Estudante do curso de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Thor de Moraes Neukranz teve o seu filme selecionado para 17ª edição do Festival Brésil en Mouvements, em Paris, na França. O evento será realizado de 1º a 3 de outubro. O documentário também foi selecionado para o First Nations Film and Video Festival, em Chicago, nos Estados Unidos, que ocorrerá de 1º a 10 de novembro. O trailer pode ser conferido neste link.

O filme do jovem é ambientado em Água Fria, bairro da periferia do Recife, onde o estudante vive, e conta a trajetória da sua avó, Luzinete Lupercina. Ao longo de 25 anos, por meio de arquivos que trilham um caminho de memórias de 1995 até os dias de hoje, durante a pandemia, quando a obra foi produzida. “Meu objetivo era estender e divulgar a história dessa mulher, uma matriarca de Água Fria, fato raro da gente ver no cinema esse povo preto, pardo, pobre, da classe trabalhadora”, detalha o diretor.

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A produção faz parte do seu trabalho de conclusão do curso. “Mesclo estéticas do VHS, DVD e Full HD. Para quem assiste ao filme, mostro essa mudança de tempos, estética e sonora”, revela Neukranz. O estudante está realizando uma campanha de financiamento coletivo com o objetivo de participar, de maneira presencial, da sessão do filme em Paris.

Em 2014, passou a integrar o Coletivo Antiproibicionista de Pernambuco, grupo responsável pelo cineclube itinerante THCine. A atuação junto ao Coletivo o levou a imergir cada vez mais no mundo do audiovisual. O jovem, além de realizar cursos diversos no ramo da produção audiovisual, era responsável pelas análises de documentários para a curadoria do cineclube. No ano de 2017, Thor ingressou no curso de cinema da Universidade Federal de Pernambuco, tendo antes passado pela Uniaeso, mesmo ano em que outro projeto seu, o documentário Dibuiar foi selecionado em festivais internacionais.

Batemos um papo com a respeito de , seu processo criativo como diretor, a relação com avó, inspirações na sétima arte e seu sonho de estar  presente na sessão que exibe o filme em Paris. Confira:

Como nasceu o interesse de produzir um filme para abordar a sua avó?

Desde que comecei a estudar cinema, vários familiares começaram a fazer pressão pra que eu fizesse um filme sobre a família. Um tio queria uma ficção com as pessoas mais jovens interpretando parentes que já morreram. Outro me sugeriu contratar um desenhista para ilustrar as memórias da minha avó. Entre essas tantas ideias e pressões, quis fazer o meu próprio filme. Mergulhei no material que a gente já tinha, dos quais as filmagens mais antigas são de 1995 – aniversário de 59 anos da nossa matriarca –, a protagonista do filme. Esse material de arquivo foi a base. Selecionei ainda um material de 2005, que marca fortemente essa passagem do tempo: dez anos depois, as expressões faciais, o corpo e toda essa mudança, tanto da minha avó, quanto de outros personagens ao redor, especialmente do meu primo Wellton, que tinha nove anos. No trecho de 2005 ele tem 19 anos e canta uma música que fez pra ela. Isso é muito marcante e ele reaparece no trecho de 2020. Para quem assiste, fica muito clara essa passagem do tempo, tanto pela estética audiovisual, quanto pela feição desses personagens que mudam muito. Minha vó vai ficando muito mais velha, já que no final da obra ela tem 85 anos e no começo 59. Meu primo Wellton era uma criança no começo, depois um adolescente e no final já um adulto com a barba grisalha. Esse interesse surgiu com pressão da família, mas segui meu próprio caminho, desconsiderando os interesses desses outros familiares. Um dos principais objetivos é difundir a história dessa mulher que amo, uma matriarca de 12 filhos e moradora de Água Fria. É raro de se ver no cinema o povo não branco, da classe trabalhadora, representado com respeito e afeto. Achei que tinha uma relevância muito grande, ainda mais diante dos fatos que são retratados, sejam os afetos e memórias ou os problemas.

Como diretor, qual tipo de relação você estabelece com ela?

