Foto: Divulgação
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Artista plástico organiza ciclo de debates sobre sexo na arte contemporânea e comenta o que mais o excita

O artista plástico pernambucano Aslan Cabral lança nesta semana uma iniciativa ainda pouco explorada no mercado de arte contemporânea no Brasil: discutir os limites do sexo no trabalho de artistas.

O ciclo “Arte, Sexo e Sociedade” acontece do dia 15 ao dia 17 de maio no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), no Centro do Recife. De Marques de Sade ao Second Life, sempre existiu uma tentativa de incluir um tom erótico e sexual aos trabalhos. Mas, todos, em algum momento toparam com os tabus de cada época. O ciclo de pales­tras e deba­tes traz nomes como Claudio Assis, Karim Aïnouz, Julião Sarmento, Joana Gatis e Nanci Feijó.

Conhecido pelo tom “alegre” e de sexualidade exaltada, o Brasil ainda é muito careta, na opinião de Aslan Cabral. Além disso, o diálogo do sexo com as expressões artísticas atuais ainda é bem pequeno. “Comparada a importância do tema na vida dos brasileiros é algo quase nada representativo”.

Entrevistamos Aslan sobre o simpósio, mas ele comenta sobre temas bastante discutidos hoje como a homofobia cada vez maior de grupos conservadores, pornografia e ainda a excitação que lhe causa os grafiteiros.

Saiba mais detalhes sobre o simpósio e todos os convidades desta primeira edição.

Como está hoje o diálogo das artes visuais com o sexo (sobretudo no Brasil)?
Esvaziado. Claro que existem algumas pessoas que trabalham esse diálogo, mas comparada a importância do tema na vida dos brasileiros é algo quase nada representativo. Temos inclusive histórico de censura institucional bem recentes, confirmando suspeitas de que falar e elaborar sobre o sexo é tabú. Logo no Brasil! Imagina só?!

O Brasil cultiva essa imagem de país bastante liberal e sem preconceito, mas o sexo ainda é tabu em muitos lugares. Acha que o país está ficando mais careta?
Depende do Brasil que nos referimos. Ao mesmo tempo que vejo certos grupos alienados, caretas, vejo outros dispostos a participar, criar conteúdos diferenciados e disponibilizá-los em diversos circuitos. E é esse tipo de pessoa que está se inscrevendo para o simpósio. São tantas as incrições que tem horas em que o servidor cai!

Como você vê esse crescimento das forças conservadoras no Brasil hoje? Digo isso sobretudo em relação à homofobia de alguns políticos religiosos.
Nasci em uma família evangélica e conheço bem o assunto. Assim como os partidos políticos fazem alianças entre opositores e concorrentes para conseguir maior abrangência, articuladores políticos se aliaram às religiões fazendo disso um dos negócios mais lucrativos do Brasil, a corrupção política. Mais cedo ou mais tarde (espero que logo) isso deve ser enfraquecido, minado pelos próprios articuladores e suas ganâncias. Creio que o Brasil prospera em muitos pontos e não vai se transformar na Rússia, onde as paradas da diversidade sexual estão proibidas por 100 anos! Tenho participado de beijaços, campanhas, protestos contra homofobia e essa ideia de criminalização da heterofobia. Alguém já viu a notícia de algum homossexual que atropelou um heterossexual três vezes, ou que um grupo de homossexuais espancou um casal heterossexual?? Domingo eu beijei minha avó na boca e postei no Instagram! Ela mesmo, que um dia já teve lá seus preconceitos, acha um absurdo toda essa mobilização homofóbica. Espero que muitos sigam o exemplo dela e abram seus olhos, o mais rápido possível.

Sexo e arte digital também será debatido (Divulgação)
Sexo e arte digital também será debatido (Divulgação)

Como o sexo está presente no teu trabalho?
Latente. Esse simpósio é uma obra conceitual trabalhada por quase dois anos até sua apresentação e seleção em um edital. Além disso, falando em objetos e performances, tenho pinturas intituladas Relações secretas entre pigmentos e sêmen e uma performance que consiste em lamber um monitor plasma de 50 polegadas, enquanto o mesmo exibe imagens de foguetes e misséis sendo lançados. Além disso, a produção do simpósio me trouxe novas ideias. Aguardem as cenas dos próximos capítulos.

[Sobre a homofobia] Articuladores políticos se aliaram às religiões fazendo disso um dos negócios mais lucrativos do Brasil

Um dos debates do evento é sobre sexo digital. A internet mudou o modo como nos relacionamos?
A internet vem mudando sim, é fato. Mas ainda precisamos, público geral, dedicar maior tempo e inteligência para conseguir tirar maior proveito de nossas performance virtuais e o simpósio também vem falar sobre isso. Porque a internet traz à tona muita fantasia, e onde tem sexo também tem fantasia, liberdade, mistérios e muito desejo. Neste dia, sobre o sexo digital, teremos a presença de Janine Seus, recifense, ícone do Second Life que resignifica toda questão ligada à imagem do corpo e comercialização do prazer sexual. Designer e programadora, ela pagou a faculdade com o dinheiro ganho através de um avatar que trabalha como garota de programa na plataforma virtual. É imperdível!

dora longo bahia

Ainda existe o debate sobre erotismo e pornografia na arte?
Tem que existir mais. Existe pouco, mas pode ser maior. A ideia do simpósio é que tenha várias edições. Inclusive já tenho a lista dos debatedores da próxima edição pronta. Agarrei a causa e vai ser difícil largar, porque quando bate o tesão… (risos)

Que artista hoje te dá mais tesão? E o mais broxante?
Não gosto de falar de coisas broxantes (risos), mas os pixadores me dão muito tesão. Essas fontes incríveis e complexas, ilegíveis para a maioria dos que vêem aquilo pelos muros e prédios, esse anonimato e o ato de espalharem suas declarações sem serem vistos também me excita. Mas, acima de tudo o poder político de se fazer ser percebido em lugares estratégicos, ao céu aberto e com uma linguagem própria.

Acesse o site do simpósio: http://artesexosociedade.blogspot.com.br/

Veja a programação

Dia 15 de maio:
Exibição do pro­jeto Destricted.Br e bate papo com Claudio Assis , Lula Buarque de Hollanda e Tuca Siqueira

Dia 16 de maio:
Moacir dos Anjos ana­lisa as obras de Nan Goldin e debate com Janine Seus e Marina Pinheiro

Dia 17 de maio:
Debate com Nanci Feijó, Fernando Fontanella e Joana Gatis

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