalmente em um balão, seja através da arte ou da religião, seja através do amor. “Mas, quando voamos, podemos cair”, observa o autor mais adiante.

E é a queda que interessa Barnes. Na autobiográfica última parte do livro, intitulada A perda da profundidade, Barnes reflete sobre a solidão de se vivenciar o luto. Confuso com a perda de interesse nas atividades cotidianas e na vida em geral, o autor experimenta a mesma sensação de absurdo ao observar um ônibus cheio de pessoas alheias ao seu sofrimento e à morte de sua mulher. Passa a analisar o comportamento dos amigos, que chega em dividir entre os “que passaram” e os que “não passaram”, rejeitando as tentativas de consolo por não darem conta da profundidade de sua dor e se ressentindo com o que chama de Os Silenciosos, aqueles que por constrangimento ou falta de jeito deixam de oferecer a compaixão que os enlutados exigem. Uma das passagens mais tocantes é quando Barnes admite ter pensado várias vezes em se suicidar dentro de uma banheira mas um único argumento o convenceu a não fazer isso: enquanto estivesse vivo, sua esposa permaneceria também viva, internalizada em suas lembranças e pensamentos mais do que no de qualquer outra pessoa. Uma vez que morresse, estaria ela morrendo duas vezes. Por amor à memória de Pat, Barnes decidiu permanecer vivo enquanto for possível viver sem sua presença.

Com a imagem do balão representando a ousadia humana em desafiar as leis da natureza – ousadia esta capaz de nos levar a alturas inimagináveis como a Lua -, assim como também a capacidade para nos arriscarmos em perigosas travessias, e a fotografia ilustrando a ilusão de se poder registrar a realidade, funcionando como alusão à memória que um dia se torna tão envelhecida que é possível se ver apenas sombras de imagens perdidas, as três partes do livro são sutilmente costuradas em analogias à mobilidade e efemeridade da vida, que quando menos se espera nos tira a precisão, a altura e o foco. Nas palavras de Barnes, “tudo isso é apenas o universo fazendo o seu trabalho, e nós somos objeto desse trabalho”. Ainda que fiquemos marcados para sempre.

altosvoos

ALTOS VOOS E QUEDAS LIVRES
Julian Barnes
[Editora Rocco, 128 páginas, R$23,50/ 2014]
Tradução: Léa Viveiros de Castro
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Originalmente publicado no Brasil Post

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