Rogério Medeiros revela história pouco conhecida do pop pernambucano. (Divulgação).

Crítica: Valsa dos Cogumelos revela a trip do barato na música pernambucana

O jornalista Rogério Medeiros revisita a psicodelia recifense e mostra sua relevância no cenário musical brasileiro

Valsa dos Cogumelos: a psicodelia recifense 1968/1981 
Independente, 270 páginas, 2022, R$ 65

Se havia um capítulo da música brasileira ainda não contemplado: o cenário musical em Pernambuco na década de 1970, esta lacuna não existe mais. Graças ao jornalista Rogério Medeiros, os anos malucos da psicodelia recifense ganharam uma história a altura da sua importância. O livro Valsa dos Cogumelos, edição do próprio autor, lançado este ano, cobre de forma fidedigna e tocante, esse período em que rock, ritmos nordestinos e orientais, embalados por baseados e ácido, brotaram em profusão por estas terras pelas mãos de artistas mágicos, cujos sons deram vida a discos, considerados hoje, verdadeiras obras-primas da música universal.

Exagero? De forma alguma. As versões originais de álbuns como Satwa (1973), de Lailson e Lula Cortes; No Sub-reino dos Metazoários (1973), de Marconi Notaro; Ave Sangria (1974), do Ave Sangria; Paêbiru (1975/1976), de Lula Côrtes e Zé Ramalho; Flaviola e o Bando do Sol (1976), de Flaviola e o Bando do Sol; entre outros, são disputados a preço de ouro por colecionadores do mundo inteiro, não apenas pela raridade, mas pela reconhecida qualidade e originalidade do seu conteúdo. Passados mais de 40 anos do auge desse movimento que se contrapunha a sisudez da cultura oficial pernambucana baseada sobretudo no folclore, o resgate de Medeiros mostra como, a despeito das dificuldades inerentes a situação do Recife, distante dos centros irradiadores da indústria cultural no Brasil, no caso as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, a nossa psicodelia musical foi um marco de criatividade e ousadia.

Alguns dos discos que marcaram a psicodelia pernambucana. (Foto: Divulgação).

Movido por uma grande afeição, o autor, a partir de matérias e críticas publicadas nos jornais, trabalhos acadêmicos, relatos de quem viveu a época e depoimentos dos artistas sobreviventes, vai tecendo uma deliciosa viagem que começa nos meados dos anos 1960 e chega até os dias atuais. Para quem, como eu, viveu alguns dos momentos mais marcantes do período que, só no ano de 1974, me levou ao Concerto Chaminé, ao show Os Sete Cantos do Norte, na Igreja do Carmo em Olinda, e ao show do Ave Sangria Perfumes y Baratchos, no Teatro de Santa Isabel, o livro de Medeiros é uma máquina do tempo perfeita. Nele ficamos sabendo as aventuras e peripécias enfrentadas pelos músicos Robertinho do Recife, Lula Côrtes, Zé Ramalho, Zé da Flauta, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lailson, Marconi Notaro, Marco Polo, Ivinho, Almir de Oliveira, Israel Semente, Agricio Noia, Paulo Rafael, Aristides Guimarães, Flaviola, Don Tronxo, Tiago Araripe, Zaldo Rocha, entre tantos outros; das bandas Nuvem 33, Phetus, Aratanha Azul, Tamarineira Village (depois Ave Sangria), do papel da gravadora pernambucana Rozemblit, e de mulheres como Katia Mesel e Christina Lundgren que, apesar de estarem nos bastidores, foram elementos importantes da cena. 

Infelizmente, essa efervescência musical, nem sempre ultrapassou as fronteiras do estado e permitiu aos seus protagonistas a visibilidade e perenidade merecida. Medeiros, todavia, conduz seu texto com equilíbrio. Aponta os êxitos, quando eles ocorreram, e não transforma os percalços e insucessos dos psicodélicos em um rosário de lamúrias. Sua narrativa mostra as dificuldades para as bandas locais entrarem no circuito das grandes gravadoras, mas descreve, de forma espirituosa e despojada, os momentos pitorescos dos ensaios e gravações, rememora as performances das apresentações e os locais que recebiam os novos grupos como o famoso Beco do Barato, um bar localizado na Avenida Conde da Boa Vista, onde tinha funcionado o Teatro Popular do Nordeste (TPN).

Obra “Valsa dos Cogumelos – A Psicodelia Recifense 1968/1981”, de Rogério Medeiros

Melhor ainda, mostra como todos esses músicos estavam abertos à experimentação e às novas sonoridades, sem esquecer a capacidade que eles tinham para lidar com o improviso e superar as limitações técnicas.  A partir dos fatos descritos é possível perceber ainda como essa musicalidade tão peculiar era fruto dos encontros e das trocas por eles vivenciadas, lembrando um pouco o que nós vemos na “brodagem” que permeia a cena cinematográfica contemporânea. 

Valsa dos Cogumelos: a psicodelia recifense 1968/1981 é leitura obrigatória e poder ser lido acompanhado pela playlist oficial do livro disponível no Spotify. Por ela dá para se ter uma amostragem de como os ecos dos movimentos de contracultura e o desbunde surgiram por aqui e ver que não eram apenas uma reprodução do que vinha de fora com cores locais, mas uma mistura orgânica de frevo, rock, baião, samba, música indiana, guitarras, tricórdios e poesia, cuja potência foi reconhecida por críticos musicais e deixou marcas até hoje, basta ver uma apresentação do Ave Sangria que, mesmo desfalcado de alguns de seus instrumentistas já falecidos, ainda agita a plateia com o coração apaixonado de Seu Valdir.

O livro está à venda na Passa Disco, no Recife.

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