Em novo trabalho, Planeta Fome, Elza segue com uma música combativa contra a violência e o racismo e explora a potência de sua própria história

é atemporal, mas segue como a artista que melhor reverbera questões dos dias de hoje. A voz continua maravilhosa, com o timbre único dela, inconfundível.

Seu disco mais recente faz referência à sua participação no programa Calouros em Desfile, na Rádio Tupi, apresentado por Ary Barroso. Ao vê-la vestida com trajes pobres, o apresentador perguntou: “De que planeta você veio, minha filha?”. E ela respondeu: “Do mesmo planeta que o senhor, do Planeta Fome.”

A cantora estourou em 1960, em plena Bossa Nova. Reconhecida por misturar samba com o jazz, dominava os dois ritmos, mas não se denominava como adepta ao estilo. Suas entonações de voz surpreendentes e em variados estilos lhe conferiram o título de “cantora do milênio” em 2000 pela BBC de Londres.

Quando era pequena não possuía rádio em casa e seus ensaios eram brincando com o swing da voz dentro da lata d’água, que carregava na cabeça enquanto lavadeira. Atravessou décadas com uma carreira cheia de percalços, mas chega vitoriosa como um dos nomes mais importantes da música brasileira de todos os tempos. Fez um show no Rock In Rio lotado com diversos convidados.

Elza segue saindo da zona de conforto ao explorar diferentes gêneros. (Marcos Hermes/Divulgação)

Elza é personagem viva, que comprova como a criatividade da razão e sensibilidade é inventiva e autêntica. O lado que Elza Soares escolheu canta, grita. Seus três últimos discos, A Mulher do Fim do Mundo (2015) e Deus é Mulher (2018) e Planeta Fome (2019) falam por si. “Meu amor, eu não vou sucumbir e espero que o Brasil também não venha a sucumbir”, conta com exclusividade à Revista Grito!

Por que o título Planeta Fome?
É que a fome continua. Eu não busquei nada estranho, nada extraordinário. É o que está visível. A fome continua mais forte ainda. Depois de tantos anos, eu vejo a fome. Eu julgava que a fome fosse de comida, mas eu vejo que a fome hoje é de saúde, de respeito, de cultura. Enfim, tudo isso para mim é fome e eu continuo num planeta faminto.

Os seus últimos dois álbuns, “A Mulher do Fim do Mundo” e “Deus é Mulher” foram considerados os melhores de suas temporadas por revistas especializadas e premiações nacionais e internacionais. Planeta Fome mantém essa liga?
Eu digo o seguinte: são 84 discos de Elza! Oitenta e quatro! É difícil mesmo, né? Aí tem três para serem escolhidos os melhores: “A Mulher do Fim do Mundo’, “Deus É Mulher” e agora o “Planeta Fome”. Gente, eu acho que está tudo na cara, tudo é tão visível. Se você quiser se fala tudo nesse país. Eu tenho tristeza de ficar repetindo sempre a mesma coisa, sempre tristeza. Mas quisera eu cantar canção só de alegria, mas não posso.

Você dialoga com artistas da nova geração. Como ocorre essa parceria?
Todos os novos nomes que eu trouxe par o “Planeta Fome” já existem. Por exemplo, o Pedro Loureiro além de ser um excelente produtor e empresário, é um incrível cantor com “Blá Blá Blá”. E tem também o Rafael Mike. São pessoas boas, de talento. Que estão comigo, tudo talentoso. Não fui quem trouxe não, eles vieram.

Meu amor, mulher preta como eu, por favor, quebre o espelho! Só olhe o espelho para olhar a tua beleza! A cor da tua pele? jamé!

Brasis é um dos casos de releitura, com uma música que originalmente é assinada por Seu Jorge, Gabriel Moura e Jovi Joviniano, assim como duas de Gonzaguinha – “Comportamento Geral” ePequena Memória para um Tempo sem Memória” – e uma de Caio Prado, com “Não Recomendado”. Como é seu processo criativo de releitura dessas canções?
Elas falam a minha linguagem, elas falam sobre o Brasil de hoje. Parece brincadeira, a música que foi feita há tanto tempo e aborda a linguagem atual. Eu escolho o que está acontecendo no momento e, nesse momento, o que me toca, são essas músicas.

Pode falar um pouco sobre “Libertação”, com letra de Russo Passapusso ?
Meu amor, eu não vou sucumbir e espero que o Brasil também não venha a sucumbir. É isso que eu canto: eu não vou sucumbir (cantarolando)! É isso o que eu quero dizer pra todo mundo. Por favor, nós não vamos sucumbir!

Como você percebe, enquanto mulher de favela, a situação da mulher negra, trabalhadora na atual conjuntura brasileira? Quais os avanços e os retrocessos que podemos verificar na vida dessa mulher?
É não olhar no espelho a cor da pele e ir em frente como eu fui e como faço. Eu vejo a mulher como “mulher”, seja branca, seja negra, seja rosa… Veja a mulher: ela sofre de qualquer jeito! Se não fosse assim, mulher branca não tinha que denunciar 180 [O Ligue 180 recebe denúncia de violência contra a mulher]. Há mais denúncia de mulher branca do que de mulher preta. Essa não tem nem coragem de denunciar. Eu vejo tudo igual com muita dificuldade para todas. Só que a mulher preta tem que ter coragem. Meu amor, mulher preta como eu, por favor, quebre o espelho! Só olhe o espelho para olhar a tua beleza! A cor da tua pele? jamé!

O que fez com que você, diante das dificuldades, continuasse lutando e usando sua música como arma política? Qual recado você tem para a juventude?
Não parar! Sabendo hoje que a juventude está muito desamparada e ter muito cuidado com o que ouve no que vê. A juventude está jogada, hoje ela tem o que? Por favor! Eu sou de um tempo em que os jovens, os estudantes irem pra rua… era aquela coisa linda. Os estudantes podiam falar. Hoje eu não vejo, não sei nem se tem estudante. É tão difícil! Juventude, por favor, olhe o caminho que está seguindo, olha a estrada que te deixaram. Por favor, vá em frente, cabeça erguida, porque esse país depende de vocês, jovens! Vem cá, meu menino, é você, viu?

Você acha que é mais fácil ser mulher hoje do que quando você se mostrou moderna em uma época conservadora?
Ser mulher sempre foi muito difícil. Nunca vi momento fácil pra ser mulher, entendeu? A gente continua na batalha. Ser mulher, forte, sem fragilidade… Não pode nem chorar. Tem que ser forte. Então, ser mulher é sempre muito difícil, meu amor!

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