Preferi não informar pra a minha família, inclusive a minha própria avó, que estava desenvolvendo esse trabalho e filmando com esse objetivo. Esse jogo entre diretor e personagem foi muito mais a relação entre neto e vó. Quem assiste tem acesso a uma intimidade muito maior. Uma proximidade no trato quando a chamo de “vovó”, “vovozinha”, ou quando ela fala “meu netinho querido”, “meu amor”. Um elo pessoal que está presente nos registros e que vejo como mais um ponto positivo para o filme. Um diálogo  franco e aberto. Até para quem acompanha se sente tocado pois estão na tela as expressões e modos de lidar que são realmente honestos. O público, quase sempre, já teve ou tem esse tipo de relação, de proximidade e de afeto com seus próprios parentes. Ao longo das gravações nossa relação foi menos profissional, rigorosa e séria, e muito mais de carinho, afeto e amor.

Você é filho de um imigrante alemão branco e de uma brasileira preta. De que forma esses contrastes sociais e raciais marcaram a sua vida?

O fato de ser filho de um imigrante alemão branco marca muito a minha vida pois é uma visão mais externa do que interna. Quem vem de fora para viver no Brasil tem um olhar mais crítico, percebe claramente os problemas, aponta e não naturaliza, como normalmente o brasileiro faz. O fato dele ser branco fez com que estivesse em espaços que eu era a pessoa de pele mais escura, quem se parecia comigo nos espaços em que eu estava eram os motoristas e os garçons, por exemplo. Achei isso sempre muito estranho. Enquanto criança tinha aquela inquietação e depois como adolescente começava a entender melhor, mas ainda sem compreender plenamente. Só depois da morte do meu pai, em 2012, que passei a estudar melhor Sociologia, Filosofia e História e com isso ter mais fundamentos críticos para observar e poder criticar a sociedade em que a gente vive. Esses contrastes de cores e classes sempre foram marcantes: a minha mãe é uma brasileira preta de origem popular e trabalhadora. Essa dualidade esteve muito presente na minha vida.

Muitos diretores tem uma linguagem de criação muito específica. Você tem alguma que você use para criar? Quais técnicas e estéticas audiovisuais você utilizou na obra?

Estudei várias áreas como Turismo, Direito, Engenharia Agrícola e Ambiental na UFRPE. Já tinha 24 anos quando decidi fazer cinema e fui me desenvolvendo a cada nova experiência. Acredito que esse processo seja eterno. Enquanto eu estiver vivo vou estar aprendendo, mudando e aperfeiçoando a minha linguagem de criação. Quando entrei no curso de Cinema da UFPE eu tinha uma visão de que era fundamental ter uma técnica cinematográfica perfeita. Que deveria fazer um filme com a mesma câmera para manter uma certa estética padronizada. Um dos ensinamentos mais fortes que aconteceu no curso foi uma quebra dessa ideia fixa. Através do estudo vi que não era por aí. Me interessa também o ruído, seja sonoro ou visual, pra mim, isso soma. Quando se tem um vídeo de baixa resolução, ele depõe sobre quem está filmando. Essa visão passei a ter depois de estudar, especialmente na disciplina de Cinemas Expandidos, lecionada brilhantemente pela professora Ângela Prysthon. Foi com ela que me senti extremamente livre para experimentar, misturar estéticas e, no trabalho final dessa disciplina, foi que nasceu a semente do filme Elos da Matriarca. No doc mesclo estéticas: do VHS passando pelo DVD até o Full HD. A obra serve para mostrar que é possível produzir com pouco. Filmei todas as cenas de 2020 com o meu celular comprado há dois anos, com tecnologia até ultrapassada e, mesmo assim, foi selecionado para festivais dos Estados Unidos, França e eventos importantes do Brasil, como o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, no Rio de Janeiro. Há uma lição de que não é preciso o equipamento ideal. Não precisa ser tecnicamente perfeito. Se esperarmos as condições ideias para realizar nossos desejos acabaremos frustrados. Muitas vezes a limitação técnica faz com que a gente utilize a nossa criatividade para substituir ou subverter. O filme tem muitas nuances a serem observadas e uma delas é essa superação diante das dificuldades técnicas e econômicas. Não tive nenhum centavo de dinheiro público ou mesmo de empresas privadas. Seres humanos gigantes que estivam na minha formação foram essenciais para o meu desenvolvimento. Além dos professores da UFPE, como Cris Teixeira, Laécio Ricardo, Camilo Soares, João Marcelo Ferraz  e Nice Lima. Há também amigos da área me abriram a mente com conversas e críticas. Falo de amigos como Herbert C. Silva, montador do filme e talvez meu maior parceiro profissional. Arthur Gustavo, um cineasta do subúrbio, como eu, com uma visão subversiva e enriquecedora. Aos familiares que amo, como meu irmão Hugo Leonardo e meu sobrinho Gabriel Neukranz. Devo meu crescimento no cinema a toda essa gente e muitas outras.

