Fotos: Rodolfo Araújo/Divulgação.

Peça vai em cima daquilo que nossa sociedade não quer ver, mas apenas julgar. (Fotos: Rodolfo Araújo/Divulgação).

A vida, boy, é uma grande roda da qual eu estou fora
Grupo cearense leva ao palco a história de uma travesti que vive à margem da sociedade. Espetáculo foi uma das atrações do Palco Giratório

Por Mateus Araújo

“Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada”. (Dama da Noite, ).

A rosa em cima da mesa fala da delicadeza que há por dentro das nossas cascas. A euforia e a extravagância tentam esconder os olhos marejados que guardam uma vida amarga além deles. É na tangente, na extremidade, do lado de fora da grande roda que a vida gira sem tempero, sem lubrificantes, sem refresco. , peça do grupo , do Ceará, apresentada nos últimos dias 22 e 23 de maio, no Sesc Casa Amarela, no Recife, dentro da programação do Palco Giratório, é uma notável crônica do universo quase sempre visto pelo preconceito e poucas vezes compreendido.

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O texto é um monólogo adaptado do conto Dama da Noite, de Caio Fernando Abreu, pelo qual uma travesti fala da sua vida, dos seus desejos e das suas amarguras para o um “boy” invisível e universal. O “boy” somos nós, espectadores. A verdade é tudo aquilo que o preconceito abafa. O olhar do espetáculo vai em cima daquilo que muitas vezes nossa sociedade não quer ver mas apenas julgar, dá voz a quem vive fora da roda (metáfora encontrada para representar os padrões sociais).

É num camarim o ponto de partida da história. Diante de um cabide e saltos altos, ela se monta, se prepara para mais uma enfadonha noite de show no cabaré. Maquiada, de peruca e vestido tubinho, dubla os versos de solidão, dúvida e rancor de “I’ve Never Been To Me” (ou, Eu nunca estive para mim, numa tradução quase que ao pé da letra), de Charlene, como uma clara referência ao filme Priscila, A Rainha do Deserto, de que a canção faz parte da trilha sonora. Depois, numa mesa do bar, a Dama da Noite descarrega suas dores e seus palavrões diante de um interlocutor – aqui representando a figura de uma sociedade preconceituosa e excludente – com medo de tocar o outro, de estar tão próximo do temido vírus HIV.

Foto: Rodolfo Araújo/Divulgação.

O drama da travesti: uma existência sem medida ou vergonha. (Foto: Rodolfo Araújo/Divulgação).

Quando o público se dá conta, está diante das confissões de vida da travesti de olhos verborrágicos, que revela sua existência sem medida ou vergonha. Ela recorre ao desboque para falar de estupro, de abuso, de solidão, maus-tratos e do sonho por um grande amor – “Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: ‘vem comigo’. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite”. É um roteiro delicado, sensível sem ser denso, mesmo enveredando por discussões sérias, tratando com mérito sobre um assunto tabu. Não é difícil que despertemos, assim, para associações à linha de abordagem como a de João Silvério Trevisan, no seu antológico Devassos no Paraíso.

Por outro lado, também é impossível passar despercebido pela desenvoltura do ator , que ainda assina direção, figurino, maquiagem e texto da peça. Em meio a um cenário quase nu, de poucos objetos, composto apenas por uma mesa, um cabide e um banco, o rapaz brinca com a emoção do público, oscilando a plateia entre risos e silêncios. Silvero contrapõe com excelência os gestos expansivos – sem ser caricata – da travesti com o seu olhar assustado, sério e frágil. E faz tudo isso se apoiando apenas na iluminação, sem trilha sonora ou sonoplastias, numa marcação de cena proposital circular. É bonito vê-lo no palco. É comovente. E decerto nos comprova a qualidade de técnica e discurso do coletivo As Travestidas, grupo que recentemente revelou ao Brasil Jesuíta Barbosa, o Fininha do longa-metragem Tatuagem, e Ayrton de Praia do Futuro. Uma Flor de Dama é, sem dúvida, uma peça essencial para nossa cena contemporânea política nordestina e brasileira.

UMA FLOR DE DAMA
Coletivo As Travestidas (CE)
[50 min. / Drama / 18 anos]
Direção, interpretação, figurino, maquiagem, sonoplastia e texto: Silvero Pereira
Operador de som e multimídias: Gyl Giffony
Operador de luz: Thomaz Aquino
Avaliação: Bom

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