Crítica: O folk psicodélico de Juvenil Silva e a chuva de melancolia no álbum Um Belo Dia Nesse Inferno

Disco é o quarto da carreira do artista e vem com referências em Zé Ramalho, Bob Dylan, Belchior, Lula Côrtes, Syd Barret, Flaviola, Nick Drake e Nico

Crítica: O folk psicodélico de Juvenil Silva e a chuva de melancolia no álbum Um Belo Dia Nesse Inferno

Disco é o quarto da carreira do artista e vem com referências em Zé Ramalho, Bob Dylan, Belchior, Lula Côrtes, Syd Barret, Flaviola, Nick Drake e Nico

Crítica: O folk psicodélico de Juvenil Silva e a chuva de melancolia no álbum Um Belo Dia Nesse Inferno
3.6

Um eu-lírico que canta manso e nada no caos. Como se tivesse sido composto num dia de chuva. De forma sinestésica, Um Belo Dia Nesse Inferno, novo álbum de Juvenil Silva, tem cor cinza. Talvez a estética de um céu aparentemente nublado que acompanha as faixas como visualizer ajudem a concretizar essa ideia. A melancolia transformada em canção se propaga nas letras e instrumentais numa viagem de sentimentos mais frios, cabisbaixos e lamúrias, como para muitos pode ser um dia de temporal.

O disco é o quarto da carreira do músico pernambucano, e vem na sucessão de Suspenso (2018), que imprime uma pegada de guitarra distorcida e agitada, seja numa performance mais rock, seja numa mais brega, ou reagge. E sobre agitação, este parece ser um elemento deixado em 2018, já que no trabalho atual o drama nas melodias dispensa qualquer percussão mais dançante. As faixas destacam o dedilhar de violões de aço, nylon, 12 cordas e ainda o lendário tricórdio, que pertenceu a Lula Côrtes (1949 – 2011). O instrumento que integrou a gravação de clássicos como “Paêbirú”, “Molhado de Suor”, “Flaviola”, “O Bando do Sol” chega para aguçar novos registros na harmônica das tantas cordas do disco.

Ainda que não declare fazer parte de suas referências, que contam com Zé Ramalho, Bob Dylan, Belchior, Lula Côrtes, Syd Barret, Flaviola, Nick Drake e Nico, Juvenil embarca num folk psicodélico com a cara e som de Raul Seixas. Não só nas questões de música, como performáticas, pela voz, que assim como em Suspenso, passa uma captação mais analógica, de rádio, sussurrando, cantando de forma mais falada e ousando entre o grave e o agudo. Um exemplo mais evidente disto, é a faixa “Objeto Afetivo”.

Assim como em Depois da Curva, álbum que Juvenil lançou com o coletivo Avoada, Um Belo Dia No Inferno tem inspirações nos tempos de altas turbulências atuais, trazendo letras íntimas do artista e que guardam mensagens de reflexão como na própria faixa homônima, em “Sem Relógios” e em “Música de Repúdio”.

Foto: Raissa Vila Nova.

Um detalhe não tão positivo durante a viagem pelas 10 faixas do disco é a permanência desse ar “under”, para baixo, sem outros respiros, sendo quebrada em “Desoriente”, faixa exclusivamente instrumental que mescla a roupagem leve/melancólica com um toque mais punk de guitarra, e em “Estamos Numa Encruzilhada”, a mais solar da sequência. É verdade, entretanto, que a escolha da sonoridade faz parte de uma proposta já antiga de Juvenil em revelar mais de si em registros mais mansos. Se uma escolha arriscada é feita e expressa a autenticidade do artista, ela há de ser considerada.

A psicodelia, ainda que, hoje, esteja distante das paradas de sucesso, como já esteve nos tempos de Belchior, ou até mesmo de Raul Seixas, mantém um público fiel. E é neste público que Juvenil triunfa, ao mesmo tempo que tem potencial para atrair os mais jovens. O cantor promove o resgate de um som tradicional, de certa forma saudoso, assim como também traz refresco, impondo suas letras, sentimentos e a personalidade de um jovem músico. Faz chover no molhado de quem ama os dias de temporal.

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