Autor construiu sua carreira em torno de pesquisas sobre o Oriente Médio. Foto: Renato Parada/Divulgação.

Entrevista: Diogo Bercito narra história de amor na São Paulo dos anos 1930 em “Vou Sumir Quando a Vela Se Apagar”

Com uma prosa cheia de lirismo, autor mistura mitologia árabe e reconstituição história para contar a história de um jovem imigrante gay sírio

Yacub e Brutus são dois amigos no fim da adolescência que vivem em um pequeno vilarejo na Síria em meio à ocupação francesa, na primeira metade do século 20. Em meio à dureza do trabalho diário nos campos e os encontros preguiçosos para fumar à sombra de uma árvore, a amizade entre os dois vai se desenvolvendo para sentimentos recém-descobertos, como o amor, o desejo e a cumplicidade. Brutus sonha em se mudar para o Brasil inspirado por um convite de um tio que emigrou para o país alguns anos antes. O sonho de mudar de vida e prosperar em uma terra desconhecida, mas cheia de oportunidades, é interrompido bruscamente por conta de uma doença. Para Yacub, porém, tal tragédia foi provocada por um jinni, um ser mitológico árabe que vive entre os limites do mundo, capaz de fazer o bem e o mal.

Decidido a não deixar o sonho do amigo morrer – e também determinado a encontrar o jinni que o levou precocemente – Yacub parte então para a efervescente São Paulo nos anos 1930, uma cidade em plena transformação que recebia diferentes pessoas de vários lugares do mundo. Este é o mote de Vou Sumir Quando a Vela Se Apagar (Intrínseca), romance de estreia de Diogo Bercito, jornalista e escritor com experiência na cobertura e pesquisa sobre o Oriente Médio. Ele é autor do livro Brimos, que reconta histórias de imigração de sírios-libaneses ao Brasil e sua influência na nossa sociedade (sobretudo na política). É também autor de duas HQs, Rasga-Mortalhas (com desenhos de Pedro Vergani) e Remy, com Julia Bax. Ele também colabora com a Folha de S. Paulo e a revista QuatroCincoUm, sempre com questões relacionadas aos povos do Oriente Médio.

“Estou obcecado por essa intersecção entre jornalismo, história e ficção, que são os três campos em que trabalho hoje. Cada um tem seus limites e suas possibilidades”, diz Bercito em entrevista à Revista O Grito!. O autor recriou de maneira impressionante a São Paulo dos anos 1930 e trouxe novos contornos a esse período histórico por reviver esse cenário a partir do olhar de um imigrante. “Alguns leitores têm me escrito sobre o impacto de terem lido um romance descrevendo São Paulo pelos olhos de um imigrante, e não de um nativo. Achei isso tão bonito”, diz o autor. Tudo no livro ressoa de maneira muito orgânica, com uma escrita subjetiva e lírica que carrega o leitor por cenários reais, mas também oníricos, a partir dos sonhos e pensamentos de seu protagonista, Yacub.

O amor entre dois homens é parte relevante do livro, ainda que seja reducionista reduzir a obra a um “romance LGBT”. Porém, imaginar a trajetória de um imigrante sírio gay é um dos destaques do livro, pois trata-se de algo ainda muito pouco documentado. “Mas era impossível contar a história de um sírio apaixonado por um outro homem nos anos 1930. Ninguém fala sobre isso, ninguém deixa rastros. Se eu não inventasse a história do Yacub, não teria como abordar essa faceta da experiência dos imigrantes sírios no Brasil.”

Segundo Bercito, o livro pode trazer uma maior conscientização do qual custoso é chegar a um lugar novo e, por isso, se conecta com questões atuais ligadas à imigração. “Eu tenho muita empatia pelos imigrantes, sejam aqueles de 1930 ou os de 2022. Empatia e gratidão, porque a cidade e o país seriam muito diferentes sem eles”.

Leia a entrevista com o autor:

A reconstituição histórica da São Paulo dos anos 1930 é algo que impressiona no livro. Como foi realizar esse trabalho de pesquisa e escrita? E o que te atrai nesse período específico de nossa história?

Essa foi uma das partes mais gostosas do processo de escrita do romance. Li livros e revistas da época, estudei mapas e fotografias, conversei com historiadores. Queria capturar a essência daquele período e alguns dos seus detalhes, mas sem sobrecarregar o leitor. O importante sempre foi o Yacub –– descrever a São Paulo dos anos 1930 pelos olhos dele, de um jovem sírio, e não a cidade que eu conheci um século depois. Eram um tempo e um lugar fantásticos, e isso me atraiu. Uma cidade povoada por estrangeiros, com uma imprensa poliglota. Crescendo como um cogumelo depois da chuva, como escreve o Nicolau Sevcenko no livro Orfeu Extático na Metrópole.

Em Brimos já vemos materializado o seu trabalho de pesquisa sobre a presença de sírios e libaneses na sociedade brasileira. Mas neste romance há um trabalho ainda maior pelas nuances de construção de uma narrativa ficcional. Como foi o processo de construção dessa trama? Você já “convivia” com esses personagens por muito tempo?, como se deu esse trabalho criativo de unir suas pesquisas com a ficção?

