Escutando “Uma linda em Berlim”, da banda Textículos de Mary & a Banda D’as Cachorras.

O demônio da analogia (Mallarmé) ataca novamente. Deixando bem clara minhas intenções. O título desse texto é uma clara referência ao documentário Democracia em Vertigem. Leiam-no lembrando da voz monocórdica, desanimada, desalentada e sem graça de sua diretora, Petra Costa. Não se esqueçam que, por trás do marasmo, existe uma enorme lucidez. Nós estamos na era pós-Petra, onde todos os fatos preconizados pela língua entediada da cineasta se concretizaram. Vamos a eles.

Tarde de sábado, 11 de julho, 15h, chove ininterruptamente. O cenário da mesmice é o tiro de canhão que cobre o céu sem estrelas do meu confinamento. A verdade decretada não parece ter promessa de desconstrução. Resignado. Aceitei. O ponto fora da curva de um dia comum, inóspito e inoperante era participar de um festival de música, o Coquetel Molotov.exe, que trouxe inúmeras atrações gostosas e que foram capazes de clarear o mais de mil tons de cinza que tomavam conta da existência de um brasileiro ordinário, sozinho, sem esperanças e pendurado como um marsupial australiano no celular, computador e sua dissoluta esperança de conectividade. Imagina se tiram de nós até as possibilidades da internet. Aí fodeu.

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A noite transcorreu sem alarde. Apenas curtições momentâneas. Participar de festas e shows on-line, apesar dos rostinhos felizes e saltitantes em suas janelas, é sempre igual a escutar um vinil sozinho, meio arranhado. Um sabor de desgosto fica no canto da boca. Ver e não poder tocar. Querer e não poder passar a língua. O rol de desejos irrealizados, contudo, foi jogado no chão e pisado quando entrei em um “after”, a . Pensei que era uma continuidade daquela mesmice. Uns frangotes pulando na tela da tevê, outros “balançando a raba”, outros fazendo inflexões nos braços demonstrando animação. Não. Tudo era bem diferente. Começou com um casal sentado em sua sala de sofá. Ele sem camisa, ela com um cropped e saia. Ela começou pegando no pau dele e teve início a massagem inicial.

Logo todos entraram na mesma vibe, uns mais, outros menos. Paus e bucetas para fora. Mãos, dedos, leguminosas, cabos de panela, escovas de dente, cerdas em excitação. Tudo era o consolo, prazer e deleite daquelas quatro páginas de telinhas em puro tesão. A sala chegou a ter 200 participantes, nem todos ligavam a “cam”. Sempre tem o voyeur pronto para julgar. Um ser belíssimo, com ares femininos enrabava um rapaz fantasiado de vaca com uma cinta peniana. A “vaquinha” fazia cara de prazer e realização. Olhava para a câmera enquanto cortava repolho, colocava molho e ia temperando sua refeição folhosa com luxúria.

“No começo eu estranhei. Mas fui achando engraçado. Como se uma sensação de conforto fosse tomando conta da minha consciência. Guardei o pudor no congelador”

A sala virtual era a sucursal de Sodoma, enfileirando um circuito dos pecados de pessoas que escondiam o rosto por trás de máscaras de cachorro, correntes ou até sacos de lixo. Uma moça colocou a câmera bem próxima de suas partes íntimas e passou a noite inteira em uma frenética siririca. Ela gozava na tela, parava, descansava, voltava pro computador, e depois num rompante de tesão começava a se tocar novamente. Assistimos, todos, ao bolshoi da sacanagem pandêmica. Sozinhos em casa, isolados, em tremeliques por um vírus letal, a solidão ganha contornos abissais. O jeito é colocar os desejos para fora. Um sem número de homens e mulheres colocaram o celular no banheiro e tomavam banho, pareciam querer se despir de alguma sujeira mundana para entrar no circuito dos prazeres. Outros urinavam e se molhavam com liquido quente recém saído de seus corpos.

No começo eu estranhei. Mas fui achando engraçado. Como se uma sensação de conforto fosse tomando conta da minha consciência. Depois estava completamente relaxado e usando um diadema de diabo, tirei a roupa e comecei o meu rosário em busca da satisfação perdida. Guardei o pudor no congelador. Procurei e achei parceiros e parceiras. Fizemos chamadas privadas, nos tocamos por telas, acariciamos nosso sexo, libertamos a verdade. Corri feito criança em campos idílicos. Tive parceiros homens, mulheres e casais. Fiz de todos os presentes na festa os meus parceiros. Comunguei com aquelas sugestões de corpos virtuais. Fantasiei e corri o risco do mundo me desejar.

A festa começou às 0h e terminou às 8h30 do dia seguinte. Ninguém foi buscar o sapatinho de cristal da Cinderela.  O sol do dia fez a gente colocar nossos desejos de novo no calabouço do moralismo. Mas o sorriso está estampado no rosto e a gargalhada solta também. Deu para salvar mais um dia.

* Os artigos de opinião não refletem, necessariamente, a opinião da Revista O Grito!

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