Quais são os processos, os elementos, as sensações e os sentimentos no geral que você sempre procura provocar quando dirige e/ou escreve alguma produção?

Não utilizo nenhum processo específico, ao contrário, me abro às possibilidades, sensações, à minha própria intuição, às provocações que recebo durante o andamento do desenvolvimento de um filme, seja dos personagens, seja dos colegas que estão junto comigo no trabalho. Acredito que funciona melhor assim pra mim, dá mais espaço para o que recebo dos outros, o que é dito. É assim que vou descobrindo os elementos e sentimentos que aquela obra vai provocar em mim ou quem vai assistir. Isso varia de acordo com cada trabalho. Às vezes, um documentário vai funcionar melhor dessa maneira, porém, uma ficção, um roteiro cinematográfico vai por um caminho diferente. Quando se está produzindo um roteiro sobre um determinado personagem é preciso adentrar naquele universo. É importante não só conhecer o personagem que vive um pouco daquela história, como ir no convívio dessas pessoas e desse local. Primeiro observar com atenção, depois levar para o texto do roteiro e, mais adiante, filmar.

Quais são suas principais referências no cinema?

Tenho muitas referências no cinema. Desde que comecei a estudar em 2014, tive alguns professores extraordinários, que me trouxeram luz. Nomes como o documentarista paulista Eduardo Coutinho (1933-2014), Yasujiro Ozu (1903-1963), que é um cineasta japonês do século passado. Ali vemos, por exemplo, como o Ozu trabalha a cinematografia dele, como usa o enquadramento; a forma como Coutinho escuta seus entrevistados e a forma como provoca seus personagens. Esses são dois nomes fortes, mas poderia falar do cinema contemporâneo de gente que tá viva e jovem como Gabriel Mascaro, cineasta pernambucano que faz trabalhos extremamente interessantes e provocativos, como quando ele trata as classes mais altas do Brasil em Um lugar ao Sol. Nesse documentário, ele entrevista proprietários e proprietárias de coberturas nas grandes cidades brasileiras. A cineasta alagoana radicada no Recife Nara Normande, que faz animação e muitas outras coisas também. Todas essas referências fazem que a gente enriqueça nosso próprio trabalho. Se você trabalha como crítico – mesmo que você trabalhe isoladamente, que não divulgue esses textos – isso enriquece muito: observar o que se gosta e o que não. Esse é um exercício fundamental de se assistir e criticar e debater os filmes. Tenho muito privilégio de viver em Recife durante os últimos 30 anos e temos na cidade o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, que é barato e tem uma estrutura física e técnica muito boa e com preços acessíveis; e o Cinema São Luiz, que é um templo. Lá, vemos obras de grande qualidade que enriquecem o nosso repertório. Posso destacar também o Janela Internacional de Cinema, com apresentação de obras extremamente importantes do mundo e outras que estão começando carreira.

Documentário atravessa gerações da família do diretor. (Foto: Divulgação)

Qual a sua expectativa para a participação nos festivais nos quais o filme já foi selecionado?