Estou obcecado por essa intersecção entre jornalismo, história e ficção, que são os três campos em que trabalho hoje. Cada um tem seus limites e suas possibilidades. Em Brimos, como jornalista e historiador, eu tinha de me ater às entrevistas e aos documentos. Não é uma coisa ruim. É um lastro que mantém a gente com o pé no chão. Mas era impossível contar a história de um sírio apaixonado por um outro homem nos anos 1930. Ninguém fala sobre isso, ninguém deixa rastros. Se eu não inventasse a história do Yacub, não teria como abordar essa faceta da experiência dos imigrantes sírios no Brasil. Essa é a vantagem da ficção. Em termos de desvantagens, imagine quão difícil é imaginar uma cena sem o apoio de memórias ou documentos –– e essa cena ser crível, verossímil. Precisei andar com calma, dar um passo de cada vez.

Não vejo o seu livro como um romance LGBT, mas a relação de Yacub com seu amigo de infância e depois com seu colega de quarto no Brasil trazem elementos pouco vistos em histórias de imigração no Brasil e isso acaba chamando muita atenção no romance Você encontrou documentação de gays sírios/libaneses no Brasil?

Eu também não vejo o livro como um romance LGBT. Nunca pensei nele assim. Até me incomoda um pouco, porque isso é colocar um enredo universal –– sobre medo, solidão, desejo, culpa –– em uma caixa. Vira um livro sobre a homossexualidade, em vez de contar a história de um jovem sírio com medo de estar sozinho. Não nego, é claro, a importância do amor entre dois homens no livro. Principalmente pelo que eu mencionei na minha resposta anterior: não existe documentação sobre sírios e libaneses homossexuais no Brasil. Eles certamente existiram, nem vou tocar nesse ponto. Mas era um período em que as pessoas nem tinham palavras para falar sobre essas experiências. Além disso, essas histórias foram sendo varridas para debaixo do tapete, em duas sociedades –– a síria e a brasileira –– ainda hoje conservadoras.

E em que medida você acha que esse livro dialoga com questões atuais ligadas à imigração, sobretudo no Brasil?

Alguns leitores têm me escrito sobre o impacto de terem lido um romance descrevendo São Paulo pelos olhos de um imigrante, e não de um nativo. Achei isso tão bonito. Tem essa coisa de que os outros enxergam coisas que a gente é incapaz de ver. Tem também a conscientização –– eu espero –– do quão custoso é chegar a um lugar novo. Eu tenho muita empatia pelos imigrantes, sejam aqueles de 1930 ou os de 2022. Empatia e gratidão, porque a cidade e o país seriam muito diferentes sem eles.

Adoro o modo como você introduz os elementos fantásticos ligados às lendas e religiosidades sírio-libanesas no livro, como os jinns. Como foi trazer esse imaginário tão pouco conhecido para um romance passado quase inteiramente no Brasil?

Os jinn são criaturas fascinantes. Feitas de um fogo que não faz fumaça, de um vento escaldante. Vivem nos espaços entre as coisas, debaixo dos batentes, na linha que separa dois líquidos. Quis que esse monstro viesse com o Yacub para o Brasil, talvez como uma metáfora das coisas que ele trouxe consigo e de que não foi capaz de se desfazer. Era importante, também, que esse elemento mítico sempre ficasse enevoado, que o leitor não tivesse certeza de que era real. É como eu vivo o fantástico, acho.

Depois de tantos anos cobrindo Oriente Médio e escrevendo academicamente sobre o assunto, como foi realizar essa transição para a literatura?

Foi libertador. Primeiro, como eu disse antes, porque era uma oportunidade de explorar as coisas que eu nunca consegui como jornalista ou historiador. Mas também porque eu consegui dar vazão a imagens e sensações que tenho carregado há anos. O vilarejo do Yacub, por exemplo, descarrega o que eu vi no interior do Líbano e não tinha sido capaz de descrever até então. Foi, de certa maneira, como se as peças de um quebra-cabeça fossem finalmente se encaixando, enquanto eu escrevia o livro.

Quais suas influências enquanto romancista? Que nomes te inspiram, te influenciam?

Não sei nem dizer. Eu leio de tudo um pouco. Vou tateando no escuro, sentindo a lombada dos livros. Um romance que me marcou muito foi O Dicionário Kazar, do escritor sérvio Milorad Pávich. Os livros dele têm essa mistura de real com fantástico, de secular com religioso. Tem também essa linha tênue entre cristianismo e islã, que de uma maneira sutil marca meu romance. Tem um estilo simples, que é como eu gosto de escrever. Sempre que leio os livros dele penso: queria tanto escrever assim!

Você já trabalha em um próximo romance (ou mesmo num retorno às HQs)?

Eu certamente vou escrever outro romance. Já comecei a anotar algumas ideias esparsas. Mas tenho me forçado a ser paciente, a esperar um pouco. Digerir as ideias. Às vezes acho que vai ser outro romance histórico sobre os árabes na São Paulo de 1930. De repente reaproveitar alguns elementos desse primeiro livro. Depois, desisto e decido escrever ficção científica. Ou algo no tempo presente. Tudo isso para dizer: está tudo em aberto. De toda maneira, o mais importante é decidir a mensagem e o tom.

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