Foto: Gustavo Pessoa.

Oh Oh Seu moço! Do disco voador/ Me leve com você/ Pra onde você for… Quantas vezes já olhamos para o céu, lembramos da canção S.O.S, de Raul Seixas, e vislumbramos a possibilidade de avistar um OVNI com um extraterrestre bacana que nos leve para bem longe. Geralmente isto ocorre quando estamos meio pra baixo, insatisfeitos com o que nos cerca ou simplesmente pela curiosidade de conhecer, quem sabe, um mundo melhor. E no Brasil de hoje está difícil não ficar assim. E este é o sentimento que nos invade ao assistirmos , o curta mais recente dos cineastas Matheus Farias e

Afeitos a trabalharem na chave dos filmes de gênero, trilhando os limites entre o terror e o realismo fantástico, depois de Quarto para Alugar (2016) e Caranguejo Rei (2019), a dupla realizou sua obra mais instigante. Ela já é uma espécie de Bacurau dos curta-metragens pernambucanos. O filme participou, desde o seu lançamento no ano passado, de cerca de 20 festivais no Brasil e no exterior, incluindo o prestigiadíssimo Sundance Film Festival, nos Estados Unidos. Foi também o curta mais premiado de 2020, ao ganhar nada menos que dez prêmios, entre os quais o de Melhor Filme do Júri no Festival de Gramado. Agora, ele dá mais um grande salto ao ser selecionado para o BFI Flare – London LGBTIQ+ Film Festival que acontece em modo virtual de 17 a 28 de março próximo.

O êxito de Inabitável e sua excelente recepção, mesmo fora do Brasil, são ancorados num trabalho maduro, bem cuidado e por sua linguagem simples de alcance universal. Quando Farias e Carvalho estrearam na direção com Quarto Para Alugar já era perceptível o talento na condução de narrativas onde o clima e a tensão crescente vai sendo construída aos poucos, introduzindo o espectador na atmosfera da trama pela perfeita conjugação dos recursos cinematográficos como a iluminação, a fotografia, a direção de arte e o desempenho do elenco. No filme seguinte, Caranguejo Rei, eles perderam a mão e o resultado não foi dos melhores. Mas, desta vez, acertaram em cheio. 

Foto: Gustavo Pessoa/Divulgação.

Em , a dupla deixou de lado os artifícios excessivos e, com uma mise-en-scène enxuta, uma estética próxima do realismo e um roteiro onde o mistério e o fantástico emergem sem alarido de uma situação prosaica, eles nos oferecem um filme que nos golpeia com força e não nos deixa indiferentes. O argumento é inspirado na triste situação quase corriqueira deste país intolerante e violento, onde uma das principais vítimas é a população LGBTI+ pobre e da periferia. Ele conta a história de uma mãe que procura por sua filha trans desaparecida depois de não retornar de uma festa. Amigas, hospitais, delegacias, Marilena (vivida pela atriz Luciana Souza) realiza o périplo de muitas mães reais em busca de uma resposta para sua angústia. Ela enfrenta a mesma indiferença e inoperância as quais esses personagens que não se encaixam nos padrões heteronormativos são submetidos na vida real. Mas Marilena é forte e não desiste, não se conforma, e é do seu inconformismo que virá a resposta para sua busca.

Matheus e Enock conseguiram traduzir a perplexidade diante da estupidez proporcionada pelas forças conservadoras cada vez mais presente por toda parte e o desejo de saídas possíveis desse mundo de trevas ao qual muitas pessoas, não só no Brasil, mas em vários lugares do mundo, estão tendo que conviver. Contudo, podemos afirmar que cinquenta por cento da potência do filme se tornou possível pela escolha de Luciana Souza para ser a protagonista. Os prêmios de interpretação que ela conquistou são justíssimos. Sua atuação é comovente. A atriz baiana consegue desenvolver seu personagem em todas as nuances necessárias para retratar e expressar o amor e a dor pela filha desaparecida. A montagem, delicada e poética, soube aproveitar essa força da atriz e ajustá-la com precisão ao que o filme propõe: apontar uma esperança para o futuro.

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