Crítica: Novo de Fiona Apple, Fetch The Bolt Cutters, é como um expurgo de 2020
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Oito anos sem lançar nenhum trabalho inédito, Fiona Apple surpreendeu com seu novo trabalho, Fetch The Bolt Cutters, um disco feito praticamente todo de forma caseira e que traz na letra e na sonoridade uma crueza e rispidez que parece responder a todos os sentimentos que povoam esse ano de 2020: expectativas quebradas, angústia, sinceridade desmedida, raiva, mas também superação e força. É uma experiência visceral que faz deste álbum um dos melhores lançados neste ano justamente porque nenhum disco poderia traduzir esse tempo presente como este.

Lançado no pico da pandemia do novo coronavírus e com o mundo todo em quarentena, Fiona parece ter percebido que o momento de isolamento, com as pessoas tendo que lidar com emoções muitas vezes negligenciadas no meio da rotina, seria o clima ideal para este disco, que é uma confrontação contínua desde os primeiros acordes. O timing buscado para esse álbum é tanto que a artista decidiu antecipar o lançamento do obra, originalmente prevista para o segundo semestre.

A proposta do disco é o oposto do Future Nostalgia, de Dua Lipa, outro grande lançamento que chegou em meio à quarentena e que busca um escapismo para esses tempos de incerteza. Um convite a uma dança descompromissada e nostálgica na sala de estar. Fiona vai da direção contrária. Fetch The Bolt Cutters soa como aquela pessoa que interrompe um jantar desconfortável onde as pessoas retesam os sentimentos e falam com uma falsa cordialidade. Ela grita: “parem com essa baboseira”, praticamente virando a mesa. É uma espécie de terapia durante um isolamento, onde ninguém pode fugir de ouvir umas boas verdades. “Pode me chutar por baixo da mesa o quanto quiser / Eu não vou me calar”, canta ela, literalmente, na jazzística “Under The Table”.

O disco reafirma Fiona Apple como uma das vozes mais potentes do pop em um disco que prima por uma produção deliberadamente pensada para soar cru. Mas essa crueza não significa que falte sofisticação, ao contrário. Tudo é construído para dar conta do peso necessário às letras sobre amores acabados, relacionamentos abusivos e violência. Esse expurgo necessário aparece como catarse. Tanto que muitas das músicas vão ganhando cada mais força à medida em que os refrões são repetidos à exaustão, como em “Ladies” e “Relay”, música que traz uma levada percussiva toda desconstruída. A repetição soa como um mantra, como quando queremos dizer algo a nós mesmos, por mais duro que seja. “O mal é um esporte de revezamento / que aquele que se queima se vira para passar a tocha”, repete a cantora sobre esse ciclo de ódio e ressentimento a que somos submetidos.

A percussão aparece novamente com força em “I Want You To Love Me”, levada ao piano, uma música cheia de força, que fala da superação de um relacionamento abusivo. O mesmo tema tratado na poderosa “Newspaper”, com uma orquestra caseira que conta até mesmo com a participação dos cachorros de Fiona.

O conhecido feminismo de Fiona Apple aparece ainda contundente em temas que tratam de violência doméstica e sexual. Ela própria uma sobrevivente, a artista afirma que escreve suas músicas muitas vezes para pessoas reais, amigas, parentes. Mas sua raiva é também política deixando claro que esses problemas de ordem pessoal, na realidade, é toda uma sociedade. “For Her”, iniciado a capela, foi escrito por Fiona em 2018 após a indicação de Brett Kavanaugh, acusado de abuso sexual, para a Suprema Corte dos EUA. O coro de vozes e o tom alegre da batida convive com a dureza de sua letra que diz: “Bom, bom dia / Você me estuprou na mesma cama que sua filha nasceu”.

Ainda que esse disco mantenha o fogo alto e seja estridente na forma, Fiona Apple manteve intacto o mesmo estilo que a fez famosa desde os anos 1990 (lembram quando ela disse “esse mundo é fodido” ao ganhar o VMA de melhor nova artista?). Assim, este álbum reafirma uma personalidade artística que segue nutrida por décadas, não importa quanto tempo Fiona demore entre um lançamento e outro. O que avança é seu interesse em experimentar uma visão muito particular da música pop, a aproximando do jazz, o blues rock e o rock alternativo.

Fetch The Bolt Cutters corta qualquer discurso hipócrita e apaziguador e coloca o ouvinte em contato direto com o incômodo. E faz isso com uma experiência sonora da qual é impossível ficar imune. Para um ano horrível como este 2020, Fiona nos entrega não um alento, mas um combustível para pôr tudo abaixo de vez.

FIONA APPLE
Fetch The Bolt Cutters

[Epic Recordings, 2020]
Produzido por Amy Aileen Wood & Fiona Apple

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