Foto da apresentação O Banquete!
Zé Celso em cena de O Banquete (Foto: Divulgação)

ESCOLA DE SAMBA DE LUXO
Na grandeza da estrutura do Teatro Oficina, em Peixinhos, quem perde é o público

Por Fernando de Albuquerque
Editor da Revista O Grito!, no Recife

Grandiloquência é a principal moeda de troca para as encenações do Teatro Oficina. E essa necessidade de grandeza vem de todos os lados. Primeiro na dimensão da instalação do teatro, realizado no Nascedouro de Peixinhos, à própria encenação do espetáculo que envolve o espectador de diversas formas começando pela necessidade de entrega total. E dentro desse paradigma do êxtase, a obra de José Celso Martinez Corrêa, diretor do teatro Oficina, é de qualidade inquestionável. Reverênciada enquanto o sopro máximo de interação e completude entre plateia, atores e texto.

Intitulado Dionisíacas em Viagem as apresentações incluiram as encenações de Taniko, Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!, Bacantes e O Banquete. As quatro peças todas abrigadas por uma estrutura móvel com capacidade para duas mil pessoas. O projeto foi financiado pelo Ministério da Cultura e tem orçamento de R$ 8,5 milhões, sendo que, deste total, R$ 1,5 milhão representa investimentos do próprio Teatro Oficina, principalmente em materiais.

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E reside aí o principal ponto negativo das apresentações. A estrutura se assemelha a um grande sambódromo onde o público se acomoda distante da encenação interagindo através de telões com transmissão ao vivo e monitores de LCD. Os mais afoitos sentaram- se junto ao espaço onde os atores “desfilavam” a história de seus personagens.

E nesse mix entre distância e desfile do inatingível, o público perde o melhor do espetáculo: a forma engenhosa e mítica que o texto ganha vida. Ao fluxo constante dos fatos que mais se assemelham a um sonho, os personagens encarnam e desencarnam e atuam em caráter simultâneo. A participação da plateia é invariável já que é quase impossível não se entregar à verve livre do imaginário. Em contrapartida, é difícil se envolver com a apresentação, pois a mutação constante de figuras exige proximidade que começa com o conhecimento do texto encenado e culmina com a próximidade física.

Trecho de Banquete: texto perdido na imensidão (Foto: Rafael Mingolin/Divulgação)

A partir daí surge uma dualidade. Apesar da contextualização cenográfica e de figurino, a própria riqueza deles acaba por desaparecer dentro da grande estrutura. Somado a isso as falas versificadas, de verdadeiro lirismo, faz com que o espectador se torne alheio ao que acontece. Ou é a cena, ou é a fala. Mas quem vence mesmo é o tamanho no teatro. O ator é pequeno e sua fala se perde na balburdia da multidão. O espectador é menor ainda…e se perde ainda mais, pois é engolido pela super-estrutura.

A saída de muitos para resolver o imbróglio é não acompanhar o texto. E focar a atenção nos aspectos plásticos, audiovisuais e musicais. Mas, contraditoriamente, a encenação é refém do texto que, dotado de um lirísmo muitas vezes hermético causa uma certo ar de desapego entre todos os envolvidos. Então tudo se transforma em uma verdadeira cadeia de sensações sem muito sentido, uma verdadeira escola de samba onde o que interessa, mesmo, é a performance da passista e o tamanho da retaguarda da madrinha de baterias.

E se a premissa é a mistura, então o corpo se mixa ao entusiasmo e o talento dos atores operam um verdadeiro milagre nas encenações do Oficina. A principal contribuição da encenação não está na compreensão do todo (os que não conhecem os textos encenados acabam por passar batido em tudo), mas materialização de imagens que só podem ser tangíveis no sonho. Se haviam dois mil espectadores nas instalações do teatro, houveram, então, dois mil espetáculos na mente de cada um.

