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Em Top Gun: Maverick apenas Tom Cruise basta

Em um fiapo de trama, novo longa da franquia chama atenção pelas cenas de ação, mas trata-se de um trabalho confortável e previsível apoiado apenas no carisma do seu "movie star"

Em Top Gun: Maverick apenas Tom Cruise basta
2.5

Top Gun: Maverick
Joseph Kosinski
EUA, 2022, 2h11, 14 anos. Distribuição: Paramount Pictures
Com Tom Cruise, Jennifer Connely
Em cartaz nos cinemas

Rostos que marcam, pertencentes a uma espécie em extinção de star system, esquema imperioso na era de ouro de Hollywood, entre as décadas de 1930 e 50, quando atrizes e atores eram os responsáveis pela tração, engajamento e chamariz para os filmes da época, estritos a contratos exclusivos com os onipotentes estúdios de então. O consumo de audiovisual e a relação entre espectadores e as salas de cinema mudou radicalmente nos últimos anos, mas temos alguns exemplos reminiscentes daquilo que se pode chamar de movie star, estrelas do entretenimento que ainda impactam e geram repercussão apenas por estamparem e protagonizarem produtos e obras cinematográficas. Tom Cruise, de certo modo, se encaixa neste perfil, do astro hollywoodiano, a partir de seu semblante ainda familiar a todos, mesmo que mais enrugado (mas nem tanto, pois os homens da indústria cinematográfica, principalmente a americana, também fazem uso em demasia de procedimentos invasivos, como aplicação de botox e plásticas; mesmo que as mulheres ainda sejam as principais atacadas pelas intervenções estéticas). Ou seja, um filme estrelado pelo ator não precisa de muito além disso, o seu nome já bastaria, e tem bastado. Sendo assim, não é de se espantar que Top Gun – Asas Indomáveis (Top Gun, 1986, dirigido por Tony Scott), produto-sensação de seu ano de estreia, tenha uma premissa simples e fraca, um fiapo de narrativa, sendo esta não tão relevante no esquema geral, quando o que importava era um veículo apetitoso, envolvente e atraente, que catapultasse e fosse responsável pela ascensão do então jovem e estreante Cruise. O sucesso de bilheteria e produtos associados, como a trilha sonora, que falaremos um poucos depois, acabaram por colocar Top Gun em um certo panteão das produções oitentistas, uma referência fácil e constante quando se pensa e organiza um resumo de sucessos comerciais deste período. Assim, uma continuação para o filme original sempre foi considerada, mas sem conseguir se concretizar de fato.

Eis que, trinta e seis anos depois, chega aos cinemas, nesta quinta-feira, 26, a demorada e esperada (será?) sequência do longa original, intitulada Top Gun: Maverick (2022), de Joseph Kosinski. Uma breve recapitulação acerca do primeiro filme: lá, tínhamos jovens aprendizes e pilotos integrantes de uma escola de caça da marinha, local este chamado de Top Gun, do título, onde apenas os melhores membros podiam participar. Pete Mitchell (Tom Cruise), conhecido com o codinome de Maverick, vive experiências e um amor intenso neste ambiente de aviões, mar, estradas vazias e baladas pop românticas. 

Este novo filme traz de volta o, até então, aposentado Maverick para lidar com uma nova missão, o colocando de volta à escola que o formou, sendo que agora em um cargo de professor, liderando assim uma jovem equipe de pilotos. Mais uma vez, temos um fiapo de trama, o que por si só não é um problema, mas talvez esta continuação se leve a sério demais, tentando dar gravidade e importância a um universo cinematográfico que em sua gênese foi forjado na base da superficialidade cosmética de uma experiência maior da cultura pop vigente na época, responsável pela ode ao consumo, aos clipes da MTV e ao otimismo da era Reagan.

