Dias de Orwell

Biografia em quadrinhos do autor de 1984 e Revolução dos Bichos traz para a nossa intimidade um dos autores mais importantes do século 20

Dias de Orwell

Biografia em quadrinhos do autor de 1984 e Revolução dos Bichos traz para a nossa intimidade um dos autores mais importantes do século 20

Dias de Orwell
4

1903: Orwell
Pierre Christian e Sébastien Verdier
Darkside Books, 160 páginas, R$ 84,90, 2022
Tradução de Aline Zouvi

Certamente, você já ouviu falar no escritor inglês George Orwell. Ele é o autor de uma das obras mais importantes da literatura universal: 1984. O livro, publicado em 1949, é um romance distópico ambientado num futuro próximo em uma sociedade tecnológica onde o autoritarismo e a vigilância sobre os seus cidadãos garantem a sobrevivência de um regime totalitário e opressor. Orwell é também autor de outra obra marcante e incontornável: A Revolução dos Bichos, romance satírico sobre um grupo de animais que resolve se rebelar contra o dono da fazenda onde vivem, mas que, na verdade, é uma fábula sobre o poder. Bem menos gente, porém, sabe que Orwell, um dos mais inteligentes e perspicazes autor do século 20, chamava-se Eric Arthur Blair, nasceu na Índia e teve uma vida bastante atribulada. Chegou a hora, portanto, de conhecer um pouco mais sobre esse personagem tão fascinante, agora acessível aos leitores brasileiros, com a HQ 1903: Orwell, dos franceses Pierre Christin e Sébastien Verdier, cuja versão traduzida acaba de ser lançada pela Darkside. 

Biografia é um tipo de narrativa arriscado, sobretudo se for de gente famosa. Na literatura há obras monumentais, fruto de anos de pesquisas, capazes de render ao biografado um retrato honroso de sua existência. A biografia do escritor Oscar Wilde, feita por Richard Elmann e que levou cerca de 20 anos para ser elaborada é um bom exemplo. Nos quadrinhos, felizmente, temos também um número bem significativo de personagens que tiveram suas vidas contadas por roteiristas e desenhistas cuja habilidade e talento oferecem uma experiência singular para este gênero de história, basta lembrar de Maus: A História de Um Sobrevivente, de Art SpielgemanPersépolis, de Marjane Satrapi, Marx: Uma Biografia em Quadrinhos, de Corine Maier e Anne SimonFun Home: uma tragicomédia em família, de Alison Bechdel e a brasileira Angola Janga, de Marcelo D’Salete.

A obra segue um estilo clássico com cenários realistas e sobriedade nos traços.

Nesse contexto, 1903: Orwell cumpre seu papel. É um trabalho cuidadoso tanto do ponto de vista da pesquisa quanto no esmero visual. O roteirista Pierre Christin apoiou sua narrativa na biografia de Bernard Crick, George Orwell, A Life, nos diários do próprio Orwell, em artigos publicados em diversos jornais e revistas como o The Guardian e a New Yorker, nos estudos sobre o autor e sua obra realizados na França, além de fotos e filmes. Dessa forma personagens e acontecimentos marcantes da vida de Orwell vão desfilando diante do leitor revelando um homem que se confrontou de corpo e alma com as questões sociais e políticas de seu tempo e teve sua vida íntima marcada por elas.

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Embora na juventude tenha estudado numa escola da elite, o Eton College, onde foi aluno do escritor Aldous Huxley – autor de Admirável Mundo Novo –, Orwell morou em diversos países e teve experiências singulares: foi policial na Birmânia, levou uma vida boêmia em Paris, onde trabalhou na cozinha de um hotel de luxo,  viveu como um sem-teto morando em abrigos em Londres, se aproximou dos operários das minas de carvão do norte da Inglaterra e foi para a Catalunha lutar, ao lado de militantes de um partido marxista-leninista, contra as forças de Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola, onde foi gravemente ferido com um tiro que atravessou-lhe o pescoço. Todas essa vivencias resultaram em livros como Dias na Birmânia e Na Pior em Paris e Londres e encaminharam Wells para o jornalismo.

O álbum apresenta detalhes da vida íntima de um dos mais importantes escritores do século 20. (Divulgação).

Para ilustrar a vida e obra de Orwell, Christan e Verdier foram hábeis na construção da narrativa gráfica, mesclando a trajetória do Orwell escritor com os episódios da sua vida cotidiana, destacando seu apreço pela jardinagem, suas relações afetivas, e a luta contra tuberculose contraída em 1929, doença que acabou levando-o à morte em janeiro de 1950, aos 46 anos.

Visualmente, 1903: Orwell, é uma obra que segue um estilo clássico com cenários realistas e sobriedade nos traços. Dois elementos adotados pelos autores resultam em um efeito estético que valoriza a estrutura dramática por eles empreendida. Uma delas é o uso de trechos das obras de Orwell, tal e qual aparecem em seus livros, pontuando o quanto de sua existência e de seus ideais foram essenciais para tornar o escritor não apenas uma referência da literatura do século 20, mas também um homem que, por suas análises e interpretações, influenciou a cultura contemporânea até os dias atuais. 

Os autores convidaram desenhistas para ilustrarem alguns trechos da HQ. (Divulgação).

O outro recurso estilístico é a participação de desenhistas convidados pela dupla para ilustrar pontos que demarcam o percurso de Orwell. As ilustrações em cores que vão aparecendo no decorrer da HQ, com a visão pessoal de cada artista, provocam ao mesmo tempo encantamento e a percepção da grandeza da obra orwelliana, a qual, mesmo intrinsecamente ligada às suas convicções pessoais, aponta para uma compreensão do mundo lúcida e coerente.

Não é difícil perceber que tanto Verdier quanto o veterano Christan, premiado em 2019 no Festival de Angoulême por seu álbum autobiográfico Est/Ouest e pelo conjunto de sua obra, compartilham das convicções do seu biografado. Verdier inclusive é o ilustrador da edição do romance 1984, publicado também pela Darkside e lançado em abril último. Ler essas duas obras é, portanto, uma boa oportunidade para mergulhar no universo deste escritor emblemático e profeta dos tempos modernos.  

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