Fernando Grostein Andrade e Fernando Siqueira, autores do longa. (Divulgação)

Crítica: Quebrando Mitos, a autobiografia de Fernando Grostein Andrade diz muito sobre a vida do Brasil com Bolsonaro

Os efeitos e consequências da masculinidade tóxica e catastrófica guiam os trajetos do cineasta e do atual presidente no documentário

Crítica: Quebrando Mitos, a autobiografia de Fernando Grostein Andrade diz muito sobre a vida do Brasil com Bolsonaro
4.5

Quebrando Mitos
Fernando Grostein Andrade
BRA, 2022, Livre, 1h32
Distribuição independente. Disponível no YouTube

As primeiras cenas do documentário Quebrando Mitos podem até preparar o telespectador para o que vem ao longo do filme. As imagens de arquivo já circuladas na mídia de Jair Bolsonaro junto às ilustrações satíricas representando o famigerado “gado”, indicam qual será o argumento. Mas, se engana quem acha que é “só” isso, já que permeada por esse contexto, e de forma nada paralela, a autobiografia de Fernando Grostein Andrade, um dos diretores, é construída e narrada por ele mesmo. A vida de um homem gay antes e durante a ascensão da extrema-direita, dialoga sobre a situação atual no país, ao mesmo tempo que flui a narrativa do autobiografado. Andrade usa sua história de trampolim, e escancara a capenga “vida” do país, a partir da sua.

Após a candidatura de Bolsonaro em 2018, Fernando enxergou seus alertas, entrevistas, declarações nas mídias sobre o perigo da figura messiânica de Jair chegar à presidência irem descarga abaixo. Hoje, por seu alcance, é assertivo dizer que o presidente é o maior representante da homofobia no país. Seus ataques e falas como deputado ou “peixe pequeno” na política já alarmavam os defensores dos direitos humanos, como Fernando Grostein, mas para a grande maioria, a postura do atual presidente era considerada cômica, uma piada. Vale creditar a responsabilidade de tal fama à mídia tradicional que dedicou holofotes sem precedentes ao então parlamentar. Com a piada eleita, o buraco estava mais cavado. O medo legítimo vindo de um vasto histórico de ameaças e ataques impulsionou Fernando Grostein a se mudar para a Califórnia, onde teve a ideia de voltar atrás no tempo e nos acontecimentos a fim de destrinchar quem foi e é Bolsonaro num contexto macro. 

A abordagem era arriscada. As imagens de arquivo e as mais recentes como as do 7 de setembro, as entrevistas com jornalistas, políticos, pessoas que trabalharam com o presidente, e até de quem lhe conheceu na infância construíram um filme difícil de “engolir”. O ódio que rege a trajetória política de Bolsonaro se focado exclusivamente como a pauta principal, forjaria um filme sem respiros. E sem respiros, o diretor se sentiu afetado. É verdade que o cineasta já trabalhou com temáticas densas, como no documentário Quebrando o Tabu (2011), vindo dele o portal em defesa dos direitos humanos tão conhecido no país e no mundo. O longa de 2011 foi feito em parceria com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a fim de explorar a chamada “guerra às drogas” e defende que essa “guerra” deveria ser tratada como questão de saúde e não com punição criminal.

Com Quebrando Mitos, a temática doía num lado mais pessoal. O peso do material trouxe sequelas ao diretor. Porém, o fatídico burnout de Grostein afastá-lo da montagem foi crucial para a participação do marido Fernando Siqueira, que assumiu o roteiro e trouxe o foco (apontando a câmera mesmo) para o cineasta. Além de cantor e ator, Siqueira estudou roteiro na USC (University of Southern California), direção em cursos no Instituto de Sundance, atuação no William Esper Studio e mídias sociais no MIT (Massachussetts Institute of Technology). Neste comando, veio a respiração do documentário, garantindo momentos mais leves, humanizados dentro de uma narrativa que reflete o peso de ser brasileiro (gay, preto, indígena, pobre) num país com Bolsonaro na presidência. 

