Crítica: Russo Passapusso e Antonio Carlos & Jocafi fazem um encontro afro-inspirado e atemporal no disco Alto da Maravilha
4.5

A relação de admiração mútua entre Russo Passapusso e a lendária dupla cancioneira Antonio Carlos e Jocafi, ganha um capítulo ilustre com o lançamento do álbum conjunto Alto da Maravilha. O histórico desta parceria traz gratas memórias, e um saldo extra positivo, já que o duo é coautor e intérprete de duas faixas de O Futuro Não Demora, disco que rendeu a BaianaSystem, banda onde Russo é vocalista, um Grammy Latino em 2019. Neste, além de celebrar a união, os artistas constroem uma tessitura musical popular, ancestral e afro-inspirada.

Foi por inspiração, inclusive, que nasceu esta troca. Russo Passapusso, encontrou na dupla referência para a música brasileira e mundial, o gancho que lhe faltava para escrever por meio do samba. A Bahia, como um berço da cultura popular do país, foi este campo fértil tanto para Russo quanto para Antonio Carlos e Jocafi. O vocalista natural de Feira de Santana, já virou referência com a BaianaSystem, por seu reggae revolucionário, ponto alto dos trios elétricos no carnaval de seu estado natal. 

Já Antonio Carlos e Jocafi, ainda que tenham precisado sair de sua terra de origem, Salvador, para estourar no sudeste, levaram consigo as influências musicais de um samba que reconfigurou o cenário nacional. Como dupla, desde 1969, eles conquistaram Brasil e mundo através de suas canções, com destaque disparado a “Você Abusou”. Nomes como Diogo Nogueira, Jorge Aragão, Demônios da Garoa, Sambô e Steve Wonder já interpretaram a composição. 

Como artistas versáteis, a dupla também emplacou composições no repertório de gente grande como Luiz Gonzaga, Elis Regina e Gilberto Gil. As trajetórias de sucesso, do duo com Russo Passapusso, se cruzam em Alto da Maravilha numa convergência geracional, sonora (da cuíca aos beats) e religiosa, onde se elencam o afrofunk, o afrobeat e o afrofuturismo, evidentemente regados a samba.

O disco, produzido por Curumin, Zé Nigro e Lucas Martins, é composto, segundo Russo, por um Lado A, mais enérgico e celebrado, e por um Lado B, que exalta a melodia e a canção, como em “Olhar Pidão” feat Djalma Corrêa e Karina Bühr, versando sobre afeto e existência.

O encontro já tinha rendido singles e ganha agora registro em álbum. (Foto: Cartaxo/Divulgação.)

Alto da Maravilha conta com samples de músicas de Antonio Carlos e Jocafi em releituras que concretizam a proposta da convergência sonora. Dentro destas experimentações, ganha destaque o Ijexá Funk, presente no Lado A, e em faixas como a abre alas “Aperta o Pé”. O Ijexá é oriundo da cidade de Ilesa, na Nigéria, e veio ao Brasil com os escravizados africanos. Perpetuado como um ritmo dos terreiros de candomblé, é também um dos braços do afoxé. O ritmo fez parte do repertório de artistas como Caetano Veloso, Clara Nunes e Dorival Caymmi.

A exaltação e saudação candomblecista figura em faixas como “Alabá” e “Mirê Mirê” feat Gilberto Gil. Ambas utilizam o iorubá nas letras, cantando sobre as divindades. A primeira é envernizada com um samba de violão protagonista e cuíca pontual, enquanto a segunda, ganha uma vertente mais tropical, de pandeiro e percussão mais embalada.

Outro destaque do disco, fica com “Forrobodó”, iniciando com um sample de forró mais raiz, logo introduz um instrumental mais moderno do ritmo, unindo guitarra e triângulo, na métrica “agoniada” de cantar de um repente, como um bom sincopado. A faixa homenageia Antônio Ribeiro da Conceição, o Mestre Bule Bule, poeta, repentista e cordelista baiano, grande propagador da música nordestina pelo Brasil. Também neste resgate da memória ao Nordeste, está “Vapor de Cachoeira”, versando sobre a natureza, navegação, um “riacho do navio”, ao destacar um coro feminino que remete a ciranda.

Ganham vez no disco, ainda, faixas com teor crítico, como “Tapa”, ao dizer que todo “rei” merece um, abrindo espaço para a interpretação do nosso contexto político.

O caminho para o desfecho do álbum termina em “Catendê”. A faixa é introduzida por um violão afetuoso que chama para o canto, de igual forma, manso e cheio de afeto. As vozes dos artistas clamam a divindade Catendê, equivalente ao Orixá Ossaim, presente na natureza. Neste sentido, Russo Passapusso e Antonio Carlos e Jocafi parecem escolher fechar o disco com uma canção de agradecimento, a natureza, a música, aos sentimentos e tudo o que fluiu para que a parceria acontecesse.

Alto da Maravilha é rico, sensível e acima de tudo, é um encontro neste caminho atemporal em que segue a música popular brasileira.

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