O Teatro Oficina em Peixinhos

  1. É particularmente difícil, para mim, tecer esta crítica, já que me envolvi nas oficinas do grupo e o acompanhamento e a experimentação do seu processo multiplicaram minha admiração pelo que o Oficina faz. Porém, considero o Banquete a menos atrativa das peças apresentadas. Uma pena, pois seria, talvez, o momento de síntese e epifania dos quatro dias. Creio que foi assim aproveitado pelos que mais estavam diretamente envolvidos com o que acontecia no palco. O que eu percebi, já que optei por ser platéia desta vez, foram certas deficiências que quebraram o envolvimento peça-público, principalmente no que se trata da atenção e participação, por mais incoerente que isto pareça frente à proposta da peça. Acho que a estruturação da peça peca nisso, pois claramente se migra da narrativa do coro musical (poderosíssimo) para o indivíduo que recita versos sem um ritmo envolvente, sextilhas por vezes enfadonhas que se seguiam às encarnações de figuras libidinosas que despertavam reações no público, o qual precisava ser controlado com pedidos explícitos de atenção, intervenções (bretchianas?) condenatórias (Z’Ébrio versus Cafuçús – outrora adorados) ou disciplinadoras (contensão das aclamações gerais por Dona Rosa). Tudo em favor de que se prosseguissem as declamações (cantadas) individuais em detrimento da catarse pública. Esta encenação exigia isso, mas as anteriores tiveram mais sucesso nesse aspecto ao privilegiar a ação e as canções, além de contarem com intervalos propícios. Não duvido – pelo contrário, cheguei a constatar – que alguns que ali estiveram podem ter explicado tais dificuldades com o discurso de alta e baixa cultura. Lamento, pois as experiências das peças anteriores provam o contrário com o sucesso de uma dinâmica diferente – os ruídos e interferências da platéia foram contidos/absorvidos pela ação do palco.
    Houve outros fatores que atrapalharam o público. O hermetismo do texto foi acompanhado de um ambiente fisicamente hermético, o calor dentro da estufa plástica, com passagens de ar mínimas, muitas vezes era insuportável. Principalmente sem os intervalos. O som dos microfones falhou, seja pelas interrupções no equipamento ou pelo volume que a voz individual exigia perante a zoada do público. Mas isso é totalmente compreensível visto a dimensão da encenação. Já a estrutura grandiosa, vejo como um verdadeiro avanço numa proposta de teatro de massas, com a ruptura das paredes, e humilhou em inovação e beleza o que é feito na maioria de eventos para milhares de espectadores (pagantes e não pagãos) devidamente acomodados na maciez de poltronas e ambientes climatizados.
    Enfim, é ridículo se limitar uma análise de uma só parte de tudo o que aconteceu com o Oficina em Olinda. O saldo é ligeiramente negativo, acho que ficamos devendo algo. Vejo que quem os acompanhou, cada um a sua maneira, sente agora falta de tudo e isso demonstra certa carência que não se pode ignorar. Pode ser de diversas formas: carência de qualidade, simpatia, liberdade, oportunidades de voz, de acesso, de aprendizado e de troca. Certamente, se alguém do Oficina for dizer algo, a matemática pode se inverter, já que, pelo menos da maioria deles (a equipe), pode-se dizer que houve entrega/integração na territorialização de seu processo, sem prevalência de estrelismos ou a presença hermética em quartos de hotel e camarins. Espero que não tenham deixado apenas os hype espetáculos nas memórias da audiência, mas que as experiências vividas se traduzam produtivamente com o que de mais positivo se possa ter assimilado. Outras Uzonas, multiplicadas, não reproduções. Com olhos para e do povo e sem populismos, popularizar as realizações “artístico-culturais” (mesmo que só nas propostas daqueles que buscam inovações, esperando cinquentenários para financiamentos governamentais) e colocá-la à prova fora dos guetos-patotas, difundindo suas experimentações além das arte-cidadelas, visando os cidadãos fora dos cult-focos como interlocutores e não só como supostas referências deglutidas em obras (finalizadas) influenciadas por um antropofagismo há muito cooptado por marginais e mainstreams do campo artístico.
    Como última observação, numa terra de artistas, parecem ter sido poucos os que se interessaram pela Usyna do processo, termo de ampla difusão em conceitualizações, apesar de não terem abrido mão do espetáculo.

    Perdão pela verborragia cheia de terminolo(r)giazinhas.

    Agora, ofereço a face.

    Evoé!

  2. Gostei muito das observações feitas pelo nosso colega de redação. Vi O Banquete no Oficina em SP e lá pude usufruir do espetáculo em sua plenitude, usando todos os sentidos e ao mesmo tempo me deliciando com a poesia – da fricção a ficção, do sublime ao escatológico, das musas e musos do Olimpo ao frenesi dos orixás. Mas o bom do Oficina é exatamente isto: esta capacidade de mexer com quem se dispõe a degluti-lo. A antropofagia dos trópicos segue devorando bispos e estrelas a vagar!

  3. Acredito que a proposta é de fato, sensitiva. Mesmo para quem não tem conhecimento do texto ou não consegue acompanhar, fica o tato. Ele está presente em toda a peça. O “tato” de todos os sentidos. Não é necessário passar pelo crivo razão, esta é um segundo plano na intenção do espetáculo. Como disse João Maria, “o texto é só um pretexto” (com exceção de algumas cenas). No entanto, de fato também parte da platéia se perdeu, principalmente no último dia, em que muitos espectadores queriam aparecer mais que os atores, gritando e xingando, inclusive. Senti falta de um “final” no último dia (Banquete), como se houvesse um vácuo ali.

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