A volta às origens de Jair Messias Bolsonaro, o lugar que nasceu, o pai garimpeiro, o ingresso e a expulsão do exército, o início e o desenvolvimento da carreira política traz a relação direta com o cerne do documentário: a discussão sobre masculinidade tóxica. Fator que esteve presente ao longo do crescimento de Fernando Grostein Andrade, filho de um dos diretores da revista Playboy. Com uma infância já midiatizada em imagens, o autor revela os desafios de crescer num ambiente em suma machista com relatos tocantes e delicados. Vivendo nestes contextos, muito envolvido com as pautas dos direitos humanos e com a mídia de alerta, tornar pública sua sexualidade agravou os ataques homofóbicos que sofria desde muito novo.

O Brasil de 2017, quando Fernando se assumiu publicamente, já tinha passado por um golpe, caminhava com as campanhas à presidência para o ano seguinte, e consequentemente galgava para a chegada da extrema-direta no poder. A eleição de Bolsonaro se comprova no filme forjada de forma estratégica e pautada no discurso de ódio. A figura do homem “macho”, heterossexual, amante de armas, defensor do cristianismo e conservador foi montada por Bolsonaro com o apoio de uma das instituições mais machistas e misóginas hegêmônicas do país: a igreja evangélica. De maneira escancarada e relacionada ao mesmo mal ao redor do mundo, Fernando faz funcionar um roteiro que denuncia situações veladas, exibe contradições, escancara hipocrisias e acima de tudo elenca os efeitos e consequências de uma masculinidade que além de tóxica alcança o naipe de catastrófica.

O perseguimento à comunidade LGBTQIA+ por Bolsonaro e seus apoiadores excede a dita falácia da ideologia de gênero e do kit gay, ao ponto de perseguir e ameaçar carreiras como a do ex-político Jean Willys, exilado por proteção a sua e a vida de seus familiares. E nesta esteira, acarretando as tantas mazelas advindas da masculinidade catastrófica erguida pela gestão federal atual, estão os constantes ataques aos povos indígenas, o desmatamento, o mantimento de milícias no Rio de Janeiro, incentivo ao garimpo ilegal e entre tantos outros danos, a morte de líderes reivindicatórios dos direitos humanos, como Marielle Franco.

O documentário aglutina uma gama de informações que podem e devem revoltar os telespectadores. Neste mesmo sentido, a revolta pode se expressar em lágrimas através dos trechos chocantes de ativistas indígenas em prantos na luta por sua terra, ou pela trajetória reapresentada de Marielle. Quebrando Mitos é de deixar a cabeça em efervescência. É de reafirmar posicionamentos políticos e de lamentar viver na realidade que em tela reflete a atual. O filme vem como franco-atirador a menos de um mês das eleições. Bolsonaro está atrás de Lula nas pesquisas, e a possibilidade de um segundo turno, de acordo com as pesquisas, não indica boas chances. Tal cenário ainda não é tranquilizador, visto que, através do documentário, o mal do que representa o governo Bolsonaro já está disseminado.

Ciente disso, Fernando Grostein traz um desfecho estando a campo das manifestações de 7 de setembro. Isto, após o burnout e o grande auxílio, inclusive musical, do marido na transformação de narrativa. A leveza, influência de Siqueira, ajuda o personagem desta autobiografia dele mesmo e do Brasil, olhar para frente ainda com esperança. A voz de Fernando, aqui longe das mais masculinizadas dos documentários tradicionais, finaliza prospectando empatia sobre apoiadores bolsonaristas que ao seu ver não são más pessoas, mas foram fortemente manipuladas. A manipulação de uma postura autoritária trabalha para destruir as minorias. Mata LGBTQIA+, pretos, indígenas, mulheres. E ao mesmo tempo levanta estes mesmos grupos numa condição de resistência, com potencial para virar o jogo, já que, segundo o cineasta, “Forças desarmadas são mais fortes que as armadas” e segundo Jean Wyllys: “As ideias são à prova de bala”.

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