Final do desfile de Bruno Olly no DFB: marcas retornaram com um olhar bastante criativo para técnicas artesanais. (Divulgação).

DFB reforça personalidade da moda autoral e feita à mão

Com destaque para o uso criativo das técnicas artesanais, marcas do DFB refletiram sobre o mundo pós-pandemia e apostaram em looks marcados pela liberdade. Entre os nomes que desfilaram estão David Lee, Almerinda Maria, Lindebergue, Kallil Nepomuceno e Marina Bitu

De Fortaleza

Fotos por Roberta Braga e Claudio Pedroso/Divulgação

Quando a primeira modelo despontou na passarela da sala de desfiles do DFB, com seu passo sincronizado às luzes que se acendiam à medida em que avançava, estava claro de como a relevância do evento estava mantida passados dois anos de edições online por conta da pandemia da Covid-19. Montado no Aterro da Praia de Iracema, a estrutura do festival com 30 mil metros quadrados abrigou ao longo de quatro dias diferentes atividades, como shows, feira e exposições que orbitavam ao redor da força-matriz do Dragão Fashion Brasil: a moda autoral.

Ao longo de mais de 20 anos, o evento conseguiu articular a celebração do trabalho criativo dos estilistas com a promoção da indústria, sobretudo a têxtil, da qual o Ceará é um dos principais polos. A volta do DFB acaba mobilizando toda uma cadeia que utiliza o evento como sua principal vitrine, como atestam os mais de 40 expositores e os estandes com representantes de cada estado do Nordeste.

Lindebergue Fernandes, veterano do evento, refletiu sobre o mundo pós-pandêmico. (Divulgação).

O trabalho artesanal também ganha destaque no evento, da crochê à renda, passando por diversas outras técnicas, como o macramê. O artesanato surge aqui deslocado do lugar do exótico, daquele olhar condescendente que acaba por diminuir sua potência enquanto arte viva. É impressionante ver o que uma marca jovem como David Lee faz com o crochê, por exemplo. Ou mesmo trabalho meticuloso que a Almerinda Maria faz com a renda e a renascença em vestidos para a noite.

Há também espaço para experimentação, que neste ano foi encabeçado por projetos que utilizaram a proposta da moda circular, como os looks sustentáveis da Enel, patrocinadora do evento, que realizou um desfile especial de moda upcycling com retalhos de fardamentos de seus funcionários. A mistura de texturas, com malhas de algodão, jeans e telas, muito usado em técnicos de energia, deu muito certo. Quem também se destacou pela ousadia nas misturas de técnicas foi a Sherida, marca que faz sua estreia no DFB. A estilista utilizou organza e richilieu, dois dos mais delicados elementos da moda, dentro de uma proposta urbana e praieira.

Destacamos nas galerias abaixo os destaques desses quatro dias de evento.

Alix

Depois de alguns anos de ausências, a marca Alix, de Alix Pinho, fez sua reestreia no DFB com um desfile que misturou rendas e crochês, tudo feito à mão. A coleção propôs novas ideias para as duas técnicas e chamou atenção sobretudo pelo caimento pouco usual para esses materiais.

Enel Upcycling

Em parceria com a Enel Brasil, o evento recebeu um desfile de moda Upcycling, com peças confeccionadas a partir de materiais reaproveitados. Muitos dos tecidos remetiam às fardas usadas por técnicos de manutenção de energia. Feitas especialmente para o evento, as roupas ficaram expostas no dia seguinte ao desfile no pavilhão do DFB.

Rio de Jas

Celebrando 10 anos de história, a marca Rio de Jas, de Mariana Lima e Sara Brasil, trouxe uma coleção de moda praia que ficava entre o fast fashion acessível e o exuberante, tudo com uma pegada artesanal bem marcante.

Sherida

Com um trabalho altamente pessoal, a estilista Sherida Livas faz sua estreia no DFB com uma coleção que reforça seu amor pelo sol e mar. Foi um desfile cheio de positividade com estampas que lembram ondas, bastante referências de surf e bastante uso do richelieu. As peças chamam atenção pela mistura inusitada da estética surf/praia com a sofisticação da alfaiataria.

Almerinda Maria

Inspirado em Maria Antonieta, Almerinda Maria mais uma vez deixou a plateia atônita com seu uso criativo da renda, uma alta-costura feita com muita delicadeza e personalidade. Além das rendas como renascença e os bordados richilieu, Almerinda este ano usou tecidos como linho, organza, seda e zibeline, o que trouxe um tom de realeza ainda mais acentuado.

Manuel Bessa

Manuel Bessa foi mais um estreante desta edição e fez uma coleção muito marcada pelo uso versátil do jeans, do artesanato local e cortes que chamavam atenção (como as saias desconstruídas).

Bruno Olly

Nome revelação do DFB, o piauiense Bruno Olly chega ao seu segundo desfile propondo uma moda masculina livre de estereótipos e altamente pessoal. Com o título de “Não Existe Paraíso”, a coleção foi toda pensada para repensar padrões – e isso inclui o uso de materiais que refletem a nossa necessidade de mudar os ditames rígidos da vida. Temos peças de jacquard e brins misturados aos livres moletons, crepes e canelados que representam fluidez e movimento.

Vitor Cunha

Novo nome da moda autoral brasileira, Vitor Cunha chega ao seu segundo desfile com uma coleção que representa a transformação. Usando o conceito mitológico e estético da libélula, ele trouxe peças exuberantes que utilizam um misto de modelagens justas e oversized com utilização de tecidos como crochê freeform e reinterpretações de macramê.

