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DE VOLTA AO TOM ABSURDO
Almodóvar retorna ao escracho nesta comédia que escancara a sexualidade ao mesmo tempo em que faz metáfora com a crise espanhola

O espanhol jogou pelos ares a pressão de fazer uma obra-prima em seu novo filme depois do ótimo e aclamado A Pele Que Habito (2011). é seu retorno às comédias sexuais escrachadas, povoadas de tipos gays pintosérrimos. Passada toda em uma viagem de avião, Almodóvar ainda arrumou tempo para fazer uma alfinetada – de leve – na crise econômica pela qual passa a Espanha.

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Tudo começa com uma viagem de Madri até a Cidade do México. Com todos os passageiros da classe econômica dormindo, a classe executiva precisa resolver o problema de um trem de pouso quebrado. Para isso, eles precisam voar em círculos até achar uma pista segura de pouso e evitar assim um acidente. A metáfora parece clara com os rumos que a economia espanhola tomou desde a crise mundial de 2008. Sem rumo e com índices desastrosos no crescimento e na geração de empregos, o país, no olhar almodovariano seria um avião que corre perigo – mas ainda assim precisa conservar as aparências como pode.

Um outro olhar dessa comédia mostra apenas o diretor retomando seu interesse em abordar os limites do sexo. Na trama, meia dúzia de personagens da classe executiva lidam com a sexualidade de alguma forma – uma vidente quer perder a virgindade, um executivo quer voltar a falar com a filha, que hoje atua como dominatrix, um casal de noivos realiza a noite de núpcias em pleno voo, e muitas outras situações bem ao gosto espalhafatoso do diretor. Mas o fio da trama é a relação do trio de comissários, três bichas desenvoltas que protagonizam um lypsynch para entreter os passageiros.

Javier Cámara, Carlos Areces e Raúl Arévalo seguram o filme com interpretações que não deixam a dever entre as melhores comédias histéricas do início da carreira do diretor. Ao lado deles, o piloto (Antonio de la Torre) e copiloto (Hugo Silva) também tem seus problemas sexuais – um é bissexual e o outro tem um caso com Joserra (Cámara). Mantido na base de drogas, sexo e diálogos bem abusados, Almodóvar parece querer dialogar com seus primeiros filmes, como Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980), Kika (1993) e De Salto Alto (1991).

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Mas não chega a ser um retorno assim tão preciso. O filme é uma comédia divertida e depravada como há muito não víamos em Almodóvar, mas há um tom menos histriônico. Até as cores fortes, tão típicas, sofreram uma adaptação para se adaptar à paleta comum nos aviões (horrenda, como disse em entrevista ao site Vulture). Mas o visual ainda marca bastante o filme, e tudo bem exagerado como manda a cartilha.

Os Amantes Imaginários traz de volta o Almodóvar que batia forte no recalque conservador. O filme sobrevive apenas por seu lado cômico, mas não deixa de ser interessante ver o diretor criticar, de maneira bem safada/escandalosa, os rumos que a recessão alcançou em seu país.

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Pedro Almodóvar
[Los Amantes Pasajeros, 2013 / Paris Filmes]
Com: Javier Cámara, Lola Dueñas, Cecília Roth

Nota: 8,4

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