Crítica: “Monstros” é uma experiência ímpar nos quadrinhos

Afastado há anos do mercado dos quadrinhos, Barry Windsor-Smith reaparece com um quadrinho incontornável que alinha virtuosismo na arte a uma trama de tragédia

Crítica: “Monstros” é uma experiência ímpar nos quadrinhos

Afastado há anos do mercado dos quadrinhos, Barry Windsor-Smith reaparece com um quadrinho incontornável que alinha virtuosismo na arte a uma trama de tragédia

Crítica: “Monstros” é uma experiência ímpar nos quadrinhos
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Monstros
Barry Windsor-Smith
Todavia, 368 páginas, 2022, R$ 149,90
Tradução de Érico Assis

Cada vez mais tenho a certeza de que as melhores HQs norte-americanas são aquelas cujos autores saem da zona de conforto e dos limites formais das grandes corporações como Marvel e DC Comics e, mesmo estando ligados a essas editoras, por alguma razão, resolvem realizar um trabalho livre e independente. Esse é o caso da espetacular Monstros, de Barry Windsor-Smith, lançada nos Estados Unidos pela Fantagraphics e no Brasil, no último mês de setembro, pela Todavia, com tradução de Érico Assis, e vencedora do Prêmio Eisner de 2022 de Melhor Graphic Novel Inédita, Melhor Roteirista e Melhor Letramento. Quem se aventurar a mergulhar nas 368 páginas dessa história que trafega entre o macabro e o sublime vai se deparar com uma obra-prima exuberante e inesquecível.

A realização de Monstros tem uma trama real quase tão tortuosa quanto a ficção desenvolvida por Windsor-Smith. O enredo está repleto de referências ao universo dos quadrinhos e reflete a forma como seu autor encara o mundo das HQs. Original e inovador, ele sempre introduziu nos seus trabalhos temas e soluções gráficas que buscavam de alguma forma resistir às imposições do mercado.  O artista, de traço inconfundível, foi um dos primeiros desenhistas britânicos a ir para os Estados Unidos nos anos 1960. Ele foi pioneiro de um estilo seguido por outros conterrâneos seus como Neil Gaiman (Sandman) e Alan Moore (Watchmen) com desenhos arrojados e narrativas densas e sofisticadas. Windsor-Smith ficou conhecido pela versão em quadrinhos de Conan e por seus trabalhos com a série X-Men, e os super-heróis Wolverine (na inesquecível história Arma X) e Demolidor

Windsor-Smith, contudo, sempre viveu em conflito com as grandes editoras americanas pela forma como elas lidam com os seus criadores, com contratos que transferem o direito das obras produzidas totalmente para elas. Foi essa convicção que o afastou da Marvel e DC Comics e o levou a um período relativamente tranquilo na editora Dark Horse, onde os direitos de criação ficavam com o autor e onde ele criou a série do gênero espada e magia Storyteller, nunca lançada no Brasil. Ao sair da Dark Horse no final dos anos 1990, no entanto, ele se afastou desse meio e passou a publicar apenas ilustrações, histórias curtas e algumas capas de revistas.

Windsor-Smith levou 35 anos para finalizar Monstros. (Divulgação).

Apesar da distância das editoras de renome, durante cerca de 30 anos, o artista continuou desenvolvendo uma HQ inspirada numa história por ele criada para o personagem Hulk, proposta à Marvel nos anos 1980, mas que não chegou a se concretizar. Processo lento e difícil, nas palavras do próprio Windsor-Smith, em Monstros ele pode desenvolver em plena liberdade seu estilo narrativo cujo resultado é uma história complexa sobre a vida de duas famílias americanas, ligadas mortalmente a um projeto nazista de experimentos genéticos, retomado secretamente pelo governo americano.  

O personagem central é Bobby Bailey, um jovem de 23 anos, marcado por uma infância dramática que, ao se alistar no exército em 1964, é recrutado para ser cobaia do projeto Prometheus. Ele acaba sendo transformado numa espécie de Frankenstein contemporâneo e pivô de uma série de acontecimentos trágicos.

Monstros é poderosa por alinhar uma trama de ação, com todos os elementos caros ao gênero, a uma jornada intimista dos personagens envolvidos no enredo, na qual traumas psicológicos, fenômenos metafísicos e uma radiografia das relações de violência e poder são esmiuçadas com precisão cirúrgica. O roteiro joga com tempos diferentes correndo em paralelo e tece, com habilidade, as conexões que, pouco a pouco, enredam o leitor na história levando-o a compartilhar tanto as pequenas alegrias, as dores ou a melancolia dos protagonistas vítimas dos militares inescrupulosos, quanto um profundo asco e repugnância desses algozes de farda e armas que não são privilégio de uma nação ou outra, e existem seja no passado ou no futuro.

Se a trama de Monstros é cativante, os desenhos são ainda mais sedutores. Windsor-Smith é um virtuoso do preto e branco e o traço hachurado por ele empregado, modelando forma e luz, compõe com exatidão as múltiplas sensações que vão se delineando nos espaços onde os fatos narrados se desenrolam. O mesmo pode ser dito para as expressões dos rostos de cada personagem que se moldam nos desenhos como se os quadros se movessem. Além disso, percebe-se que o artista não temeu recorrer a diferentes recursos gráficos no encadeamento narrativo, adequando-o à diegese da história.

Há, por exemplo, um longo trecho em feedback em que o fio condutor é o diário escrito pela mãe de Bailey. Em outros momentos há sequências sem nenhum texto em que o ritmo é dado unicamente pela dinâmica da disposição dos quadros. Então, se você ficou curioso, não hesite, Monstros é um épico que merece ser visto e aplaudido. 

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