Foto: Javi Martínez

Foto: Javi Martínez/Divulgação.

O CHARME DO INDEFINÍVEL
Argentino desafia gêneros em mais uma obra tão estranha quanto surreal

Por Renata Arruda

“As tramas na literatura não precisam funcionar como na realidade. Prefiro as topologias irracionais”, declarou o argentino César Aira quando esteve no Brasil em 2013 participando da Bienal do Livro com a obra Como Me Tornei Freira, título que traz duas de suas novelas curtas: a primeira, homônima, e uma segunda chamada “A Costureira e o Vento”.

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Bebendo de fontes surrealistas, Aira constrói tramas que exigem atenção do leitor, que permanece sempre na expectativa sobre o que vai acontecer em seguida – sem que com isso precise se esgueirar em artifícios fáceis como ganchos e suspenses para prender o leitor. Nada disso. De tão enigmático e complexo, ficamos presos à leitura esperando decifrar que tipo de história estamos lendo e onde Aira pretende nos levar. Ainda que escreva de maneira de fácil compreensão, é necessário que o leitor esteja disposto a embarcar na abstração e quase improviso das linhas do autor para não se perder.

Na novela que intitula o livro, César Aira é o narrador-personagem de seis anos que se refere a si mesmo sempre no feminino – ainda que fique claro que exteriormente se trate de um menino. Ultrapassando a questão de gênero, o autor nunca apresenta justificativas para ser desse modo e o leitor aceita com naturalidade e talvez um pouco de curiosidade.

A história começa com Aira sendo levado a uma sorveteria por seu pai, para experimentar um sorvete pela primeira vez. Ao se recusar a tomá-lo (e ser tratado com insensibilidade por isso), descobre-se que o sorvete estava estragado ou, pior, envenenado. A narrativa segue um rumo cruel sem tempo para sentimentalismos, com um grupo de personagens que mais parece saído de um show de horrores. A ausência do pai, que leva à pobreza extrema, sua sobrevivência ao veneno, o analfabetismo e descoberta da escrita através de palavrões, as amizades estranhas e a vingança cruel. Elementos que em mãos menos habilidosas poderiam recair no rocambolesco, mas que aqui têm o sabor amargo de quase um conto de terror.

Já em A Costureira e o Vento, Aira faz uso da metalinguagem para nos transportar para uma fábula muito mais abstrata e surreal que “Como Me Tornei Freira”. Encontramos o autor sentado em um café de Paris, desabafando sobre a tentativa de escrever uma história da qual só lhe ocorreu o título. Ele discorre sobre o lugar onde está, o ato de viajar e a falta de aventuras de sua vida, no que parece um convencional relato autobiográfico; o narrador na verdade está construindo a história da costureira Delia, que vai até a Patagônia procurar pelo filho sumido e após algumas desventuras acaba conhecendo o vento Ventarrón, que se apaixona por ela. Capaz de trazer qualquer coisa que Delia queira, o vento só não pode impedir o Monstro de vir atrás dela e cumprir seu destino – e a história termina em seu clímax, ficando para sempre suspensa no ar. Aqui, ao mesclar a fábula irreal com seu ofício de escritor, Aira muitas vezes segue em fluxo de consciência que remete à Clarice Lispector sem jamais se parecer de fato com ela.

Com mais de 60 livros lançados, todos com curtas narrativas, este Como Me Tornei Freira é um dos pouquíssimos livros do argentino lançados no Brasil e vem pela editora Rocco como integrante da coleção , organizada por com um prefácio de Sérgio Sant’anna que pouco acrescenta à obra. Em defesa de Sant’anna podemos dizer que a tarefa não deve ter sido fácil: dono de uma voz própria original, César Aira não facilita o trabalho de analisá-lo e faz da sua literatura uma obra de arte pós-moderna indefinível e indecifrável.

9788581222691.340x340-75COMO ME TORNEI FREIRA
César Aira
[Editora Rocco, 256 páginas, R$ 36,50 / 2013]
Tradução: Angélica Freitas
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