Crítica: Milo Manara aborda com reverência e melancolia últimos momentos de Caravaggio
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Caravaggio (1571-1610) foi um dos maiores pintores da história e também uma das maiores estrelas de seu tempo, um homem que viveu intensamente e que conservou sua alma rebelde e atormentada até seus últimos dias. Sua vida ganha contornos mais nítidos a partir do olhar de outro mestre italiano, mas dos quadrinhos, Milo Manara, no segundo volume de sua biografia que acaba de sair pela editora Veneta.

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Caravaggio 2 – O Perdão foca nos momentos finais do autor e sua constante luta contra inimigos poderosos. Manara trata o personagem com um misto de reverência e curiosidade ao tentar compreender um dos artistas mais enigmáticos da história da arte. Até hoje, a vida de Caravaggio possui pontos de discordância entre diferentes estudiosos – o próprio Manara inclui uma bibliografia ao final da obra indicando os autores em que se baseou para criar sua narrativa – mas o que importa mesmo é analisar quais aspectos a HQ se ancorou para dar vida ao pintor.

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Manara apresenta Caravaggio como um rebelde, um herói romântico acossado pelo sistema e cujo talento era grandioso demais para passar incólume (para bem e para o mal). Sua fama atrai inimigos de todos os lados, o que faz com que ele esteja em constante estado de tensão e fuga. Imerso dentro do showbiz da época, o pintor também fez parte de uma elite intelectual e econômica e contou com ajuda de mecenas e políticos, o que amplificou sua arte. Nos últimos anos de sua vida, sua produção alcançou enorme status, com encomendas riquíssimas de clientes renomados, sobretudo da alta hierarquia do clero.

A narrativa de Manara mostra, no entanto, que sua capacidade inata de entrar em brigas e disputas causou sua ruína. Com sua inseparável espada, ele participou de diversos conflitos, foi preso, se associou a um grupo de ciganos, artistas de rua, e até conseguiu ser condecorado cavaleiro da ordem de Malta. Em meio a toda essa jornada, Caravaggio se mostra transtornado com a possibilidade de um perdão papal (daí o nome da HQ), o que o permitira retornar à Roma e à sociedade a qual está intrinsecamente ligado. A noção de desterro, abandono, é talvez o maior inimigo do autor italiano.

Neste sentido, o volume 2 é diametralmente oposto ao volume 1, lançado em 2015. Naquela edição, Manara explora a relação da cidade de Roma com Caravaggio e a influência que o ambiente efusivo, culturalmente rico, cercado de marginais, opulento e decadente na mesma medida, causava no autor. Aqui, Roma é apenas uma lembrança cada vez mais efêmera e cuja distância representa o inevitável fim do pintor. A ideia de que sua pintura poderia comprar o seu perdão o acompanharia até o fim da vida.

Assim como no primeiro volume, Manara se aprofunda no debate sobre as técnicas pouco ortodoxas de pintura de Caravaggio, como o fato de usar pessoas comuns (prostitutas, artistas de rua) como modelos para representações santas. Isso trouxe uma humanização de pinturas que exaltavam imagens e eventos sagrados ao catolicismo. O quadrinho volta a incluir imagens reais das telas e trazem ainda indicações de seu paradeiro, além de outras curiosidades.

Manara explora ainda mais seu estilo detalhista e realista, o que dá uma sensação de imersão dentro da ambientação da Itália do período. Conhecido por ser um dos maiores artistas do quadrinho erótico, Manara aqui se apresenta antes como um esteta, um autor interessado em elevar a importância de um colega distante. No entanto, ainda há na sua representação da figura feminina um olhar viciado, impregnado de uma hiperssexualização. Isso fica evidente na personagem Ipazia, que aparece quase sempre em poses voluptuosas e provocantes. Ainda que sua importância na trama seja crucial, sua personalidade é pouco desenvolvida, o que a torna uma heroína genérica dentro da conhecida obra de Manara.

A estrutura narrativa também é bastante comum e não traz muita complexidade no modo como apresenta os conflitos e resoluções na trama. O maior destaque aqui é mesmo a ambientação e o desenho incrível de Manara – talvez um dos pontos altos de sua carreira. O clima que ele consegue para a história serve bem à proposta melancólica do roteiro na jornada final do mestre italiano da pintura.

CARAVAGGIO VOL 2 – O PERDÃO
De Milo Manara
[Veneta, 64 páginas, R$ 94,9 / 2020]
Tradução de Michelle Vartuli

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