Crítica: aposta na nostalgia da pista de dança em tempos de reclusão
7.5

O DJ e produtor norte-americano Moby retorna em seu 17º álbum com uma pesada carga de nostalgia da dance music dos anos 1990, com forte apelo no house, rave e no post-punk que o tornou famoso.

Famoso por discos como Go (1991), hino rave do início dos anos 90 e amálgamas de eletrônica e pop como Play (1999) e 18 (2002), Moby é um dos mais famosos artistas de música eletrônica do mundo, com milhões de discos vendidos. Nos últimos anos, no entanto, ele ganhou manchetes por declarações constrangedoras relacionadas ao seu livro de memórias (como quando afirmou ter namorado a atriz Natalie Portman quando ela tinha 20 anos e ele 33, o que ela negou) e por seu ativismo vegano (ele tem tatuado “vegano por toda a vida” no pescoço).

Suas posições políticas estão bem pontuadas no disco, mas soam superficiais tanto na abordagem quanto na forma – não há uma reflexão e as frases soltas soam como bravatas vazias imersas em batidas sincopadas, caso de “Power Is Taken”, com vocais de DH Peligro, baterista do Dead Kennedys. “Rise Up In Love”, na mesma pegada, também não soa convincente. Falta visão e uma maior criatividade para propor uma discussão aberta através da música.

O ativismo do músico está presente em sua carreira desde o início e ganha contornos mais assertivos neste trabalho. Todos os rendimentos de All Visible Objects serão doados para as várias instituições de caridade que ele apoia, incluindo Brighter Green, Mercy For Animals, Rainforest Action Network e Extinction Rebellion.

O novo disco parece refletir a instabilidade que vive o mundo imerso em uma pandemia histórica: há uma exteriorização de sentimentos na conhecida catarse proporcionada pela pista de dança, dançando e suando para expurgar os problemas e inseguranças. Mas não há mais pista de dança alguma e a audição do álbum nos joga em um outro estado de ânimo, da introspecção e incerteza, como na linda “Separation”, que parece ressoar esse período de isolamento.

A impressão que dá é que Moby não está muito afim de revitalizar seu repertório nem mesmo tentar algo novo, mas apenas propor um reencontro com momentos diferentes de sua carreira. E, nesse sentido, o álbum deve agradar aos fãs. Há, ao menos, um vigor nessas novas canções, mesmo que elas soem pálidas em relação ao que o músico já construiu.

MOBY
All Visible Objects
[Mute, 2020]

Leia mais críticas de discos

Leia Mais
Laure Briard segue na viagem musical brasileira com versão de “Grandeza”, do paulistano Sessa