Sand Blue

Trabalhada no conceito do ecodesign, a coleção da Sand Blue utilizou materiais oriundos de resíduos e também jeans sustentáveis, ou seja, sem uso de água (são lavados a seco, com ozônio). Foi uma coleção muito versátil, pensado para atender diferentes estilos de looks.

Vi Lingerie

A Vi Lingerie é uma marca veterana, com mais de 30 anos, mas que faz sua estreia no DFB. Em um estado marcado pela força de sua modelagem e produção de tecidos, um desfile de lingerie fez muito bem ao evento. E o que vimos nas passarelas foi uma marca muito inovadora, que olha para este mercado com muita maturidade, diferentes tipos de peça e propostas.

Lindebergue

Um dos nomes mais importantes do DFB, Lindebergue novamente fez jus ao frisson que cada desfile seu provoca. A sala do evento estava lotada e era possível sentir no ar a energia de alta expectativa que o estilista emanava. Sua coleção veio novamente cheia de significados e sentidos e trouxeram looks que representavam o momento de transição vivenciado pelo Brasil hoje, saindo do contexto pandêmico. Na primeira parte do desfile, os modelos entraram meio sorumbáticos, lentos, em peças em que predominava o preto e o dourado. No segundo momento, mais solar, os looks refletiam a esperança de um novo momento. As peças traziam crochê e composições de tule, que homenagearam às mulheres, em diversos padrões estéticos, e ainda destinou espaço para personalidades queer e drag queens.

Ivanildo Nunes

Batizada de “Com Elas”, a coleção de Ivanildo Nunes, outro nome de peso no evento, fez uma homenagem ao trabalho artesanal das artesãs. As peças ostentaram muito crochê, rendas bilro, richilieu e renascença, além do bordado. Tudo feito por comunidades artesãs do interior do Ceará.

Banana Urbana

Novidade deste ano, a Banana Urbana marcou o retorno do co-criador do evento, Josenias Junior, ao DFB. O estilista estreou a coleção “Banana da Terra”, preenchida por peças de estética tropical e com a cor amarela como grande protagonista.

Hand Lace

Edina Moreira, fundadora da marca, se inspirou nas memórias de sua infância em Irapuã Pinheiro, no Sertão do Ceará. As peças trouxeram tons ocre, marrons e vermelhos que remetem à produção de tijolos de barro.

David Lee

Um dos nomes mais aguardados deste ano, David Lee, consagrado através do DFB, uniu a arte plástica de Narcélio Grud à sua criatividade surrealista para a coleção “Aurora”. O cearense homenageou a Terra do Sol com peças de tons quentes em crochê, sarjas, tricoline, algodão e moletom, junto a acessórios leves e criativos.

Theresa Montenegro

Outra boa estreia do DFB este ano foi a coleção “La Nuit”, de Theresa Montenegro. Com uma atmosfera romântica, a estilista propôs looks para a noite com muita personalidade. Vidrilhos, canutilhos, miçangas, cristais e strass foram aplicados em tecidos que vão do crepe ao tule, passando pelo cetim de seda e zibeline para criar peças exclusivas. Metal e acrílico também marcam presença.

Kallil Nepomuceno

Veterano do DFB, Kallil Nepomuceno imaginou o retorno ao mundo pós-pandemia com uma coleção cheia de cor e marcada por seu estilo inconfundível, de muita exuberância, volume e fluidez. O estilista se inspirou no trabalho gratuito realizado pelo Hospital de Olhos Caviver com crianças e por isso as peças traziam muito um simbolismo do “enxergar de novo”. Na passarela criações femininas e masculinas que passeiam dos tons sólidos, monocromáticos e clássicos às estampas 3D colors que destacam o verde, o azul, o laranja, o fúcsia, o limão siciliano, entre outros, além de peças mais encorpados de alfaiataria a tecidos leves, como a seda pura e o tule.

Ole Rendeiras – Catarina Mina + QAIR Brasil

O projeto Olê Rendeiras trouxe criações que evidenciaram a renda de bilro, técnica criada e mantida por artesãs de Trairi, no Ceará. As peças foram feitas em parceria com Catarina Mina, marca que tem Celina Hissa como diretora criativa e a QAIR Brasil, empresas de energia renovável.

Sau Swin

A marca Sau Swin retorna com uma coleção inspirada pela fluidez das águas em uma proposta de moda praia bastante criativa.

Rendá

Idealizada por Camila Arraes, a Rendá trouxe uma releitura artística e poética com uma coleção feita inteiramente de renda.

Marina Bitu

A marca Marina Bitu trouxe à passarela a coleção Octopus, que retratou a ligação da figura feminina com o oceano. As peças trabalham a proposta do slow fashion, ou seja, roupas duráveis feitas em baixa escala e que se caracterizam pela qualidade manual. Entre os destaques estão serigrafias que brilham no escuro, muitos looks plissados em formato de concha e coral e paetês que remetem às escamas de peixes.

Baba

A marca Baba transportou o público para o outro mundo com uma coleção inspirada na ufologia e no espaço sideral. As novas estampas combinaram totalmente com o DNA da marca, muito marcado por uma atitude urbana, mente aberta e contestadora.

Senac Richelieu por Ivanildo Nunes

Criar peças sofisticadas com técnicas tradicionais foi o desafio da coleção de Ivanildo Nunes para o Senac. Ele fez um trabalho muito bonito em richilieu executado por 15 artesãs especializadas nesta técnica em Maranguape, no Ceará.

  • O jornalista viajou a convite da organização do festival.

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