Foto: Divulgação

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e a nova literatura portuguesa

No ano passado a editora deu início a publicação da Coleção Novíssimos, com cinco títulos reunindo nomes importantes da nova literatura portuguesa: O Teu Rosto Será o Último (João Ricardo Pedro), No Meu Peito Não Cabem Pássaros (Nuno Camarneiro), Por Este Mundo Acima (Patrícia Reis), Um PianoPara Cavalos Altos (Sandro William Junqueira) e Para Cima e Não Para Norte(Patrícia Portela), em bonitas edições de capas coloridas e emborrachadas.

Neste ano, a coleção se completou com a publicação de mais cinco volumes: Anatomia dos Mártires (João Tordo), Rio Homem (André Gago), Sandoku & Bakunine (Bruno Margo), Deixem Falar as Pedras (David Machado) e  (Rui Cardoso Martins), que tive a oportunidade de conferir.

Com um título instigante, o jornalista e autor português Rui Cardoso Martins constrói uma narrativa contada em primeira pessoa por um narrador sem nome onde cinco amigos sem nada a perder resolvem deixar Portugal para se aventurar em uma road trip pelos Estados Unidos, onde cada um encontrará finalmente o seu destino.

O início é amargo: encontramos o narrador-personagem no túmulo da esposa recém-falecida contando a ela que, alheias ao seu falecimento, várias empresas mandaram cartões de felicitações e cupons de desconto para ela em ocasião de seu aniversário; entre eles, um cartão de crédito, com o qual ele e seus amigos seguirão viagem rumo à América do Norte.

Coleção Novíssimos 2013

Coleção Novíssimos 2013

O sarcasmos das reflexões do narrador expondo o ridículo da sociedade ocidental no início do livro algumas vezes lembram Saramago, mas Rui Cardoso Martins possui voz própria suficiente para não parecer apenas um simulacro daquele. Tais reflexões, aliadas à expectativa que a viagem iminente gera no leitor, fazem o livro empolgar durante a primeira metade e a leitura flui com facilidade. Da segunda em diante, torna-se monótono com suas longas passagens sobre a história dos lugares por onde estão passando. A partir da chegada dos personagens ao Texas, algumas passagem chegam a ser enfadonhas, se recuperando quando chegam ao Grand Canyon, onde o destino dos cinco amigos começa bizarramente a se fechar.

A escrita exige um pouco da atenção do leitor. Alternando momentos em que o narrador parece dialogar conosco a outros em que os personagens falam entre si – sem que fique clara a alteração -, muito da escrita vem em fluxo de consciência (ora do personagem, ora do autor) construído de maneira complexa ao costurar o que se passa na cabeça do narrador e o que está acontecendo na história naquele determinado ponto.

Sendo um livro com ponto de vista masculino, as mulheres quase não são representadas, aparecendo na maioria das vezes de passagem e com um certo olhar sexista; por outro lado, temos Adriano, um personagem assumidamente homossexual que nunca é retratado com condescendência ou pejorativamente. A homossexualidade de Adriano é tão natural quanto a heterossexualidade dos outros personagens de forma que o leitor chega até a se esquecer dela, mostrando um acerto do autor acerta em não fazer da sexualidade de nenhum deles uma questão.

Ainda que trate sobre cinco homens solteiros viajando juntos e com isso surjam os naturais momentos de brigas, jogos, bebedeiras e romance, o livro é mais construído com base na amizade dos cinco homens que viajam lado a lado cada um carregando consigo seus “assuntos proibidos” de serem tratados durante a viagem e na busca pessoal de cada um em encontrar o que nem sabem estar buscando – enquanto se apoiam, se ridicularizam e travam conversas filosóficas – do que nos clichês comuns que uma trama como esta facilmente poderia levar o autor a cair.

Sem subestimar a inteligência do leitor e muitas vezes nos dando verdadeiros tapas com luvas se pelica, Se fosse fácil era para os outros não se apoia em fórmulas e parece um acertado exemplar da boa literatura portuguesa contemporânea. Vale a pena a leitura.

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SE FOSSE FÁCIL ERA PARA OS OUTROS 
Rui Cardoso Martins
[Editora LeYa, 224 páginas / 2013]

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