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Um vampiro humano, demasiadamente, humano
Vampire, do cineasta japonês Iwai Shunji mistura sangue, humor negro e poesia

Por Alexandre Figueirôa
Da Revista O Grito!

Filmes e séries com vampiros estão sempre na moda. Esses seres de vida eterna que, para sobreviver, bebem o sangue alheio mordendo pescoços inocentes com suas presas pontiagudas, são ícones da cultura pop e exercem um forte fascínio em muita gente mundo afora. Vampire, primeiro longa-metragem em língua inglesa do cineasta japonês Iwai Shunji (Love Letter, 1995), conta a história de um bebedor de sangue. Mas em vez de ter dentes afiados, morar num castelo sombrio e usar um ataúde para dormir, Simon não tem nada de sobrenatural. É apenas um sensível e delicado professor de biologia de uma escola secundária com um estranho hábito: ajuda jovens suicidas a se matarem em troca do sangue delas.

O ponto de partida do filme de Shunji é assustador, mas ao se distanciar das convenções do gênero, ele vai construindo uma curiosa trama que ultrapassa o estranhamento provocado pela situação vivida pelo protagonista e engaja o espectador numa viagem fantástica que mescla humor negro, belas imagens e uma doçura envolvente que nos leva a refletir sobre a fragilidade da vida e a complexidade dos contatos humanos.

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Aos 50 anos, Shunji é um dos realizadores mais produtivos do cinema japonês contemporâneo. Vampire foi revelado no Festival de Berlim em 2011 e tem circulado com sucesso em festivais dedicados ao cinema fantástico. Atualmente está em exibição no canal Max, na TV paga.

Certamente não é uma obra para estômagos sensíveis. A sequência inicial dá o tom do que vem a seguir. Simon acompanha uma jovem que quer se matar e cujo último desejo é ter um dia perfeito. O rapaz atende aos pedidos da moça e promete para ela uma morte sem dor. Lentamente ele a prepara para isto, deitando-a sobre um freezer que servirá para ocultar seu corpo. Em seguida faz nela quatro perfurações nas veias para que seu fluido vital escoe lentamente para quatro vasos até ela falecer. Sangue que depois ele beberá com sofreguidão.

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A partir daí acompanhamos o serial-killer na sua busca por novas vítimas. Todas suicidas em potencial que externam suas intenções em sites na internet ou simplesmente ficam rondando certos locais, como pontes e viadutos, para deles se jogarem. Simon as acolhe com ternura, pois não quer o sangue delas arrancado à força. A cada momento o cineasta japonês joga com a ambiguidade do personagem e das situações por ele vividas. Simon enfrenta provas físicas e morais e aos poucos vamos conhecendo suas fragilidades e carências. Lidar com a demência da mãe, portadora de Alzheimmer; proteger uma jovem aluna depressiva e doar seu sangue para que ela sobreviva a uma tentativa frustrada de suicídio revelam o seu espírito angustiado.

E inevitavelmente acabamos simpatizando com o personagem, sobretudo ao vermos sua reação de repúdio a um clube de sugadores de sangue, onde um dos membros tem o costume de raptar suas presas, sufocá-las até a morte para em seguida morder o pescoço delas com falsos dentes de metal. Empatia que se torna ainda mais forte quando Simon estabelece uma relação afetiva e de forte carga erótica com Ladybird, uma de suas possíveis vítima. Por isso, apesar do clima pesado e permanentemente tenso, Vampire acaba encantando ao metamorfosear o terror em poesia.

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Sua narrativa é elegante, as elipses são simples e o elenco consegue dar o tom ideal para a composição da mis-en-scène. Kevin Zegers, no papel de Simon é convincente como serial-killer com uma performance contida e precisa e Adelaide Clemens faz uma Ladybird comovente ao mesclar de forma sensível ingenuidade e desespero. Destaque também para Amanda Plummer, como a mãe de Simon. Emitindo apenas grunhidos, ela impõe sua presença de uma forma forte e contundente.

O filme tem exibições no Max nos dias 09/06 (00:10); 14/06 (00:50); 16/06 (03:20); 17/06 (23:30); 08/07 (23:50).

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Iwai Shunji
[Vampire, EUA, Convergence Entertainment / 2011]
Com: Kevin Zegers, Keisha Castle-Hughes, Amanda Plummer]

Nota: 8,5

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