Jennifer Connelly faz o que pode, mas a relação do par romântico no filme é pouco desenvolvida. (Divulgação)

Em Top Gun as cenas de ação eram mais confusas e videoclípticas, e os conflitos enfrentados por Maverick fracos e risíveis. O personagem simplesmente se movia pela sua capacidade de desobediência, nunca sendo penalizado de fato pelos seus atos. Era uma espécie de rebeldia perfumada, de boutique, tendo os acontecimentos criados pelo protagonista pouca ou nenhuma consequência real; mas por que teria? Sendo Maverick um homem branco, hétero, cisgênero, americano, militar e contemporâneo a um Estados Unidos entorpecido pela ressaca da década de oitenta, não haveria, assim, motivos para limites. Já em Top Gun: Maverick, há a tentativa de uma atmosfera mais verossímil, “realista”, com um inimigo mais palpável, com uma ameaça mais iminente; apesar de no filme não serem mencionados países em específico, mas apontados como “fora da OTAN”, entidade esta protegida pelos pilotos da escola naval americana.

Tudo fico mais esquisito quando se vive em um mundo “real” em que uma guerra declarada entre a Rússia e “nações aliadas” lideradas pelos norte-americanos segue acontecendo no desenrolar de nossos dias. Mesmo sem citar nomes, parece que aqui a referência acaba relembrando e remetendo aos antigos e conhecidos vilões de costume, da União Soviética, dos tempos da Guerra Fria. A maior qualidade, sem dúvidas, de Top Gun: Maverick acaba sendo suas cenas de ação, muito bem coreografadas, montadas e arquitetadas. Nesta nova aventura o espectador consegue acompanhar aquilo que acontece na tela, sem ficar perdido, como tem sido de costume em muitas produções de ação recentes. No original as batalhas eram mais fragmentadas, pequenas missões em um todo; já aqui é colocada uma única missão, fazendo com que a sua presença se sinta mais orgânica e aceitável ao longo do filme.

Mas se em Top Gun: Maverick o sucesso da execução de sequências de ação dá vida ao enredo e êxito ao filme, como um todo, não se pode falar o mesmo em relação aos outros componentes da produção, como o par romântico de Maverick, neste aqui interpretado pela sempre excelente Jennifer Connelly, que faz o que pode com uma personagem pequena; a relação dos dois é pouco desenvolvida e ainda embalada por uma música-tema fraca. O verdadeiro legado de Top Gun e a marca indelével que ele deixou na cultura pop pode ser apontado a partir de alguns elementos, passando, com certeza, pela trilha sonora excessiva e sua composição repleta de sintetizadores; chegando na artificialidade da fotografia e sua cor carregada e contrastada, e atingindo, também, os cortes rápidos e farsescos das sequências de ação.

Mas, sem dúvidas, se há um signo que sintetiza toda a aura e atmosfera do primeiro filme ele é materializado por meio da balada “Take My Breath Away”, hit absoluto de 1986, interpretada pelo grupo Berlin e produzida pelo gênio inconteste das frivolidades da época, Giorgio Moroder. Em Top Gun: Maverick existe uma vontade de reproduzir algo parecido com o que aconteceu no original, ao recrutarem ninguém menos que Lady Gaga para entregar o dever de casa de compor algo semelhante ao hit absoluto de Moroder. Mas, diferentemente de lá, em que a música de Berlin estava presente ao longo de todo a projeção, seja em sua versão instrumental, seja na cantada, neste aqui a canção não exerce a mesma força, sendo relegada para momentos curtos da narrativa, em trechos curtos; e em sua totalidade de execução apenas no espaço seguro e pragmático dos créditos finais. 

Sendo assim, os dois filmes se complementam de alguma forma, pois onde a ação de um é fraca e a trilha sonora é forte, no outro acontece justamente o oposto. E apesar de sua aparência de “continuação desnecessária”, um filão cada vez mais robusto e presente em Hollywood, no final, a sensação ao assistir Top Gun: Maverick é positiva, a partir de um produto que conhece o seu material original, trabalha junto com ele, e traz ao centro referências, elementos e personagens em diálogo com a sua fonte principal. A embalagem é outra, menos excessiva e oitentista, mas o carisma de Tom Cruise e a boa cadência narrativa fazem deste novo filme uma ótima e direta viagem aos céus. Talvez não tire o nosso fôlego, como no passado, mas ainda faz respirar ofegantemente. Um trabalho comportado, comedido e sem pretensões maiores, dentro do cercadinho da previsibilidade e do entretenimento seguro e familiar de conhecimento de todos. 

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