A minha expectativa para o Festival Brasil em Movimento, em Paris, é extremamente alta no sentido do debate por que é uma reunião de mentes pensantes sobre o país. Lá teremos a presença de argelinos, marroquinos, franceses, colombianos, chilenos, enfim, pessoas de todo lugar do mundo, que têm interesse no Brasil. Muitas vezes, são estudiosos, pessoas quem fazem mestrado, doutorado, PhD na Sorbonne Université, e vão para lá pra discutir esses filmes. Estou esperando receber essas críticas dessas pessoas e, assim, compreender mais sobre o meu trabalho e meu próprio país. O acontece na periferia do Recife, no Brasil e estamos falando não só de Pernambuco, a gente tá falando do Brasil ou ainda de países chamados de nações em desenvolvimento. Acho que é um filme que vai tocar e emocionar e fazer refletir pessoas de qualquer lugar do mundo. Minha expectativa é de ouvir essas provocações e colocações de gente tão diversa e, assim compreender melhor o meu próprio trabalho, a mim mesmo, minha própria família e meu país. É assim que a gente se conhece também, a nossa própria história e consegue, a partir disso, seguir adiante.

Você integra o coletivo Antiproibicionista de Pernambuco, grupo responsável pelo cineclube itinerante THCine. Qual importância de debater  discursos de resistência sobre a Política sobre Drogas no Brasil?

O coletivo Antiproibicionista de Pernambuco é o que faz a Marcha da Maconha – que diferente do que muita gente pensa – é um movimento extremamente politizado extremamente com e vai para ruas contra o genocídio que acontece contra os pretos e pobres do Brasil, né? Então, esse grupo atua de formas e uma delas é com o cineclube Itinerante THCine. A iniciativa leva essa discussão sobre a política de drogas brasileira, que mata tanta gente assim para comunidades para cidades da Periferia do Recife como Moreno, Paulista e Olinda. Já aconteceu THCine em Caruaru, então me senti útil ao ver pessoas assistindo documentários como Cortina de Fumaça, filme dirigido pelo carioca Rodrigo Mac Niven, e depois discutindo isso no coletivo e mudarem de opinião. Passarem a ser, por exemplo, a favor da legalização da maconha, contra a criminalização das drogas porque notaram que essa prática provoca muito mais mortes do que as próprias drogas. É um espaço fundamental de existir,  ampliado e discutido, mas diante da pandemia, as sessões presenciais pararam. As pessoas são conscientes e, assim como a Marcha da Maconha também não aconteceu em 2020, mas está se organizando e estou vendo a vacinação avançando, acredito que, no próximo ano, já poderão acontecer tanto a Marcha, quanto o cineclube, com exibição de produções brasileiras para essa política de drogas racista e assassina. Já tive amigos de infância que foram mortos em Recife, em Água Fria, onde eu vivia, por causa da violência das drogas e da criminalização do povo preto, isso não pode ser banalizado.

Luzinete Lupercina é a protagonista da obra. (Foto: Divulgação)

Você tem desejo de estar presente na sessão e cerimônia em Paris com seu documentário, lançando uma campanha para financiamento coletivo. Quem quiser participar, como deve proceder?

Tenho certeza de que vou estar nessa sessão. Tem uma onda positiva acontecendo, que é uma coisa que vi pouquíssimas vezes na minha vida. Uma centena de pessoas já doaram pra essa campanha pra que eu pudesse estar presente. A gente já arrecadou mais de R$ 8 mil. Quem quiser ajudar e contribuir é só ir na página do Instagram.  E isso vai fazer com que consiga levar esse filme dessa matriarca de Água Fria de 85 anos para ser debatido em Paris, discutido por mentes pensantes de todo o mundo e, a partir disso, ir para outros lugares, em trabalhos acadêmicos, em outros continentes. É muito importante a presença de um diretor quando o filme é mostrado justamente por essa discussão após a sessão, uma das marcas mais importantes do festival. As pessoas estão colaborando não só com dinheiro, mas com palavras positivas, incentivo, apoio, vindo de gente do Brasil e de fora. Colaborem e façam parte dessa onda positiva maravilhosa!

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