Desde a chegada da pandemia de Covid-19 ao Brasil, a cantora está em Belo Horizonte, onde ela e sua família se isolaram desde março. Ela divide as atividades da casa com o marido, , e a filha, Nina.  Será Que Você Vai Acreditar?, novo disco solo de Fernanda, chegou em julho último e, mesmo não tendo sido feito pensando nisso, dialoga diretamente com o momento que o mundo vive.

O disco abre com “Terra Plana”, de autoria de John, que também tocou todos os instrumentos do álbum. Se alguém te contar que a Terra é plana e não dá pro espaço viajar. Será que você vai acreditar? Não pode ser, onde é que eu errei? Como é que isso foi acontecer?, diz a letra da canção. A música, lançada em forma de lyric vídeo desde maio, se tornou alvo da ira de terraplanistas.  A música, apesar do título, não é panfletária ou algo do tipo, apenas um convite à reflexão, algo que se estende por todo o disco, que traz canções de amor e empatia.

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O álbum mescla canções de Fernanda a outras escritas por John e também tem alguns covers escolhidos a dedo como “One Day in Your Life”, conhecida na voz de Michael Jackson e “Love is a Losing Game”, de Amy Winehouse. A lista ainda tem “Não Esqueça”, de Nico Nicolaiewsky. “Por mais que o alinhamento de canções tente seguir um fluxo, ele tem muito de intuição. As canções, ouvidas do ponto de vista pandêmico e da situação atual do Brasil, se transformam em algo mais forte e cheio de significado”, ressalta Fernanda.

O disco traz uma sonoridade que se aproxima do , se distanciando um pouco da pegada de bossa nova que Fernanda Takai vinha seguindo nos últimos trabalhos. Em entrevista à Revista O Grito!, a artista fala sobre música, arte, pandemia e política. Confira:

Primeiro queria saber como está sendo esse período de isolamento. O disco já era planejado ou foi algo que surgiu durante a quarentena?
Estava planejado e seria gravado nos intervalos das viagens do Pato Fu (Música de Brinquedo 2) e das minhas com meu disco solo mais recente (O Tom da Takai). Mas como as agendas caíram, usamos o tempo que agora estava sobrando, para focar no álbum. O repertório já estava praticamente fechado, então resolvemos fazer tudo aqui, só nós dois em nosso estúdio de casa.

O álbum apresenta um trabalho meio familiar. É uma iniciativa que vocês buscaram? “O Amor nos Tempos da Cólera” é uma canção a la Gabriel Garcia Márquez?
Acho que o sentido de um álbum se firma quando ele fica pronto. Por mais que o alinhamento de canções tente seguir um fluxo, ele tem muito de intuição. As canções, ouvidas do ponto de vista pandêmico e da situação atual do Brasil, se transformam em algo mais forte e cheio de significado. As coincidências que encontramos hoje numa letra como “Não Esqueça”, feita há quase dez anos, são incríveis. Mas no fim são músicas sobre o amor ou a falta dele. Sobre a necessidade de carinho e cuidado. Sobre a nossa vulnerabilidade. No caso da canção composta com a Virginie, fizemos uma referência ao livro do Garcia Márquez, mas atualizando essa cólera para os tempos violentos, de ataques gratuitos nas redes e na vida. Precisamos encontrar fragmentos de amor e felicidade no cotidiano pra continuar respirando.

Foto: Dudi Polonis.

Como você gosta de realizar parcerias com outros artistas no seu trabalho? Como você escolhe explorar isso a cada novo ciclo de trabalho?
Algumas vezes penso simplesmente em trazer mais pra perto, alguém por quem sinto afinidade ou admiração e é muito gostoso quando essas pessoas aceitam o meu convite. Ao longo da minha carreira vou encontrando espaços para isso, seja através de um convite pra cantar, tocar ou compor junto.

Você é Amapaense. Você acha que existe alguma coisa das suas origens que reflete na música que faz ou se sente quase totalmente mineira?
Acredito que eu seja reconhecida como expoente da cena mineira por conta dos anos que tenho vivido aqui, da família que construí e da história de nossa banda. Mas também me vejo representando um pouco toda a diversidade que há na música brasileira. Se olhar o meu repertório solo e também o do Pato Fu, trazemos além das canções autorais, regravações de artistas vindo de um universo mais popular, faixas de outras épocas e outras turmas que não são exclusivamente do pop rock. Morei por pouco tempo no Amapá, mas sinto um carinho imenso pelo estado, tenho vontade de voltar à Serra do Navio, onde nasci.

O Brasil é muito conhecido por suas cantoras, sobretudo na MPB. Parece que em outros gêneros é mais complicado para a mulher. Como você vê a contribuição para das mulheres na nossa música?
Sabemos de nosso valor e nunca podemos nos esquecer disso. Temos que lutar cotidianamente por reconhecimento, por respeito. Acho que não dá pra deixar passar nenhum tipo de comportamento que nos diminua. Questionando e conversando podemos fazer as pessoas pensarem sobre isso, pois às vezes o que falta é propor a reflexão e mostrar um outro ponto de vista. Há mulheres competentes em praticamente todas as áreas da cadeia produtiva da música: cenógrafas, engenheiras de som, iluminadoras, produtoras, empresárias, designers, musicistas, ter um time mais equilibrado é sempre mais gostoso.

O país está atravessando um momento de ascensão de posicionamentos ultraconservadores, de censura às artes. Como você tem enxergado esse momento vivido pelo país?
Era de se esperar por conta da visão negacionista e atrasada que nubla praticamente todo o staff no poder hoje. Por isso tentamos tanto, desde o golpe dado na presidente Dilma, mostrar que o Brasil andaria para trás em várias questões. Uma turma muito egoísta e submissa ao mercado mais cruel possível está nos levando a um abismo do qual vai ser difícil escalar a volta.

Vamos conseguir sair desta? Você é otimista em relação ao futuro?
É preciso ser! Não tenho intenção alguma em sair do país, então tenho que lutar por ele e tentar melhorá-lo para todos nós.

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