Foto por Carolina Amorim.

A pandemia do novo coronavírus afetou não só o comportamento cotidiano das pessoas como também as formas de expressão artística. Com a música não é diferente. Ava Patrya Yndia Yracema Gaitán Rocha, mais conhecida como Ava Rocha, analisa este momento delicado a partir do olhar de quem vive de perto os caminhos da música. 

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Ava Rocha nasceu no Rio de Janeiro em 1979. Compositora, cantora e cineasta, ela dirigiu os filmes Dramática (2015) e Ardor irresistível (2011). Filha do cineasta Glauber Rocha e da artista plástica Paula Gaitán, é uma multiartista: já passou pelo teatro e atuou como VJ.

A carreira musical de Ava começou no início da década e, em 2015, lançou Ava Patrya Yndia Yracema, que recebeu o Prêmio Multishow daquele ano, nas categorias “Melhor Hit” e Artista Revelação”. À época, o álbum foi classificado como o quarto melhor daquele ano pelo crítico Ben Ratliff, do jornal The New York Times. E seu álbum segundo álbum solo, Trança é considerado um dos principais lançamentos de 2018.

De sonoridade próxima ao tropicalismo, Ava Rocha mistura MPB e grooves afros, amazônicos, poesia, distorções, suavidade e improvisos, com performance intensa, marcada pela voz rara, doce e poderosa. “Eu tenho um pensamento muito poético, e vou pensando sobre as coisas, o tempo todo, que viram palavras, ou ritmos, ou desejos”, conta.

Com lançamento duplo – internacionalmente pela gravadora americana Names You Can Trust e no Brasil pela YB – o mais recente trabalho de Ava é o compacto Sal Gruesa, que possui duas capas realizadas pela cantora e compositora. “Produzimos muito, muitos sons e músicas diferentes. Temos desde de experimentações a canções no material bruto que gerou o compacto”, detalha. 

O novo trabalho apresenta duas músicas em espanhol, de autoria de Ava: “Caminando Sobre Huesos” e “Lloraré, Llorarás”, com instrumentação e arranjos de Los Toscos e colaboração de músicos convidados: os colombianos Camilo Barltesman e Andrés Gualdron, além dos brasileiros Negro Leo, Thomas Harres e Gabriel Mayall. A produção e mixagem é de Benjamin Calais, quem convidou Ava, e também dono da emblemática casa de shows Matik Matik, em Bogotá, onde o álbum foi gravado.

Um trabalho latino-americano cheio de alma e alegria. Ava agora se prepara para o seu próximo álbum. Confira a entrevista concedida à Revista O Grito!

Em tempos de pandemia, como tem sido sua rotina? Qual forma tem realizado o diálogo com os fãs?
Eu tenho me cuidado, cuidado muito de minha filha Uma, que tem sete anos, e da casa. Então brincado muito, e lavado muito, cozinhado muito e também criado muito. Compus já umas 13 músicas, sozinha ou com parceiros, escrevendo, estou montando, sigo trabalhando no meu próximo disco, experimentando o universo das lives e lancei uns trabalhos e ainda pretendo lançar outros na medida em que forem ficando prontos.

Quando a música surge pra você e quando é que você se encontra com a voz? 
A música surge de muitas formas. Eu tenho um pensamento muito poético, e vou pensando sobre as coisas, o tempo todo, que viram palavras, ou ritmos, ou desejos. Então escrevo e musico ou escrevo e mando para algum amigo. Ou então fico no violão, no chocoalho, na vida procurando melodias, carências, sentimentos e viram música. Eu componho de qualquer jeito, sozinha, junto, andando, dormindo, brincando, botando minha filha pra dormir. Não tem limites pra criar, pra mim é um exercício de liberdade.

Ava à época do disco Trança (2018).

Você morou na Colômbia. De que forma influenciou sua formação?
Eu morei lá dos meus 14 aos 20 anos. Dos anos 1994 aos 2000. Influenciou de forma marcante porque eu tive uma adolescência muito ativa, sem internet, vivendo as ruas, a cultura local, não só vivia dentro das cinematecas vendo tudo da história do cinema como também lá comecei a fazer filmes com meus amigos e também com minha mãe que nos inseria em seus projetos. Tinha também uma revista cultural chamada Generacción de contracultura onde fizemos festas antológicas para financiá-la. E eu tinha uma vida noturna intensa também, dancei muita salsa, cumbia, vallenato. Enfim, foi uma adolescência muito ativa, muito rica, momento no qual eu vivi várias das primeiras experiências da minha vida.

Como funciona o seu processo criativo? Você tem composto agora nesse tempo de pandemia e isolamento social? 
Tem dias que não tenho tempo de criar, de parar, mas estou sempre pensando e, na medida em que eu posso, e luto por isso, estou criando, ou buscando me inspirar, lendo etc. Pra mim é um momento fundamental, de cura mesmo, o próprio ato de estar criando. E faço de uma forma muito livre, como mencionei acima. Eu sou permeada pela ideia de Hélio Oiticica que fala sobre estar em permanente estado de invenção.

Eu tenho um pensamento muito poético, e vou pensando sobre as coisas, o tempo todo, que viram palavras, ou ritmos, ou desejos.

Queria comentar sobre a influência do seu pai, Glauber Rocha. O que de mais forte você acredita ter herdado dele?
Acho que herdei a coragem, e a certeza de que o cinema, a arte, a vida possuem uma liberdade incapaz de encerrar-se em qualquer quadrado, permanecer em qualquer caminho único. Com meu pai compreendi a forte relação entre a política e a poesia.

Você já falou que leva elementos diferentes ao universo da sua música.
Tudo que for música, que for som, que for sonho, que for poesia, que for imagem, que for floresta, que for sentimento, que for natureza, que for ruído, enfim pra mim tudo isso é a própria música, o elemento digamos assim acho que sou eu, na música que faço.

Como foi planejada a sonoridade do de Sal Gruesa, em colaboração com o grupo colombiano Los Toscos? 
Não foi planejada. Tínhamos um plano que era nos encontrarmos e, a partir de imersões, tocar juntos, criar, descobrindo os caminhos de uma música que pudéssemos fazer juntos. Produzimos muito, muitos sons e músicas diferentes. Temos desde experimentações a canções no material bruto que gerou o compacto.

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